Empresa de design reimagina o consumo de microdoses de drogas

Crédito: New Territory

Mark Wilson 2 minutos de leitura

Há muitas gerações, consolidou-se o costume de começar o dia com cafeína e encerrar com álcool. Essas eram as drogas permitidas, tanto do ponto de vista legal quando por participarem de nossas vidas de uma forma socialmente aceita. Não por acaso, servir um cafezinho para as visitas e estourar uma garrafa de espumante são gestos culturais tão familiares.  

Mas agora, com a progressiva legalização da cannabis e com a nova onda de pesquisas positivas sobre psicodélicos, a sociedade está começando a reavaliar sua relação com o uso de outras substâncias. Beber uma cerveja artesanal não deveria ser considerado um hábito mais correto moralmente do que fumar um baseado.

As possibilidades dessa nova mentalidade inspiraram a criação do Human Nature, um produto conceitual desenvolvido pela empresa de design NewTerritory, com sede em Londres.

Human Nature é, em essência, um vape (tipo de cigarro eletrônico) inteligente, que pretende desestigmatizar a microdosagem, transformando-a em um ritual. Foi projetado para parecer convidativo, não ilícito. É para a pessoa saborear, em vez de esconder.

Créditos: NewTerritory

“Há muito estigma em torno das drogas terem determinada aparência, gosto ou cheiro. Desde quando somos crianças, tomar remédios nunca é algo particularmente divertido”, diz James Ravenhall, diretor criativo da NewTerritory. “Mas estamos nos afastando desses preconceitos e tornando a experiência amigável para novos usuários de psicotrópicos.”

O vape vem com quatro cartuchos em forma de algas, impressos em 3D. Cada um contém um medicamento específico, identificável pela forma. E, sim, alguns deles ainda são ilegais.

O cartucho de LSD tem um formato mais pontudo, que remete ao efeito de produzir foco mental.  Já a melatonina vem em um recipiente em forma de nuvem, que representa os sonhos lúcidos, por exemplo. Os diferentes cartuchos têm o mesmo encaixe, que permite conectá-los ao vape.

O design também ajuda a evitar confusões. Ninguém quer correr o risco de, acidentalmente, consumir alucinógenos quando, na verdade, planejava tomar uma pequena quantidade de melatonina para dormir durante um voo.

Os vapes conceituais da NewTerritory vêm junto com um patch de pele – um meio de aferir a biometria do usuário. A empresa de design concebeu ainda um aplicativo para o cliente gerenciar a dosagem com cuidado, garantindo que não seja mais afetado do que gostaria.

Assim como os diabéticos usam adesivos para monitorar continuamente o açúcar no sangue, o patch quantifica o efeito que cada medicamento tem no sistema do usuário. A longo prazo, será possível ter um feedback mais quantificado sobre a experiência de tomar alucinógenos e outras drogas.

“Sonhávamos com essa fase em que os psicodélicos fariam mais do que apenas deixar as pessoas no fundo do poço”, diz Ravenhall. “Agora, a pergunta é: se uma pessoa está se sentindo para baixo ou se tem insônia, por que isso acontece? Se tivermos tecnologias inteligentes para entender o que está acontecendo, em nível quase molecular, conseguiremos diagnosticar melhor o paciente e fazer uma prescrição suave de alguns desses medicamentos.”

Sem dúvida, o criativo tem uma visão otimista de nosso futuro movido a drogas, no qual as maiores empresas do setor estarão mais preocupadas com nosso bem-estar do que em nos empurrar goela abaixo o máximo possível de substâncias. Estamos sendo excessivamente otimistas? Talvez. Mas sinta-se à vontade para partilhar comigo o seu CBD, se algum dia nos encontrarmos.


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais