P&G quer 55% de recrutamento com diversidade racial até o final do ano

Empresa oferece curso para o mercado de agências criativas em parceria com Universidade Zumbi dos Palmares

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Redação Fast Company Brasil 5 minutos de leitura

Mais do que nunca, empresas de diferentes portes querem abraçar a agenda da diversidade, ao mesmo tempo em que tentam fugir do “diversity washing“. “Sabe quando você chega em um concerto e os músicos ainda estão afinando os instrumentos? As empresas brasileiras estão nesse momento com relação à inclusão”, diz Cristina Naumovs, consultora de criatividade e inovação na Apego. No ano passado, 85% das companhias aceleraram seus esforços de diversidade, segundo pesquisa da Korn Ferry.

Em relação à comunidade negra, muito tem se discutido sobre sua presença nos diferentes mercados criativos. Na moda, diferentes artistas têm ganhado espaço nos principais eventos e criando plataformas para conquistar seu lugar entre os grandes nomes. 

A coisa é um pouco diferente na música: em seu livro “Diversidade na Indústria da Música no Brasil: um olhar sobre a diversidade étnica e de gênero nas empresas da música”, o jornalista Leo Feijó relata que, segundo pesquisas, em 62% das organizações, menos de 5% dos cargos executivos são ocupados por pessoas negras. Já em 46% a presença de negros é de 0% a 15%.

em 62% das organizações, menos de 5% dos cargos executivos são ocupados por pessoas negras.

Em tempos recentes, muitas empresas têm tomado ações para garantir que essa comunidade tenha acesso a vagas e oportunidades. A Netflix anunciou recentemente o projeto Segundo Ato, visando aumentar o número de roteiristas negros e indígenas, com investimento de R$ 5 milhões.

A comunidade negra também luta para fazer parte das principais agências criativas do Brasil. Neste mês de setembro, a P&G, com seu programa Racial 360º – que promove iniciativas para lutar contra o racismo estrutural presente no país – lançou o Cria da Quebrada, para formar 25 profissionais negros para a indústria criativa da publicidade e propaganda.

CRIA DA QUEBRADA

Segundo o Observatório da Sustentabilidade Racial de 2021, o mercado criativo de publicidade e propaganda conta com apenas 15% de pessoas negras em cargos estratégicos de diretoria. O projeto é uma parceria com a Grey Brasil e a M.AD School of Ideas, escola de criatividade e estratégia, que vai ministrar o curso de preparação para criativos (redatores e diretores de arte).

O curso tem duração de sete meses e beneficia, nesta primeira etapa, cerca de 25 alunos e ex-alunos da Universidade Zumbi dos Palmares, instituição brasileira de ensino superior idealizada por negros e voltada para a inclusão do negro na sociedade.

“O projeto Cria da Quebrada é uma intervenção na veia da capacidade criativa do jovem negro e um estímulo precioso para o enriquecimento da potência do seu talento e da sua capacidade de realização. Uma ação precisa e potente para o enfrentamento à discriminação e exclusão e uma medida indispensável e urgente para a promoção da diversidade racial”, afirma José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares e membro do conselho de ética do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

A Fast Company Brasil conversou com Marjorie Teixeira, diretora de comunicação e ESG da P&G Brasil e América Latina, para saber mais sobre o projeto e as próximas ações e projetos da empresa relacionados à diversidade.

Marjorie Teixeira (Crédito: Divulgação)

Onde e quando acontecerá o programa?

As aulas começam em outubro e acontecerão quatro vezes por semana, na Universidade Zumbi dos Palmares, no laboratório P&G Pela Criação, que foi planejado especialmente para o projeto e equipado com todas as ferramentas necessárias para a melhor qualificação dos alunos. Teremos dois coordenadores, um da universidade e outro da M.AD School of Ideas, além de professores da M.AD.

Qual é o formato do curso?

É dividido em duas fases. A primeira tem como foco a inclusão do vocabulário criativo e quatro módulos sobre criatividade e suas habilidades específicas dentro da comunicação. Os alunos conhecerão diversas possibilidades de carreiras criativas podendo, assim, escolher melhor o que cursarão na segunda fase. Nessa segunda fase, cada aluno passará por entrevistas e um questionário, orientando-os em relação ao caminho que desejam seguir – redação ou direção de arte. Os módulos a serem oferecidos ao longo do programa serão divididos em blocos: exposição do assunto, análise de casos, conexão com o mercado, exercícios, orientação e feedbacks.

E depois do término do curso?

Ao final, os estudantes poderão apresentar seu portfólio criado durante o curso no evento de formatura, que contará com a participação de todas as agências que atendem a P&G. A Grey Brasil tem prioridade na contratação desses profissionais e promoverá intercâmbio de até cinco alunos para um estágio em uma das agências da Grey pelo mundo.

No caso da P&G, como estão as estatísticas de diversidade racial?

A política de diversidade e inclusão sempre existiu, sendo que nos últimos três anos passou a ser mais intencional, com a plataforma Racial 360°, que permeia quatro esferas essenciais para a P&G: o ambiente interno, as marcas, o compromisso com parceiros e com a comunidade. A meta da companhia é chegar a 55% de recrutamento de colaboradores com diversidade racial até 2022.

“O projeto Cria da Quebrada é uma intervenção na veia da capacidade criativa do jovem negro.”

Além disso oferecemos, junto a terceiros, planos de desenvolvimento, treinamentos e atividades durante todo o ano. Especificamente para engajamento ao longo do Mês da Consciência Negra e Mês de Equidade & Inclusão, temos treinamentos focados em todas as dimensões sociais e métricas estratégicas para o negócio.

Nesse cenário, passamos a promover mais ações de desenvolvimento profissional para alcançar a igualdade étnico-racial no acesso a oportunidades de trabalho e renda. Um exemplo disto é o programa “P&G Para Você”, que visa capacitar os participantes do processo seletivo da companhia com aulas de inglês e mentoria. O objetivo é estimular a diversidade social e étnico-racial em nosso quadro de funcionários e, assim, estabelecer mais representatividade a longo prazo.

E em relação à diversidade nas marcas?

Nas iniciativas com as marcas, a empresa quer levantar ainda mais discussões, pois acredita que a sua força pode inspirar mudanças reais e duradouras na sociedade. Por isso, mudou a forma de fazer publicidade para incentivar conversas importantes e com representatividade, lançando campanhas inclusivas e ativando embaixadores como Liniker, Camilla de Lucas, Ariel Rei do Blindado, Duda Almeida e Sheron Menezes.

O que esperar para os próximos anos?

Diversidade e inclusão não é algo que você faz uma vez ou duas e acabou, mas sim algo que devemos continuar gerenciando e nutrindo.  Esse projeto – e tantos outros – é apenas o início de uma extensa jornada. Criar ações afirmativas com foco na sociedade é o que contribui para gerar mudanças em cada um e, assim, dar fim ao preconceito e à intolerância. Temos a responsabilidade de fazer parte dessa mudança.


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