Para o CEO do PayPal, o capitalismo anda precisando de um “upgrade”

Nos últimos anos, o conceito de capitalismo de stakeholders que Dan Schulman exalta tornou-se controverso

Crédito: Celine Grouard

Redação Fast Company 4 minutos de leitura

O capitalismo de stakeholder – ou, em português, capitalismo de partes interessadas – tornou-se tanto um chavão do momento quanto um prato cheio para a polarização política.

Apesar do momento conturbado, muitos líderes empresariais acreditam que é uma estrutura importante para lidarmos com o cenário atual. Eles argumentam que as empresas existem para atender a uma variedade de partes interessadas – incluindo consumidores, funcionários e o planeta –, e não apenas para pensar em aumentar os preços das ações e os resultados financeiros. Nos últimos anos, no entanto, essa abordagem tornou-se cada vez mais politizada, trazendo novos desafios para os CEOs.

Dan Schulman, CEO do PayPal, por exemplo, tem defendido que as empresas adotem a liderança moral, mas entende que isso é preocupante. “Vivemos em um país extremamente polarizado agora”, disse Schulman ao público durante o Festival de Inovação da Fast Company, em Nova York, esta semana. “Não há como nenhum de nós, que temos grandes marcas de consumo, evitarmos as guerras culturais.”

ENTRAR NA GUERRA CULTURAL

Para Schulman, essa verdade ficou muito clara em 2016. Naquele ano, o PayPal descartou uma grande expansão na Carolina do Norte – onde estava construindo um centro de operações global que empregaria 400 pessoas – depois que o estado aprovou uma lei que paralisaria os esforços do governo local para proteger as comunidades LGBTQ.

“Não há como nenhum de nós, que temos grandes marcas de consumo, evitarmos as guerras culturais.”

O retrocesso na legislação antidiscriminação foi amplamente visto como um ataque aos direitos civis LGBTQ. De acordo com Schulman, aconteceu em um território onde o PayPal tinha o dever de se opor. “Nossa missão como empresa é oferecer serviços financeiros o mais inclusivos possível”, disse ele. “Portanto, nossos valores se concentram predominantemente na luta contra qualquer tipo de discriminação.”

A atitude do PayPal ganhou a primeira página do “The New York Times”. Na época, parecia que isso prejudicaria a empresa. “Foi muito solitário por um tempo”, disse Schulman. Em palestras, ele recebeu recepções frias de audiências republicanas, incluindo familiares de heróis das forças armadas. Mas muito mais preocupante foram as ameaças de morte que o executivo começou a receber depois da notícia. 

Schulman não costuma pensar muito nisso, exceto para lembrar como a cisão radical nos EUA havia crescido. Ele conclui que é isso é tão inevitável quanto a lei da gravidade: “você sempre vai se posicionar e as pessoas vão ficar chateadas. Nós somos atacados tanto pela esquerda quanto pela direita, o tempo todo”.

Ele segue em sua conduta. Na semana passada, depois que surgiram comentários racistas e misóginos do proprietário majoritário do time da NBA Phoenix Suns, o PayPal – que financia o Suns e cujo logotipo está estampado nas camisas dos jogadores – ameaçou suspender o seu patrocínio se o indivíduo não fosse expulso.

REFLEXÃO POLÍTICA

Mas há também uma reação crescente contra o capitalismo de stakeholders, ou o que alguns republicanos chamam de “capitalismo consciente”. Na Flórida, no mês passado, foi aprovada uma lei orientando os gestores de fundos do estado a priorizar o maior retorno sobre o investimento para seus contribuintes e aposentados, “sem considerar a agenda ideológica do movimento ambiental, social e de governança corporativa (ESG)”.

No Arizona, o procurador-geral do estado procurou investigar se a gestora de patrimônio BlackRock aderiu a um dever fiduciário de maximizar os retornos para os clientes, em vez de priorizar a causa climática.

Lynn Forester de Rothschild, fundadora da empresa de investimentos Inclusiva Capital Partners, reconhece que algumas reações decorrem do ceticismo justificado de que as iniciativas ESG têm o impacto que as empresas anunciam – ou se estão apenas tentando.

“A controvérsia transformou todos os comportamentos que tentam tornar nossa sociedade melhor em atos políticos.”

“Há sinalização de boa vontade, greenwashing, empresas que lançam anúncios, mas não fazem a coisa certa… E há Wall Street sequestrando o ESG como uma ferramenta de marketing, colocando um rótulo e cobrando um pouco mais”, disse ela no Innovation Festival.

A controvérsia, diz Rothschild, “transformou todos os comportamentos que tentam tornar nossa sociedade melhor em atos políticos”. Para ela, não deveria ser o caso, porque, no final das contas, ESG (meio-ambiente, social e governança) e incentivos de lucro são importantes para os negócios.

“Questões sobre como as pessoas tratam os trabalhadores e o planeta ainda não são financeiras, mas logo serão. Porque se perder seus clientes, seus funcionários ou sua comunidade, você não existirá”, lembrou ela.

Para Schulman, o capitalismo dos stakeholders é a verdadeira economia 2.0. “Acho que o capitalismo é um grande sistema, mas claramente precisa de uma atualização”, disse ele.

“Muitas pessoas que são deixadas de fora do sistema, que lutam para sobreviver, tendem a radicalizar para a extrema esquerda ou extrema direita. Como podemos, então, fortalecer a democracia pensando de forma mais ampla?”, questionou o executivo. Uma questão para se refletir.

Com base em reportagem de Connie Lin.


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