Mesmo depois de avanços nas conversas e ações sobre equidade salarial, participação da mulher em posições de destaque e vieses ligados a gênero, a gravidez continua sendo um ponto delicado no mercado de trabalho. Ainda hoje, muitas profissionais não sabem se devem revelar suas gestações durante processos seletivos, por receio de serem preteridas como candidatas.

Com o objetivo de escancarar essa questão e encorajar, de um lado, contratações mais justas e transparentes, e de outro, fazer com que grávidas não desistam de se candidatarem às vagas que desejam, a Bloom está promovendo um call to action junto ao setor privado: a campanha #ContrateGrávidas.

Idealizada por Juliana de Faria, diretora de mobilização social da femtech, a iniciativa pede às empresas algo bastante simples: que ao anunciarem uma vaga, deixem claro que a posição está aberta para gestantes. O movimento já tem adesão de 99, Olist, Astra, Raízs, e conta com o apoio do Great Place to Work Brasil e da Fundação Maria Cecilia Souto.

Juliana de Faria, diretora de mobilização social da Bloom, criou o call to action #ContrateGrávidas, que já tem adesão de empresas como a 99 (Crédito: Divulgação)

“Por que não ter essa mudança na comunicação para que essas gestantes se sintam à vontade?”, questiona Juliana. Ela ressalta que empresas como o Google e o Facebook contratam grávidas há anos, mas que muitas ainda se abstêm não somente dessa discussão, mas da responsabilidade de oferecer o apoio necessário para mães e pais depois de a criança nascer. “A parentalidade ainda é muito vista como uma questão individual. Mas sempre foi algo coletivo, está no Estatuto da Criança e do Adolescente. Então por que o setor privado se ausenta disso?”, diz.

Ela esclarece, porém, que o call to action não pede obrigatoriedade tampouco cotas para gestantes. Trata-se somente de deixar claro que grávidas são bem-vindas a se candidatarem. Ao mesmo tempo, a Bloom está preparando um banco de boas práticas com empresas parceiras sobre como contratar, cuidar, gerir, reter e promover grávidas e mães.

A femtech nasceu no início de 2018 com a premissa de atuar no espectro da saúde, ajudando pais a criarem filhos de formas mais saudáveis. Mas, depois de passar por um programa de aceleração do Facebook, a empresa escolheu atuar como B2B. Hoje, a plataforma dá acesso a conteúdos, especialistas e telemedicina a funcionários que desejam ser mães e pais. “As empresas não estavam olhando para isso, faziam ações muito pontuais para a parentalidade”, afirma Roberta Sotomaior, CEO da Bloom.

Segundo ela, o objetivo da startup é acelerar a equidade, ajudar empresas a terem o selo feminine friendly e comprovar que, ao tratarem a parentalidade como uma questão séria, as empresas podem até reduzir custos, pois passariam a evitar que mulheres deixem seus cargos após a licença maternidade. De acordo com a pesquisa Think Thank, da FGV, após 24 meses quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade saem do mercado de trabalho — sendo que a maior parte dessas saídas se dão por justa causa e por decisão do empregador.

Fundadora da Think Olga e co-fundadora da Think Eva, ONGs-irmãs que fomentam a inovação social com foco em mulheres (a primeira junto à sociedade civil e a segunda junto ao setor privado), Juliana enxerga um cenário mais otimista do que há oito anos. Naquela época, as campanhas Chega de Fiu Fiu e Primeiro Assédio, idealizadas pelas consultorias, iam para a rua para amplificar o debate sobre a violência contra a mulher. Na visão dela, #ContrateGrávidas também busca combater a violência. “É aquela ideia de decidirem o que mulheres podem fazer com seus corpos. Alguns gestores punem mulheres por estarem grávidas. Mas temos de nos lembrar de onde viemos. Algumas empresas têm teto de vidro, mas hoje, não à toa, a resistência a esta campanha é bem menor”, comenta ela, que está na fase final de sua segunda gestação.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil