O aviso da pesquisadora Jane Goodall para o mundo: “temos que arregaçar as mangas”

Crédito: Craig Barritt/ GettyImages

Redação Fast Company 4 minutos de leitura

A cientista britânica Jane Goodall conhece muito bem o desespero de assistir o que está acontecendo, sejam os ataques contra a Ucrânia, sejam as notícias implacáveis ​​sobre a crise climática. “Não seria humano alguém não se sentir péssimo ao olhar para o que está acontecendo no mundo”, reconhece.

Mas, há 60 anos, ela tem sido uma figura central para a manutenção da esperança no universo da pesquisa e da conservação da vida selvagem. Goodall trabalha incansavelmente não apenas para nos ajudar a entender melhor os primatas, mas também para lutar pelo mundo natural. Ela se transformou de pesquisadora em ativista, principalmente ao aprender como a destruição do habitat e o tráfico ilegal ameaçavam os chimpanzés, depois de ter testemunhado a destruição e o desmatamento do Parque Nacional de Gombe.

Em parte por causa de seu trabalho, Goodall ganhou o Prêmio Templeton 2021, em maio do ano passado. Essa distinção, oferecida pela Fundação John Templeton, reconhece contribuições espirituais para o mundo e já foi conferida a personalidades como Madre Teresa, Desmond Tutu e Francis Collins (que liderou o Projeto Genoma Humano).

Jane Goodall se transformou de pesquisadora em ativista (Crédito: Tim Cole/ National Geograpgic Society)

A Templeton World Charity Foundation anunciou recentemente uma doação de US$ 2,7 milhões para a National Geographic. Segundo a fundação, o valor será usado para encontrar e financiar a “próxima Jane Goodall”, uma homenagem à própria cientista. 

MARAVILHAS DESCONHECIDAS DA NATUREZA

Goodall observa, no entanto, que sempre enfatizou que somos indivíduos, e que nunca haverá duas pessoas iguais. Mesmo assim, ela acha que todo mundo entendeu o propósito dessa doação. A National Geographic Society selecionará e apoiará três cientistas cuja paixão pela pesquisa da vida selvagem possa “iluminar potenciais maravilhas desconhecidas do nosso mundo”. Essa doação ajudará a selecionar e apoiar indivíduos que trabalham com animais selvagens, em terra ou no mar, para um programa de cinco anos que pode ser expandido para 10.

A pesquisa da vida selvagem pode nos ensinar como tratar melhor os animais e proteger os ambientes.

“Os jovens são o meu maior motivo de esperança”, diz ela. “Uma vez que eles entendem os problemas, que são capacitados para agir e que são ouvidos, eles já estão mudando o mundo.” O programa de ação para jovens da Goodall Roots & Shoots, que está presente em mais de 65 países, trabalha com participantes da pré-escola a universitários, apoiando-os em seus projetos para ajudar os animais e o meio ambiente.

Graças a esses projetos, milhões de árvores foram plantadas em todo o mundo, hortas orgânicas foram cultivadas em pátios de escolas e petições foram organizadas para salvar a vida selvagem, como os texugos no Reino Unido. O Prêmio Templeton de 2021 veio acompanhado de uma verba de 1,1 milhão de libras, que Goodall pretende usar para financiar mais Projetos da Roots & Shoots.

Certamente, ainda existem muitas incógnitas sobre nosso mundo natural e vida selvagem. Goodall acredita – e espera – que sempre haverá. “Acho que nunca saberemos tudo”, analisa. Mas o que a pesquisa da vida selvagem, em particular, pode fazer, à medida que descobrimos cada vez mais sobre a natureza, é nos ensinar como tratar melhor os animais e proteger os ambientes.

“ESTAMOS COLHENDO O QUE SEMEAMOS”

Não há como negar que nossa relação com a natureza fracassou. A pandemia de Covid-19, diz Goodall, mostra como

“Cada um de nós pode escolher que tipo de impacto quer causar [no planeta].”

“desrespeitamos tanto a natureza e os animais, que criamos ambientes que tornam relativamente fácil para patógenos, como um vírus, pular de um animal para uma pessoa… Penetramos nos hábitos dos animais selvagens, os destruímos, colocamos algumas espécies em contato muito próximo umas com as outras e com as pessoas. Essas são oportunidades para que as doenças comecem a proliferar. Nós os capturamos, traficamos, vendemos como alimento, remédio ou animais de estimação exóticos em mercados de vida selvagem e naturalizamos fazendas industriais como amontoados de animais em condições totalmente inadequadas”.

Essa realidade – e o futuro, no qual pandemias de doenças zoonóticas serão mais prováveis ​​– é culpa nossa, aponta Goodall. “Estamos colhendo o que semeamos.” Ainda assim, ela vê esperança para o futuro, especialmente nas ações individuais. A pesquisadora também escreveu um livro em parceria com Douglas Carlton Abrams, publicado em outubro de 2021:  “The Book of Hope: A Survival Guide for Trying Times” (O Livro da Esperança: Um Guia de Sobrevivência para Tempos Difíceis).

“Me parece que estamos entrando em um túnel muito longo e escuro, e no final dele há uma pequena luz brilhante, que é a esperança. Mas a esperança depende da ação. Não podemos apenas ficar sentados na entrada desse túnel, esperando que a luz chegue até nós. Para atravessá-lo, precisamos arregaçar as mangas e rastejar, escalar as pedras, contornar todos os obstáculos, como mudanças climáticas, perda de biodiversidade, pobreza, crescimento populacional, ganância. Superar todos esses problemas horríveis que causamos e que estão destruindo a Terra”, diz ela. “Se ficarmos apenas sentados esperando que as coisas deem certo, isso nunca vai acontecer. Chegar a essa luz depende, eu acho, de uma massa crítica e disposta a agir.”

Todos os dias que vivemos, acrescenta ela, causam um impacto no planeta. “Mas cada um de nós pode escolher que tipo de impacto quer causar.”

(Com base em reportagem de Kristin Toussaint, editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company)


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