Microplásticos no corpo: o que a ciência está revendo

Cientistas criticam parte das pesquisas sobre microplásticos alegando falhas na metodologia e na coleta de amostras para estudo

microplásticos no corpo humano
Crédito: pryzmat/ Getty Images

Kristin Toussaint 5 minutos de leitura

Nos últimos anos, uma onda de estudos passou a relatar que os seres humanos estão basicamente cheios de microplásticos: eles já foram encontrados no cérebro, nas artérias e até em placentas.

Mas alguns cientistas, citados em uma reportagem publicada pelo jornal "The Guardian", criticaram parte desses achados, afirmando que a pesquisa sobre microplásticos tem sido prejudicada por problemas como contaminação e falsos positivos.

Um químico chegou a dizer ao jornal que essas críticas estão “nos forçando a reavaliar tudo o que achamos que sabemos sobre microplásticos no corpo humano”. No entanto, outros pesquisadores que estudam microplásticos e saúde humana afirmam que esse enquadramento é exagerado.

Embora reconheçam que o campo de estudo dos microplásticos no corpo humano é novo e que algumas preocupações metodológicas são válidas, eles dizem que não se deve concluir que toda a área de pesquisa está repleta de erros.

E há um fato incontestável: microplásticos estão presentes no corpo humano.

Microplásticos são definidos como partículas com menos de cinco milímetros de comprimento. Já os nanoplásticos são ainda menores, geralmente considerados partículas abaixo de mil nanômetros – cerca de 100 vezes menores do que o diâmetro de um fio de cabelo humano.

Pesquisas já encontraram essas partículas no ar, no solo e em nossos corpos. Mas alguns cientistas questionam a forma como os pesquisadores identificaram esses microplásticos, especialmente em órgãos humanos.

As ferramentas [de pesquisa sobre microplásticos] ainda estão muito no começo.

Um estudo que afirmou que os níveis de microplásticos no cérebro humano estão aumentando rapidamente foi criticado por ter controles limitados contra contaminação e por não validar possíveis falsos positivos.

Outros trabalhos, que encontraram microplásticos em artérias, foram questionados por não testarem amostras em branco coletadas na sala de cirurgia – basicamente uma forma de medir se já existe alguma contaminação de fundo antes mesmo da análise.

O QUE ESSAS CRÍTICAS REALMENTE SIGNIFICAM?

Pesquisadores que estudam microplásticos sabem que há desafios metodológicos para investigar essas partículas em órgãos humanos. Isso acontece porque o próprio campo ainda é muito recente.

“As ferramentas ainda estão muito no começo”, afirma Kara Meister, médica pediatra otorrinolaringologista da Stanford Medicine, que também estuda como o ambiente – incluindo a presença de microplásticos – afeta o sistema imunológico.

“Nenhuma dessas ferramentas [para detectar microplásticos] foi desenvolvida especificamente para esse problema, então estamos pegando métodos de outras áreas da ciência e tentando aplicá-los a um campo totalmente novo”, acrescenta. Nesse sentido, as críticas fazem, sim, algum sentido.

poluição por nanoplásticos

Segundo Meister, microplásticos podem ser confundidos com gorduras. Isso porque eles costumam ser feitos de polímeros – materiais com ligações repetidas ou estruturas previsíveis –, o que também ocorre em vários tecidos humanos. As ferramentas científicas nem sempre conseguem distinguir uma coisa da outra.

Sim, limitar a contaminação é um desafio. Afinal, microplásticos estão em toda parte. E sim, existem problemas relacionados à definição de controles positivos ou negativos em um estudo – basicamente, parâmetros de comparação para mostrar como uma amostra se comporta com ou sem microplásticos.

“Em um estudo perfeito, saberíamos: se eu pegar esta amígdala e adicionar deliberadamente um polietileno conhecido, nossas ferramentas conseguem detectá-lo corretamente?”, questiona Meister. “O problema é que os plásticos que você consegue comprar em laboratório para fazer esses testes não são exatamente os mesmos que encontramos na vida real.”

Leia mais: Você respira o equivalente a um cartão de crédito em microplástico por semana

Na vida real, os microplásticos têm múltiplas características. Pense nos de uma garrafa plástica: se eles contaminam o corpo, o organismo não está exposto apenas ao polietileno. Ele também entra em contato com “coisas como BPA, metais pesados, corantes, tintas – tudo o que vem junto”, diz Meister.

Isso significa que, ao procurar microplásticos no corpo humano, os cientistas não estão buscando apenas uma substância específica. “É difícil medir, porque estamos falando de uma categoria que reúne muitas coisas diferentes e diversas”, explica.

Além de todos esses desafios, também é difícil para os pesquisadores comparar resultados entre diferentes laboratórios ou técnicas de pesquisa. Não existem padrões consolidados para medir microplásticos nem para definir quais ferramentas devem ser usadas.

UMA CERTEZA: MICROPLÁSTICOS SÃO PREJUDICIAIS

Mesmo com alguns estudos problemáticos, riscos de contaminação cruzada e dificuldades para quantificar microplásticos em tecidos humanos, há alguns fatos incontestáveis sobre microplásticos e nossos corpos, independentemente das técnicas de medição:

  • Microplásticos estão presentes no corpo humano, “do sangue ao cérebro, passando pelos ossos”;
  • Eles são feitos de carbono fóssil e aditivos químicos, muitos dos quais já são conhecidos por serem tóxicos;
  • Substâncias químicas perigosas estão sempre se desprendendo dos plásticos, o que significa que o material se degrada continuamente no ambiente.
microplásticos e nanoplásticos

Talvez os cientistas ainda não saibam quantos microplásticos existem em nossos corpos ou exatamente o que eles estão fazendo conosco. Mas estão tentando descobrir.

“Como todo campo novo, é claro que haverá obstáculos no caminho e a necessidade de recalibrar nosso entendimento”, afirmou Leonardo Trasande, diretor do Centro de Investigação de Riscos Ambientais da Universidade de Nova York, em uma publicação no LinkedIn.

Mas a reportagem do "The Guardian" corre o risco de prejudicar todos os pesquisadores que estudam o tema, alertou Trasande. “Ela sugere que todo o campo carece de rigor”, escreveu. “E isso simplesmente não é verdade.”

Leia mais: Microplásticos estão cheios de toxinas capazes de penetrar na sua pele

Quando se trata de estudar microplásticos no corpo humano, a pergunta sobre o quanto, exatamente, há no cérebro ou no sangue talvez nem seja a mais importante, do ponto de vista científico. “A questão é: isso está realmente nos fazendo mal? É isso que estamos tentando responder”, diz Meister.

Mesmo sem saber exatamente como os microplásticos afetam a saúde humana, “sabemos que eles estão prejudicando o meio ambiente”, conclui.


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais