Como o aquecimento global pode ter contribuído para a tragédia no Himalaia?

Cientistas investigam como diferentes fatores, incluindo o aquecimento, podem ter agravado as consequências da enchente

Mudança climática
Crédito: Thibault Renard/ iStock

Lilian Campos 2 minutos de leitura
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Uma enchente devastadora atingiu nesta semana a região do Himalaia, na fronteira entre Nepal e Tibete, após o colapso de uma grande massa de gelo e rochas. Segundo cientistas ouvidos pela Reuters, as mudanças climáticas podem ter aumentado o risco de um desastre desse tipo.

O episódio deixou ao menos 165 mortos e quase 1.500 pessoas desaparecidas, incluindo cerca de 800 estrangeiros, segundo as autoridades citadas pela Reuters. A origem exata do desastre ainda está sendo investigada.

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COMO A ENCHENTE COMEÇOU?

Cientistas acreditam que o desastre tenha começado com uma avalanche de gelo e rochas nas encostas do pico Langtang Lirung, no Nepal. O material teria caído no rio Lhende Khola, no lado tibetano, desencadeando uma sequência de eventos que provocaram as enchentes.

A força da água e dos detritos atingiu cidades e vales, além de danificar pelo menos seis grandes usinas hidrelétricas e estruturas do porto de Gyirong, importante ponto de comércio entre o Tibete e o Nepal.

Os canais dos rios também foram alterados em um trecho de mais de 100 quilômetros.

QUAL É O PAPEL DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

Os especialistas ressaltam que ainda não é possível apontar as mudanças climáticas como a causa direta e isolada do desastre. No entanto, o aquecimento das regiões montanhosas pode criar condições que deixam gelo e rochas mais instáveis.

O aquecimento global reduz o suporte do gelo em encostas íngremes, acelera o derretimento e altera os ciclos de congelamento, descongelamento e precipitação regional. Essas alterações podem enfraquecer determinadas áreas das montanhas e favorecer grandes deslizamentos.

Segundo Simon Cox, cientista-chefe do programa “Mountains to Sea”, da Earth Sciences New Zealand, as mudanças climáticas estão criando condições capazes de desestabilizar rochas e gelo em regiões de alta montanha.

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DESASTRES SEMELHANTES JÁ ACONTECERAM

A enchente não é um episódio isolado na região. Segundo a Reuters, eventos semelhantes, embora de menor escala, ocorreram nos últimos anos.

Entre eles estão uma enchente em Gyirong, em 2025, e o rompimento de um lago glacial na vila de Thame, no Nepal, em 2024. Em 2023, outro episódio ocorreu no estado indiano de Sikkim.

O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) afirma que enchentes, deslizamentos, avalanches e secas estão aumentando em frequência e intensidade em diferentes áreas da cordilheira Hindu Kush.

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O GELO DO NEPAL ESTÁ DIMINUINDO

A situação também se relaciona a uma tendência de longo prazo. Dados das Nações Unidas citados pela Reuters apontam que o aquecimento global fez as montanhas cobertas de neve do Nepal perderem quase um terço de sua cobertura de gelo em pouco mais de 30 anos.

Além disso, o derretimento das geleiras do país foi 65% mais rápido na década anterior a 2023 do que no período anterior.

Para os cientistas, o desastre pode ser considerado um “evento composto”, no qual diferentes fatores (como atividade sísmica, perda de gelo, degelo do permafrost e instabilidade das encostas) se combinam e tornam as consequências mais graves.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais