POR GIULIA LUCHETTA

Muita gente consegue se lembrar do dia que levou para casa o notebook da empresa e nunca mais pisou no escritório. As memórias das salas de reunião, happy hours, intervalos do café e o ambiente de trabalho em grupo foram ficando cada vez mais distantes. A essa altura, o foco e a criatividade parecem pairar em um horizonte nebuloso.

“Apenas 2% da população é capaz de se dividir entre várias atividades simultâneas”

“Não era burnout — nós ainda tínhamos energia. Não era depressão — nós não estávamos desesperançosos. De alguma forma, só nos sentíamos tristes e perdidos”. O psicólogo organizacional Adam Grant nomeou como languishing (definhamento) essa sensação de estagnação e vazio em uma publicação no jornal The New York Times. As pesquisas do sociologista Corey Keyes, que inspiraram o termo, indicam que as pessoas com maior probabilidade de sofrerem depressão severa e problemas de ansiedade na próxima década não estão com esses sintomas hoje.

“O languishing prediz questões de saúde mental, porque está por trás de como estamos usando a motivação”, relata a doutora em neurociência comportamental e especialista em regulação da emoção, Ana Carolina Souza. “Em casa o que interfere é novo. É a criança, é o almoço, é a minha cabeça que não para de pensar no homeschooling e no trabalho. Existe uma sobreposição”, conta.

“Agora eu preciso de tempo, ócio criativo, espaço para conexão social, um ambiente para pessoa ter liberdade de errar”

O estado de vigilância é outra característica cognitiva emocional que afeta a capacidade de foco. Assim, é mais difícil performar bem, pensar em caminhos criativos e sentir-se satisfeito com o trabalho realizado — em comparação com o desempenho de antes da quarentena.

Muito se discute a expectativa de um bom profissional, ou uma pessoa bem sucedida, ser multitarefa. Na realidade, apenas 2% da população é capaz de se dividir entre várias atividades simultâneas. Para a maioria, esse atrelamento e desatrelamento da atenção é muito nocivo. Souza explica que a troca constante de foco potencializa o estado de languishing e é, ao mesmo tempo, potencializada pelo languishing “como se fosse uma retroalimentação”.

A reconfiguração inesperada que uniu ambientes doméstico e profissional trouxe mais responsabilidades, e obrigou muitas empresas a correr atrás de metrificar sinais de estresse, estados emocionais e engajamento dos colaboradores. Lideranças e colaboradores precisam de treinamentos diferentes para que sejam aptos a trabalhar remotamente — um cenário bem distinto da sincronicidade que havia nos prédios corporativos.

Gestores podem capacitar (e confiar) em suas equipes concedendo espaço de diálogo, segurança psicológica e orientando à autogestão, para que cada um possa desenvolver autonomia e negociar prazos ao executar suas funções fora do supervisionamento. Entretanto, a dificuldade de contratar pessoas online, o turnover elevado e a sanidade mental dos colaboradores demonstram que são necessárias outras referências e indicadores de produtividade.

Cofundadora da Nêmesis, empresa de educação corporativa na área de Neurociência Organizacional, Ana Carolina relata que inovação, criatividade e empatia são as grandes habilidades na onda da economia baseada no conhecimento. “Agora eu preciso de tempo, ócio criativo, espaço para conexão social, um ambiente para pessoa ter liberdade de errar”.

O tempo disposto para reuniões já não cumpre de forma eficaz a função de fiscalizar o andamento dos processos. Por isso, é importante refletir sobre o lugar de cada profissional para que esteja presente onde agrega mais valor. “A gente vê cada vez mais modelos do tipo tirando um dia da semana e aumentando a performance. Numa trajetória onde tempo é dinheiro, isso é contra intuitivo”, destaca a doutora.

“As pessoas não precisam de mais regras, mais protocolos… Precisam de mais autoconhecimento, empatia, foco, abertura”

Fragmentar a organização das demandas em espaços pequenos de tempo podem trazer feedbacks mais positivos, dando à equipe a sensação de dar conta e fazer bem feito o que é proposto. O antídoto ao definhamento é a capacidade de fluir em uma execução, evitando cair nesse estado de vazio. Ana Carolina reforça que o ideal é aceitar que você não vai conseguir fazer tudo, ninguém consegue.

Ao criar um limite claro das prioridades, a comunicação consegue ser mais estratégica. Aquilo que é urgente pode ser avisado por ligação, o que é para ser resolvido hoje, avisado por mensagem de texto, e aquilo para resolver durante a semana, encaminhado por e-mail. Dessa forma, a sobrecarga é evitada e há uma abertura entre os gestores caso estejam operando com excessos.

Com as vacinas no horizonte, o modelo híbrido traz grandes expectativas para as empresas, unindo o melhor dos dois mundos. O retorno aos escritórios precisará de flexibilização e orientações através de um direcionamento organizacional. Os colaboradores poderiam conciliar com certa liberdade suas rotinas, pois a sensação de segurança é saudável para redesenhar a nova realidade social.

“Então se você escolhe algo que você gosta é mais fácil abrir mão daquilo que você não faz. As pessoas não precisam de mais regras, mais protocolos, mais exemplos. Precisam de mais autoconhecimento, empatia, foco, abertura, porque com todas essas regras a gente não está conseguindo equilibrar bem a vida. É mais complexo e mais diverso do que isso. Por isso se fala tanto sobre trabalhar a inteligência emocional”, completa Souza.

SOBRE A AUTORA

Giulia Luchetta é repórter da Fast Company Brasil.