Tem Meu Voto, divulgado por Huck, sai do ar; veja outras plataformas para comparar candidatos
Coalizão atribui suspensão à baixa adesão das candidaturas após acusações de viés. Outras ferramentas usam IA e dados públicos para organizar informações eleitorais e propostas

* Com Beatriz Felizardo
A poucos dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a plataforma Tem Meu Voto suspendeu suas atividades. A ferramenta, que calculava a afinidade entre eleitores e candidatos ao Legislativo, foi divulgada por Luciano Huck no Domingão, em 27 de setembro, e recebeu críticas sobre um suposto favorecimento de candidaturas de direita.
Em nota divulgada em 30 de setembro, a Coalizão pelo Voto Consciente, responsável pela iniciativa, atribuiu a suspensão à baixa adesão das candidaturas. Segundo a organização, a participação insuficiente comprometeu a diversidade das opções apresentadas ao eleitor. Sem tempo para ampliar a base antes da votação, a coalizão decidiu interromper o serviço neste ciclo eleitoral.
A limitação importa porque um resultado de afinidade depende de quais candidaturas entram na comparação. Se a base não representa as opções disponíveis, o eleitor pode receber um “match” que deixaria de ser o mais próximo de suas posições caso outros nomes fossem considerados.
Criado em 2018 e relançado em 16 de setembro, o Tem Meu Voto é uma iniciativa de 14 organizações da sociedade civil, entre elas RenovaBR, Centro de Liderança Pública, Comunitas, Instituto Ethos, Livres e Transparência Internacional Brasil. A ferramenta comparava as posições do eleitor com as de candidaturas a deputado estadual, deputado federal e senador.
O questionário cobria oito temas, como meio ambiente, impostos e gasto público, segurança pública, legislação trabalhista e regulação da economia. Os assuntos apontados como mais importantes pelo eleitor tinham peso maior no cálculo.
A metodologia priorizava as respostas enviadas pelas próprias campanhas. Na ausência delas, eram usadas votações nominais ou posições atribuídas à maioria da bancada do partido. O resultado expressava proximidade nos temas consultados, sem avaliar competência ou desempenho, conforme a descrição da ferramenta publicada pelo jornal A Crítica.
Usuários e parlamentares de esquerda questionaram os resultados, afirmando que a ferramenta favorecia candidaturas de direita mesmo quando recebia respostas progressistas. Em resposta às acusações, a coalizão afirmou que o projeto era apartidário, adotava critérios iguais para todos e não recomendava voto.

Segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul abriu investigação para apurar possível infração eleitoral de Huck e da Globo pela divulgação. A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral. O vereador e candidato a deputado federal Nabil Bonduki (PT-SP) também pediu a retirada da plataforma do ar.
O “BUZZFEED” DAS ELEIÇÕES
Quem cresceu na internet fazendo quizzes do BuzzFeed para descobrir qual personagem ou cantor mais combinava com sua personalidade vai reconhecer o formato: o usuário responde a perguntas e recebe um resultado personalizado. A diferença é que, em vez de personagens, o resultado cruza suas opiniões com informações sobre candidatos e posições políticas.
O Tem Meu Voto não é a única ferramenta voltada a esse tipo de consulta. Algumas plataformas organizam registros oficiais em linguagem mais acessível. Outras usam inteligência artificial para classificar propostas e perfis, e há as que transformam posições políticas em percentuais de “match”.
Parte da matéria-prima está disponível em bases públicas. O DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), permite consultar registros de candidatura, bens declarados, receitas e despesas de campanha e propostas de governo apresentadas à Justiça Eleitoral.
O uso de IA nesse contexto tem limites. A Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026, proíbe provedores que oferecem sistemas de inteligência artificial ou tecnologia equivalente de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, mesmo quando o usuário solicita. Também veda a emissão de preferência eleitoral e a recomendação de voto.
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Antes de consultar essas ferramentas, vale entender quais dados alimentam o resultado, como são classificados e quais informações ficam de fora. A Fast Company Brasil consultou os sites e as páginas de metodologia de duas iniciativas para mostrar como funcionam e qual é o papel da IA em cada uma.
POLITICANDO: AFINIDADE ENTRE ELEITOR E CANDIDATURA
Criado pelos desenvolvedores Pedro Weinberg Lima, João Pedro Menin e Luiz Lira, o Politicando oferece um quiz de afinidade política e permite comparar perfis de candidatos. A iniciativa foi apresentada em reportagem da CNN Brasil.
Para acessar o resultado completo do teste e da comparação, é necessário criar uma conta gratuita com e-mail. A plataforma se apresenta como independente e apartidária, sem vínculo oficial com o TSE.

Segundo sua página de metodologia, a inteligência artificial lê o histórico público e posiciona cada candidato em uma escala de 0 a 100 em oito áreas: economia, saúde, educação, segurança pública, meio ambiente, direitos humanos, infraestrutura e ciência e tecnologia.
A plataforma considera registros de atuação parlamentar, declarações documentadas e, como evidência indireta, o histórico de alianças e coligações. O cálculo de afinidade mede a distância entre a posição atribuída ao candidato e as respostas do eleitor, com mais peso para os temas em que o usuário respondeu com maior convicção.
Os responsáveis afirmam que a IA não participa dessa conta final: ela é usada na etapa anterior, que atribui as posições aos candidatos. Quando não há histórico suficiente em determinado tema, ele fica fora do cálculo. A plataforma informa quantas áreas foram consideradas.
Isso significa que, embora a conta siga uma regra fixa, os dados usados nela passam pela classificação da IA. Uma posição atribuída de forma equivocada pode afetar o percentual de afinidade. Da mesma forma, resultados calculados com poucos temas oferecem uma comparação mais limitada.
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A separação entre classificação por IA e cálculo de afinidade também não comprova, por si só, a adequação da ferramenta à resolução do TSE, que trata de ranqueamento e sugestão de candidaturas por provedores que oferecem IA ou tecnologia
equivalente.
COMPARAR CANDIDATOS: DOS DADOS DO TSE À IA
O Comparar Candidatos reúne fichas eleitorais e organiza por tema os planos de governo apresentados ao TSE por candidaturas à Presidência e aos governos estaduais. Os trechos são exibidos de forma literal, com a indicação da página do PDF oficial para conferência.
Sem cadastro, o eleitor pode consultar nome, número, cargo, estado, partido, situação da candidatura, formação, ocupação e patrimônio total, além do PDF integral do plano de governo. Uma conta gratuita libera outros registros públicos, como bens detalhados, redes sociais e coligações.

Segundo a página de método e transparência, a IA localiza e classifica trechos dos documentos em quatro temas: saúde, educação, economia e segurança. A ferramenta afirma não produzir resumos interpretativos, avaliar a viabilidade das medidas ou preencher assuntos ausentes. Quando um tema não é encontrado, aparece como “não identificado”.
O acesso aos relatórios completos organizados pela IA é pago por créditos. Cada crédito libera o relatório de uma candidatura, e toda conta nova recebe um crédito gratuito. Os PDFs oficiais permanecem disponíveis sem cobrança.
O comparador coloca duas candidaturas lado a lado, respeitando cargo e unidade eleitoral. Também há uma ferramenta para montar uma colinha com os números da urna. O site declara não atribuir notas, produzir rankings ou recomendar voto.
Além da cobrança pelos relatórios, o projeto solicita contribuições voluntárias por PIX para manter a infraestrutura. Segundo a plataforma, não são aceitas contribuições de candidaturas, partidos, coligações, federações ou comitês financeiros.
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O QUE DÁ PARA CONSULTAR NO PRÓPRIO TSE
O eleitor também pode recorrer diretamente às fontes oficiais. Além do DivulgaCandContas, o TSE lançou, em 24 de setembro, uma página que reúne os planos de governo das chapas presidenciais.
As propostas estão organizadas em oito macrotemas, com índices que permitem localizar assuntos de interesse do eleitor. Segundo o tribunal, o conteúdo foi extraído dos documentos apresentados formalmente pelas chapas à Justiça Eleitoral.
Antes de usar o resultado de uma comparação, confira quais candidaturas entraram na base, de onde vêm as posições atribuídas a elas e quais temas ficaram de fora. Um percentual de afinidade mede a proximidade dentro dos critérios da ferramenta; não avalia competência, integridade ou capacidade de cumprir propostas.
Os links para os documentos originais ajudam a distinguir o que o candidato declarou, o que seu histórico registra e o que a plataforma concluiu.
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