Timothée Chalamet errou – e não só sobre a ópera

Após comentário do ator franco-americano, ópera mostra força global e atrai novos públicos na era dominada pela inteligência artificial

Timothée Chalamet criticado por criticar ópera
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Thomas Smith 3 minutos de leitura

Timothée Chalamet gerou forte reação ao sugerir que a ópera é uma forma de arte em declínio e afirmar que “ninguém mais se importa” com o gênero. Foi uma declaração infeliz – e também equivocada.

A ópera, como a maioria das artes performáticas, ainda se recupera dos impactos da pandemia. Mas, no geral, o setor está crescendo, e de forma expressiva.

Globalmente, a ópera movimenta cerca de US$ 3,4 bilhões e deve chegar a US$ 5,33 bilhões nos próximos anos. A presença de público de primeira viagem mais que triplicou desde 2021, à medida que mais jovens passam a frequentar casas de ópera.

Esse ressurgimento faz parte de uma tendência maior: em diferentes formatos, faixas etárias e contextos, as pessoas estão se afastando do digital e voltando ao analógico.

Em um mundo atravessado pela inteligência artificial, cresce o desejo por experiências tangíveis, coisas que se pode tocar, possuir e vivenciar. As pessoas querem realidade, com toda a sua imperfeição e drama.

Percebi isso de perto ao assistir a uma apresentação de "Rigoletto" na Ópera de São Francisco, na Califórnia, no ano passado.

Como alguém completamente novato no universo da ópera, fiquei surpreso ao descobrir que os cantores geralmente não usam amplificação. Eles preenchem auditórios imensos, de vários andares, apenas com a potência de suas vozes.

Exceto por alguns toques modernos – como legendas traduzidas acima do palco para quem não fala italiano do século 19 –, seria fácil imaginar que você foi transportado de volta a 1832, quando Giuseppe Verdi criou a obra.

Como forma de entretenimento, a ópera compartilha muito com os conteúdos mais chamativos da atualidade. Se você acha que vídeos gerados por IA são dramáticos, provavelmente nunca viu "Rigoletto". Tem sequestro, traição conjugal, maldições mágicas e (alerta de spoiler!) assassinato de criança.

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A ópera também tem seus “memes”, na forma de trechos musicais inesquecíveis que atravessaram gerações. É bem provável que você já tenha ouvido a ária mais famosa de "Rigoletto" ("La donna è mobile"), mesmo que não tenha familiaridade com ópera. E, depois de lembrá-la, ela provavelmente vai ficar na sua cabeça por dias.

A tecnologia mudou. Mas, no fundo, aquilo que engaja os seres humanos – surpresa, escândalo, música marcante e boas histórias – permanece praticamente o mesmo há mais de 200 anos.

UM MUNDO ANALÓGICO

A ópera cresce porque entrega exatamente esses elementos humanos e atemporais em um formato que não exige ficar sozinho, curvado sobre uma pequena tela, enquanto algoritmos processam quantidades massivas de dados para alimentar um fluxo infinito de conteúdo.

E ela não está sozinha. À medida que a IA avança, tudo o que é analógico ganha novo fôlego. O vinil voltou a movimentar bilhões, e até fitas cassete estão ressurgindo.

em diferentes formatos, faixas etárias e contextos, as pessoas estão se afastando do digital e voltando ao analógico.

Cansados de aplicativos de relacionamento baseados em algoritmos, jovens recorrem novamente a casamenteiros e encontros presenciais. E hobbies considerados “da vovó”, como tricô, crochê e culinária, estão em alta. Até celulares simples, sem aplicativos, voltaram à moda.

Chalamet e outros nomes da cultura pop fariam bem em prestar atenção. O universo das experiências analógicas não está perdendo relevância, está em ascensão. As pessoas podem estar terceirizando parte do trabalho (e até decisões importantes) para chatbots e agentes de IA. Mas, ao fazer isso, elas abrem espaço.

E, ao que tudo indica, o que querem colocar nesse espaço não é mais tecnologia. É um par de agulhas de tricô, um LP girando suavemente ou um tenor sob os holofotes, soltando árias com toda a força da voz.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Thomas Smith é especialista em inteligência artificial treinado na Universidade Johns Hopkins e jornalista com mais de 15 anos de expe... saiba mais