Criptomoedas: o sonho do sistema monetário descentralizado está morrendo

Investigações federais sobre a Binance e a FTX colocam em evidência uma indústria cada vez mais centralizada

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James Surowiecki 3 minutos de leitura

Tem sido um período difícil, em termos legais, para as maiores exchanges de criptomoedas do mundo. O fundador da FTX, Sam Bankman-Fried, foi indiciado por várias acusações, incluindo fraude, depois que sua corretora colapsou em novembro do ano passado, levando bilhões em ativos de clientes com ela.

Em fevereiro, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) processou a Kraken por não registrar seu programa de staking – uma forma de obter renda passiva com investimentos em criptomoedas. A exchange rapidamente concordou em parar de oferecer o serviço e pagou uma multa de US$ 30 milhões para encerrar as acusações. 

Se uma exchange falir, os clientes não terão a quem recorrer.

No início de março, a Coinbase (que havia acabado de chegar a um acordo de US$ 100 milhões em um processo movido por reguladores de Nova York) informou que a SEC a enviou uma “Wells Notice”, que é, em essência, uma carta informando que uma ação de fiscalização pode estar a caminho.

Por fim, na segunda-feira (03 de abril), a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) entrou com um processo contra a maior exchange do setor, a Binance, alegando uma ampla gama de violações dos regulamentos de commodities dos EUA.

CENTRALIZAÇÃO

A queixa de 74 páginas emitida pela CFTC descreve a corretora como uma empresa que descumpre a legislação sempre que possível. A comissão alega que a Binance violou os regulamentos de análise de clientes e de lavagem de dinheiro; solicitou que investidores norte-americanos

Crédito: Divulgação

negociassem em sua plataforma, apesar de nunca ter sido registrada nos EUA como exchange; e negociou em sua própria plataforma por meio de centenas de contas controladas pelo CEO da empresa, Changpeng Zhao.

É de se imaginar que todas essas notícias seriam ruins para os negócios. Mas o que realmente chama a atenção é que isso não parece ter feito muita diferença.

Como um editorial do CoinDesk recentemente colocou, as criptomoedas foram projetadas com “o objetivo de capacitar os indivíduos a controlar seus próprios destinos na era digital, sem depender das estruturas governamentais e corporativas”. No entanto, a maioria das transações agora ocorre em exchanges centralizadas, como a Binance, que são estruturas altamente corporativas.

Elas são as guardiãs dos ativos em criptomoedas. Executam negociações e operam a plataforma onde ocorrem. E, se você acredita na CFTC (ou olha para o que aconteceu com a FTX), em alguns casos, elas podem até estar do outro lado da negociação. Chamar essas empresas de “exchanges” é, na verdade, um equívoco. Na melhor das hipóteses, são corretoras e operadoras, tudo em um só lugar.

QUESTÃO DE CONFIANÇA

A criptomoeda foi criada para permitir que os usuários possam manter seus próprios ativos digitais em carteiras virtuais e negociar diretamente entre si em exchanges descentralizadas, com negociações registradas no blockchain.

No entanto, a maioria dos investidores e negociadores têm preferido as exchanges centralizadas. É fácil entender por quê. Elas são muito mais fáceis de usar para iniciantes. São os únicos lugares onde você pode trocar criptomoedas por dinheiro emitido por governos e bancos centrais, como o dólar, de forma confiável. E, como têm muitos clientes, é mais fácil encontrar um comprador ou vendedor e negociar a um preço justo.

a maioria das transações agora ocorre em exchanges centralizadas, que são estruturas altamente corporativas.

Como resultado, muitos investidores têm depositado sua confiança nessas empresas, acreditando que elas sempre executam transações com a melhor taxa, separam seus ativos dos da empresa, e que mantêm capital suficiente em caixa – apesar de serem pouco regulamentadas.

Além disso, como vimos com a FTX, se elas não estiverem fazendo tudo isso – ou se simplesmente administrarem mal seus negócios e acabarem falindo – você não terá como recorrer. O que, como também vimos com a FTX, é uma surpresa para muitos clientes.

Isso cria uma situação peculiar no universo das criptomoedas. A maioria dos investidores acaba confiando seus ativos a grandes corporações, que se parecem com instituições financeiras tradicionais, mas que têm muito menos supervisão e regulamentação.

É claro que a Binance e todas as outras exchanges insistem que estão fazendo negócios de forma honesta e que protegem os ativos de seus clientes. E talvez isso seja verdade. Mas a única garantia que temos é a palavra deles.


SOBRE O AUTOR

James Surowiecki é jornalista e escritor, autor de "A Sabedoria das Multidões". saiba mais