Kitchen Confidential, best seller escrito por Anthony Bourdain em 2000, foi um divisor de águas na carreira do então chef. A partir dali, ele deixaria de vez as cozinhas de restaurantes nova-iorquinas para viajar pelo mundo em busca de novos pratos e culturas.

Ao longo de 16 anos, Bourdain levou telespectadores para viajar junto com ele nas séries A Cook’s Tour, da Food Network, No Reservations, da Travel Channel, e Parts Unknown, da CNN. Esses programas redefiniram a programação sobre comida na TV, conquistaram a crítica e, sobretudo, o público.

Então é claro que a morte dele, aparentemente por suicídio, em 2018, reverberou fundo no universo gastronômico.

Para muitos, a curiosidade e o wanderlust que brotavam incessantemente de Bourdain era mais do que comida: era uma maneira de enxergar o mundo e as pessoas em suas origens.

Era inevitável que a vida, a influência e o trágico fim da vida dele acabassem revelados em documentário. Era apenas uma questão de encontrar o cineasta capaz de tal façanha.

“Este foi definitivamente o filme emocionalmente mais intenso que já fiz. As pessoas me falaram várias vezes: ‘não estrague tudo’. Entendi que isso era muito importante, em parte porque não era somente alguém importante para as pessoas. Não queriam que eu destroçasse as ideias que elas têm sobre ele”, conta Morgan Neville, que também dirigiu 20 Feet from Stardom e Won’t You Be My Neighbor?.

Roadrunner, lançado nesta sexta-feira, 16, cumpre todos os requisitos com entrevistas bem pensadas com amigos e colegas de Bourdain, além de bastidores das filmagens dos programas que ele apresentou. Mas o ponto mais eficaz do documentário é como Neville retratou a história dele.

Apesar da juventude turbulenta como viciado em drogas em meio à ascensão como cozinheiro, Neville decidiu abrir o filme contando sobre quando Kitchen Confidential foi publicado.

“Quando pensei sobre um cara de quarenta e poucos anos que sente que sua vida acabou e que, de repente, passa a ter esse sucesso todo e consegue tudo o que sempre quis, esse pareceu um lugar interessante para explorar”, explica Neville. “O que acontece quando você tem esse tipo de sucesso, nesse ponto da sua vida, que é algo muito fora do comum? Isso traz a felicidade que você pensava estar procurando todo esse tempo? Claro que não. Essa então se tornou a história que decidi seguir. É o Tony que conhecemos lutando para se transformar nessa nova pessoa.”

Neville também foi cauteloso com o elefante na sala: como falar sobre o suicídio de Bourdain.

Enquanto filmavam um episódio de Parts Unknown na França, o amigo e chef Eric Ripert o encontrou sem sinais vitais em seu quarto de hotel. Entrevistado para o documentário, Ripert disse que ele não pensa sobre isso. E, de certa forma, Neville também não.

“É fácil quando alguém morre assim, e há tão pouco tempo, para ver tudo sob o prisma da morte ou para que isso soe como uma grande bajulação — eu não queria que isso acontecesse. Sempre quis que a gente sentisse o sucesso dele lá do começo”, diz Neville.

O filme não tenta ditar o que levou Bourdain a tirar a própria vida. O que Neville captura de forma astuta são as sombras mais densas de Bourdain — não somente o senso de humor peculiar, mas também a nuance de um homem perdido em sua própria trajetória.

“Tony tinha muitos insights sobre seu caráter e história, mas sinto que ele também tinha pontos cegos. Falamos sobre ele sempre querer continuar indo adiante e sobre como era alguém sempre em busca de algo, um curioso. Ele tinha uma tatuagem que dizia ‘não tenho certeza de nada’, que ele fez aos 58 anos. Isso soa romântico, mas quando você tem 60 anos, você não deveria ter certeza de algumas coisas? Como o amor às pessoas que te cercam? Ser um pai? Acho que a ideia de incerteza e busca o confundiram. Ele se perdeu.”

Neville não sabe se acertou ou não. Mas a permissão que ele tomou de Tony foi a noção de que não existem respostas fáceis. “Ele odiava a ideia de respostas certas”, afirma. Por isso, resolveu trazer conversas abertas, honestas e vulneráveis para que as pessoas possam ter sua própria leitura do filme.

Em um episódio de Parts Unknown, de 2015, Bourdain entrevistou Iggy Pop, um de seus ídolos. E perguntou ao músico o que o fazia feliz naquele momento da vida dele.

“E Iggy diz: ser amado e apreciado pelas pessoas que me dão amor. É exatamente isso que Tony precisava ouvir naquele momento, e acho que ele não ouviu. Acho que essa é a mensagem que levei. Por mais que a gente goste de correr para a próxima coisa, explorar a próxima coisa e buscar a próxima coisa, não podemos esquecer de apreciar e nos apoiar nas coisas que temos em volta de nós agora”, afirma Neville.

SOBRE O AUTOR

KC cobre entretenimento e cultura pop para a Fast Company. KC fez parte da equipe do Good Morning America como produtor de social media.