Lula é reeleito presidente do Brasil e promete regular Big Tech
Presidente conquistou o quarto mandato com 51,79% dos votos válidos; após uma eleição marcada por disputas digitais, defendeu soberania tecnológica e investimentos em data centers

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) para um quarto mandato à frente do Brasil. Com 51,79% dos votos válidos, o equivalente a 64.256.232 votos, Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL), que recebeu 48,21%, ou 59.826.041 votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
É a primeira vez que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar consegue reverter o resultado na etapa seguinte. Lula também se tornou o primeiro presidente brasileiro eleito quatro vezes pelo voto direto, após as vitórias de 2002, 2006 e 2022.
Em seu primeiro discurso após a reeleição, Lula voltou a defender a regulação das plataformas digitais e a criação de uma inteligência artificial (IA) brasileira. Também prometeu ampliar os investimentos em economia digital e infraestrutura tecnológica.
“Foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las”, afirmou o presidente.
UMA ELEIÇÃO MARCADA PELAS DISPUTAS DIGITAIS
As eleições de 2026 foram marcadas pelo papel central das plataformas digitais na campanha e pelos questionamentos sobre a atuação das empresas de tecnologia. Redes sociais, canais de WhatsApp, algoritmos de recomendação e sistemas de inteligência artificial entraram no debate eleitoral e chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral.
Os canais de WhatsApp ganharam força como ferramentas de mobilização. O Exército do Lula, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), ultrapassou 10 milhões de seguidores na reta final da campanha, segundo a Agência Brasil. Já a Tropa do Flávio reunia 2,07 milhões de seguidores em 21 de outubro, conforme levantamento da Fast Company Brasil.
Como mostrou uma reportagem da Fast Company Brasil sobre a transformação das campanhas, o impulsionamento digital representava 12,1% das despesas declaradas pelos candidatos no primeiro turno, somando R$ 368,5 milhões. Os números são de um levantamento realizado pela revista com dados preliminares do TSE.
Outra apuração acompanhou 247 mensagens nos canais de WhatsApp de apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro durante o debate da Band. A análise identificou diferentes estratégias de distribuição de vídeos, uso de hashtags e mobilização de seguidores.
As plataformas também estiveram no centro de denúncias sobre o tratamento dado aos candidatos. Em testes realizados pela Fast Company Brasil, a Meta AI gerou cartazes com "Flávio 22", mas recusou solicitações semelhantes com "Lula 13".
A empresa afirmou ter corrigido uma falha nos mecanismos de segurança e negou favorecimento político. O Conselho de Supervisão da Meta também apontou problemas na moderação de conteúdos eleitorais, sem concluir que houve interferência intencional na disputa.
No discurso após a reeleição, Lula criticou o poder econômico das grandes plataformas e as acusou de tentar interferir no processo eleitoral brasileiro.
“Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para este país e tentando direcionar o resultado eleitoral deste país”, declarou.
O presidente também afirmou que pretende ampliar a presença digital de seu governo. Após agradecer a Janones pelo trabalho de mobilização durante a campanha, prometeu se comunicar mais diretamente com a população.
“E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo.”
BIG TECHS, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E SOBERANIA DIGITAL
A inteligência artificial foi outro tema central do discurso. Lula afirmou que pretende ampliar o ensino de matemática e engenharia para reduzir a dependência brasileira de tecnologias desenvolvidas em outros países.
"Eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana. Eu quero criar uma brasileira", declarou.
O presidente também defendeu investimentos em infraestrutura digital, aproveitando o potencial brasileiro de geração de energia renovável para atrair data centers. Segundo ele, parte dessa infraestrutura deverá ser destinada ao armazenamento de dados brasileiros.
Lula citou ainda a economia verde e a economia criativa como áreas prioritárias para o desenvolvimento econômico, ao lado da economia digital.
As propostas apresentadas no discurso não vieram acompanhadas de cronogramas, estimativas de investimento ou detalhes sobre os instrumentos regulatórios que serão adotados.
A REPERCUSSÃO DA ELEIÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS
A eleição também ganhou repercussão internacional, especialmente nos Estados Unidos, pela proximidade de Flávio Bolsonaro com o presidente americano Donald Trump.
Embora Trump não tenha declarado apoio formal à candidatura do senador, os dois são aliados políticos. Segundo uma reportagem do Washington Post, a decisão da Casa Branca de evitar manifestações explícitas foi estratégica, diante do risco de prejudicar o desempenho eleitoral de Flávio.
O jornal americano interpretou a vitória de Lula como uma interrupção da sequência de vitórias de candidatos conservadores alinhados a Trump na América Latina. Já a Associated Press destacou o significado do resultado para a influência dos Estados Unidos na região.
A relação com os Estados Unidos também apareceu no discurso de Lula, que defendeu a soberania nacional e afirmou que o Brasil não aceita ser "quintal de ninguém".
O novo mandato de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) começa em 5 de janeiro de 2027.