Livre expressão e aumento do número de usuários: os objetivos contraditórios de Musk para o Twitter

Crédito: Fast Company Brasil

Redação Fast Company 3 minutos de leitura

Quando o Twitter anunciou a compra da plataforma por Elon Musk, seu comunicado à imprensa trazia também uma declaração do bilionário sobre seus planos e o que pretendia para a empresa. Mas estranhamente uma palavra tinha ficado de fora – “lucro”.

Embora tenha mencionado seus planos para melhorar a experiência do usuário na plataforma, ele deixou claro que não gastou US$ 46 bilhões para adquirir a empresa no intuito de enriquecer (ou melhor, ficar mais rico do que já é). Fez isso por acreditar que o ambiente digital precisa de mais “liberdade de expressão”.

Ainda é impossível dizer com certeza o que ele tem em mente. Mas, nesse caso, é difícil não acreditar na sua palavra, já que, em termos econômicos, esse acordo não faz muito sentido. Se realmente der seguimento ao seu plano de transformar o Twitter em uma plataforma com liberdade de expressão irrestrita para todos, será ainda mais difícil ter um retorno razoável do enorme investimento que fez.

Musk está investindo US$ 21 bilhões de seu próprio bolso como parte do acordo. Além disso, tomou um empréstimo de cerca de US$ 25 bilhões: metade dele tem como garantia as ações da Tesla, sobre o qual pagará uma taxa de juros de 4%. Ou seja, todo o lucro do Twitter será apenas para pagar os juros de sua nova dívida. Se quiser ter um retorno adequado de seu investimento bilionário, terá que arranjar alguma forma de aumentar drasticamente a lucratividade da plataforma. 

Se Musk quiser ter retorno adequado de seu investimento, terá que arranjar uma forma de aumentar drasticamente a lucratividade.

Uma solução óbvia seria aumentar o número de usuários. Para os defensores da cruzada de “liberdade de expressão” de Musk, se o Twitter parar de censurar conteúdos e banir perfis por declarações ofensivas ou falsas, o número de usuários aumentará. Só que não há evidências concretas para sugerir que este seria o caso.

No entanto, há uma simplicidade envolvente na proposta do empresário: liberar as pessoas para dizerem o que quiserem e deixar tudo acontecer naturalmente. Mas, independentemente de questões éticas ou filosóficas, sob o ponto de vista comercial, facilitar a veiculação de insultos racistas e homofóbicos, o assédio e a enganação certamente afastará muita gente do Twitter, sem contar os anunciantes.

Há ainda outra questão importante a ser levada em consideração: a União Europeia aprovou recentemente uma lei que responsabiliza as plataformas por discurso de ódio e desinformação, com multas equivalentes a até 6% da receita anual da empresa. Ainda não está totalmente claro como esse “vale-tudo” na moderação de conteúdo conseguirá escapar da aplicação da lei nos países-membros do bloco.

facilitar a veiculação de insultos, o assédio e a enganação certamente afastará muita gente do Twitter.

Existe um conflito quase que estrutural entre a insistência de Musk de que as pessoas devem poder dizer o que querem e o que o Twitter precisa para prosperar como plataforma. Assim, precisamos aguardar para ver se ele realmente adotará uma posição absolutista quanto à liberdade de expressão ou, o que é mais provável, se acabará apenas afrouxando as regras, sem realmente abandonar a moderação de conteúdo.

Musk tem afirmado repetidamente que esse acordo não tem nada a ver com lucro. E ele tem dinheiro suficiente – pelo menos enquanto o valor das ações da Tesla se mantiver – para poder se dar ao luxo de perder US$ 1 bilhão por ano, se assim quiser. Mas, mesmo que não se importe com lucro, não gastou US$ 46 bilhões para presidir a chamada “praça digital” do Twitter para ver o número de usuários diminuir e a plataforma perder influência. Ou seja, no fim das contas, ele provavelmente fará o que for preciso para manter as pessoas lá, mesmo que isso signifique, às vezes, dizer “aqui você não pode falar isso”.

(Com base em reportagem de James Surowiecki, jornalista e escritor, autor de “A Sabedoria das Multidões”)


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Redação Fast Company Brasil. saiba mais