Machosfera preocupa: ONU e Unicef lançam guia para ajudar pais

A publicação reúne conceitos, termos e alertas para ajudar pais a entender o fenômeno

Machosfera
Entenda os grupos, expressões e caminhos que aproximam adolescentes da machosfera. (Foto: rezendeluan/ Sandor Bodogan/ Getty Images)

Lilian Campos 4 minutos de leitura

Crianças e adolescentes passam cada vez mais tempo conectados, seja para estudar, conversar com amigos ou consumir vídeos nas redes sociais. Nesse ambiente, conteúdos aparentemente inofensivos podem introduzir ideias que estimulam a hostilidade contra mulheres e reforçam modelos rígidos de masculinidade.

Para ajudar as famílias a compreender o fenômeno, a ONU Mulheres Brasil e o Unicef lançaram o guia “No Mesmo Time”, adaptação brasileira de uma campanha criada pelo Comitê Nacional da ONU Mulheres no Reino Unido. O material orienta pais e responsáveis a reconhecer discursos da chamada machosfera e iniciar conversas com os jovens.

O QUE É A MACHOSFERA?

A machosfera não corresponde a um único site, movimento ou organização. De acordo com o guia, o termo descreve um conjunto de fóruns, canais de vídeo, perfis e comunidades online frequentados majoritariamente por homens e meninos.

Esses espaços podem abordar masculinidade, relacionamentos, sucesso, aparência e desenvolvimento pessoal. Apesar das diferenças entre as comunidades, muitas compartilham hostilidade contra mulheres e contra os direitos femininos.

Entre as ideias difundidas estão as crenças de que a igualdade prejudica os homens, de que a sociedade favorece injustamente as mulheres e de que homens teriam direito à atenção ou ao sexo feminino. O material ressalta, contudo, que nem todo grupo voltado ao público masculino faz parte da machosfera.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS GRUPOS?

O guia apresenta quatro grupos frequentemente associados a esse ecossistema digital. Um deles é formado pelos incels, abreviação em inglês para “celibatários involuntários”.

Esses homens acreditam que serão rejeitados pelas mulheres e costumam responsabilizá-las por sua solidão e infelicidade. Parte deles também trata a atração como algo determinado exclusivamente por aparência, riqueza e status.

Outro grupo reúne os Pick-Up Artists, conhecidos pela sigla PUAs. Eles dizem ensinar técnicas de conquista, mas frequentemente apresentam relacionamentos como uma competição e incentivam estratégias de manipulação ou controle emocional.

Também aparecem os MGTOW, sigla para “homens seguindo seu próprio caminho”. Seus integrantes defendem que homens evitem relacionamentos com mulheres para supostamente se proteger de exploração ou sofrimento.

Já os chamados ativistas pelos direitos dos homens, ou MRAs, discutem temas como saúde mental e direitos paternos. O guia pondera que alguns promovem debates legítimos, enquanto outros rejeitam direitos femininos e afirmam que a sociedade beneficia as mulheres.

TERMOS USADOS NA MACHOSFERA

Mudanças no vocabulário podem ajudar os responsáveis a identificar a aproximação com esses conteúdos. Um dos termos mais conhecidos é “red pill”, usado para descrever alguém que teria “acordado” para a falsa ideia de que a sociedade favorece as mulheres.

Expressões como “alfa”, “Chad”, “beta” e “cuck” também criam uma hierarquia masculina. Os primeiros seriam apresentados como dominantes, atraentes e bem-sucedidos, enquanto os demais seriam tratados como fracos ou inferiores.

O material ainda cita AWALT, sigla em inglês para “todas as mulheres são assim”, empregada para atribuir características negativas a todas elas, além de termos ofensivos como “femoid”, que desumanizam as mulheres.

A presença dessas palavras, isoladamente, não confirma que o jovem faça parte desses grupos. Ele pode ter encontrado a expressão em memes ou vídeos e repeti-la sem compreender seu significado. A orientação é perguntar onde a ouviu e o que entende por ela.

COMO OS JOVENS CHEGAM A ESSE CONTEÚDO?

Muitos jovens entram em contato com a machosfera sem procurar deliberadamente por ela. Os algoritmos de plataformas como TikTok, YouTube e Instagram podem recomendar materiais capazes de provocar reações fortes, incluindo conteúdos prejudiciais ou extremos.

A aproximação pode ocorrer gradualmente. Primeiro, o usuário recebe vídeos de motivação, autoajuda, religião, exercícios físicos ou sucesso financeiro. Posteriormente, as recomendações passam a incluir discursos sobre o suposto “valor do homem”, dominação masculina e submissão feminina.

De acordo com o guia, inseguranças sobre aparência, relacionamentos, solidão e pertencimento também tornam alguns meninos mais suscetíveis. Influenciadores oferecem respostas simples para essas dificuldades e misturam conselhos de desenvolvimento pessoal com mensagens misóginas difíceis de reconhecer inicialmente.

QUAIS SINAIS MERECEM ATENÇÃO?

Entre os sinais destacados estão: retraimento social, sigilo sobre a atividade online, afastamento de amigos e familiares e adoção repentina de ideias rígidas sobre mulheres.

Hostilidade, objetificação feminina, preocupação excessiva em parecer dominante e uso frequente de linguagem depreciativa também merecem atenção. O guia recomenda observar o conjunto das mudanças, sem tirar conclusões a partir de uma expressão ou comportamento isolado.

A principal orientação aos adultos é manter o diálogo aberto. Perguntar o que os jovens assistem, conhecer seus influenciadores favoritos e conversar sem transformar a abordagem em um interrogatório pode criar espaço para identificar problemas e desenvolver pensamento crítico.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais