Publicidade de comida não saudável sai do horário nobre e da internet no Reino Unido

Nova regra barra anúncios de alimentos ricos em gordura, sal e açúcar antes das 21h na TV e a qualquer hora online para combater a obesidade infantil

tela de computador com imagens de pizzas e balança indicando excesso de peso
Créditos: Chalermchai/ Thaisamrong/ master1305/ Getty Images

Anna-Louise Jackson 3 minutos de leitura

Para muitas audiências pelo mundo afora, a ideia de assistir à TV ao vivo sem a enxurrada constante de comerciais de medicamentos controlados e comida ultraprocessada pode soar estranha. No Reino Unido, porém, isso acaba de virar regra.

Esta semana entrou em vigor na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte uma proibição que impede a veiculação de anúncios de alimentos ricos em gordura, sal e açúcar na TV antes das 21h e, no ambiente online, em qualquer horário.

A medida faz parte do esforço do governo britânico para enfrentar a obesidade infantil. Em 2022, 15% das crianças e adolescentes entre dois e 15 anos eram consideradas obesas, segundo dados do sistema público de saúde do país, o NHS.

Definir exatamente o que entra na lista de produtos proibidos não é tão simples. As regras abrangem 13 grandes categorias de alimentos. Alguns itens parecem óbvios, como refrigerantes, doces, salgadinhos e sobremesas. Outros, porém, surpreendem, incluindo cereais matinais, diversos tipos de iogurte e refeições prontas, como raviólis recheados.

O Reino Unido já proíbe há décadas anúncios de medicamentos controlados na TV. A nova restrição à publicidade de alimentos ultraprocessados começou a ser desenhada ainda em 2020, durante o governo do então primeiro-ministro Boris Johnson. No entanto, a medida perdeu tração política sob seus sucessores, Liz Truss e Rishi Sunak.

Em 2023, o atual primeiro-ministro, Keir Starmer, fez campanha prometendo reformar o sistema público de saúde britânico e se comprometeu a colocar em prática a proibição da publicidade de junk food se fosse eleito, afirmando que a iniciativa estava “muito atrasada”.

Esse sentimento foi reforçado mais recentemente por Katherine Brown, professora de mudança de comportamento em saúde na Universidade de Hertfordshire, que disse à BBC, na segunda-feira, que a proibição era “há muito necessária e um passo na direção certa”.

COMO AS MARCAS ESTÃO SE ADAPTANDO

Ainda assim, empresas de alimentos já estão encontrando formas criativas de cumprir a regra sem abrir mão da visibilidade.

Elas podem anunciar versões consideradas mais saudáveis de produtos banidos ou continuar fazendo publicidade na TV e no ambiente online, desde que não exibam um produto “identificável”. Essa brecha foi uma concessão do governo após ameaças de ações judiciais por parte da indústria alimentícia contra uma proibição total.

obesidade infantil/ criança mordendo sanduíche
Crédito: Vecteezy

“A legislação permite que as empresas migrem da publicidade de produtos para a publicidade de marcas, o que tende a enfraquecer de forma significativa o impacto das novas regras”, afirmou Anna Taylor, diretora executiva da The Food Foundation, organização sem fins lucrativos dedicada ao sistema alimentar do Reino Unido, em entrevista ao "The Guardian".

Além disso, as empresas estão mudando o foco dos seus investimentos, apostando em campanhas externas, como outdoors e anúncios em transportes públicos. Segundo o relatório anual de 2025 da The Food Foundation, a publicidade ao ar livre é a segunda maior fonte de exposição de crianças a anúncios de alimentos.

De olho na proibição na TV e no online, as empresas do setor aumentaram seus gastos com publicidade em 28% entre 2021 e 2024.

AINDA HÁ MUITO A FAZER CONTRA A OBESIDADE INFANTIL

Embora o governo britânico estime que a proibição possa evitar cerca de 20 mil casos de obesidade infantil, especialistas em saúde pública afirmam que isso é apenas o começo.

Brown defendeu que o governo vá além e torne opções nutritivas “mais acessíveis, disponíveis e atraentes”. Já Taylor disse que a medida representa um marco dentro de uma jornada maior para proteger as crianças.

“Não podemos parar por aqui; precisamos manter o foco no objetivo final: proibir todas as formas de publicidade de junk food direcionadas a crianças”, afirmou Taylor ao "The Guardian".


SOBRE A AUTORA

Anna-Louise Jackson é jornalista e editora freelance com mais de 15 anos de experiência na cobertura de economia, mercado financeiro e... saiba mais