O mercado de influência, na última década, evoluiu do elementar publipost para um ecossistema integrado de conteúdo. E isso foi possível por elementos como métricas, profissionalização e, sobretudo, tecnologia. Agora, este ecossistema vive uma nova fase, pautada por dois elementos centrais: empreendedorismo e tecnologia escalável. A última pesquisa “ROI & Influência”, publicada a cada dois anos pelo Youpix, mostrou que o uso de ferramentas orientados ao marketing de influência pelas marcas saltou da quarta posição, em 2018, para a terceira, em 2020. Bia Granja, fundadora do Youpix, explica que esse elemento materializa a maturidade da disciplina dentro das marcas, já que “o uso de dados e tecnologia traz maior visão estratégica e assertividade nas execuções”.

Com um ano de vida, a Nice surgiu da possibilidade do uso de dados e tecnologia aplicado ao conteúdo (Crédito: Divulgação)

Esse contexto também abre oportunidades para as martechs e influencetechs especializadas. Plataformas como Spark, Airfluencers, MandaSalve, Patreon, OnlyFans, Hotmart e outras, são apenas alguns exemplos de startups que se especializaram nessa disciplina. “Do ponto de vista das tecnologias que suprem necessidades diretas do creator, existe uma sofisticação e uma diversificação do ecossistema de B2I (Business to Influencer), com ferramentas que ajudam o criador de contéudo a impulsionar negócios monetizando diretamente com sua comunidade de fãs. O que percebo é que a economia da influência está realmente tomando corpo, com players e stakeholders cada vez mais diversos. Ou seja, tem a influencetech que atende as marcas, e a que atende o influenciador”, contextualiza Bia Granja.

Bia Granja: “o uso de dados e tecnologia traz maior visão estratégica” (Crédito: Divulgação)

Raphael Pinho, CEO e cofundador da Spark, empresa que se enquadra no conceito de influencetech, explica que as frentes de negócios e oportunidades dentro do marketing de influência são cada vez maiores. “E algumas destas com certeza altamente escaláveis. Construímos um modelo de afiliação em que somos parceiros de grupos de mídia regionais, desenvolvendo o mercado local e compartilhando o nosso conhecimento e provendo tecnologia exclusiva para os parceiros. Um modelo altamente escalável, pois toda a gestão das campanhas e contratação dos influenciadores e equipe de trabalho fica por conta do grupo regional”, explica, destacando ferramentas como a Tagger, plataforma de marketing que apoia profissionais de marketing a maximizar retorno sobre investimentos.

EMPREENDEDORISMO E VISÃO DE NEGÓCIOS

De especialista em marketing de influência à CEO de sua própria agência, a Brunch, Ana Paula Passarelli também forma influenciadores que buscam maior consistência de negócios e, por sua vez, acabam se tornando empreendedores. Em março deste ano, a Brunch lançou a Toast, plataforma que conecta marcas e empresas que desejam desenvolver projetos com influenciadores. “Influência vem sendo tratada como mídia e performance. Por conta disso, é notável o aquecimento do mercado e a busca por resultados imediatos com base em campanhas que trabalham com volume de alcance, seja com um influenciador com milhões de seguidores ou com centenas de influenciadores com menos seguidores. As próprias definições de microinfluenciador, nano ou macro corroboram para o argumento da performance”, explica.

Ana Paula Passarelli: “o marketing de influência vive uma ressignificação” (Crédito: Divulgação)

Sobre o movimento da alta de startups especializadas em influência e tecnologia, Ana Paula Passarelli explica que ele ocorre pela demanda do público por novas formas de interação.  “Monique Evelle apostou na criação da Inventivos, plataforma educacional para empreendedores que já conta com milhares de alunos. Karla Lopes recebeu uma rodada de investimentos para escalar o crescimento da sua marca de produtos de bem-estar, a Lunare, que buscou na sua ancestralidade africana o propósito para criação da marca. Ou seja, criadores estão entrando nas estruturas corporativas com viés fresco, executor e com perspectivas diferentes do mercado tradicional. A criação de conteúdo nos ensina a sermos multipotenciais e excelentes resolvedores de problemas complexo”, destaca.

Por sua vez, a CEO da Brunch destaca que o marketing de influência começou “com o pé esquerdo” quando direcionou seu crescimento baseado em métricas de mídia. “Vivemos a ressignificação do marketing de influência como um todo, da criação de conteúdo com significado, consciência e responsabilidade às métricas utilizadas para mensurar os resultados. Se antes olhava-se para as métricas de vaidade, passamos a interseccionar data, brand safety e branding para criação de projetos de conteúdo com influenciadores que estejam alinhados com os objetivos de negócio das marcas. Planejar marketing de influência sem aderência aos OKRs da empresa é se furtar da possibilidade de alcançar excelentes resultados para todas as áreas”, conclui.

CONTEÚDO E ENTRETENIMENTO ORIENTADO À DATA & INSIGHTS

Monique Evelle fundou, em agosto do ano passado, a Inventivos  (Crédito: Divulgação)

Criada em abril de 2020, a Nice House, que adota o conceito de house de influenciadores vem ampliando seu pontencial de produção de conteúdo com o uso da tecnologia. De acordo com Mari Galindo, cofundadora da Nice House, a origem do projeto surgiu do olhar apurado para tecnologia. “Nós sabíamos que o TikTok possuia algoritmos e uma mecânica diferente das outras plataformas e que utilizar grandes influenciadores do Instagram dentro do TikTok não funcionaria sem conteúdo e visão de tecnologia”, explica.

Neste período, o investimento em inteligência e a ampliação da cultura influencetech foram fundamentais. “Temos uma equipe orientada à tecnologia, isso nos ajuda otimizar o tempo principalmente nas tarefas diárias, CRM, plataforma de assinatura de documento online, organizador de tarefas e automatização, por exemplos: temos um chatbot que faz o receptivo de pequenas marcas que entram em contato para parceria com nossos creators, isso otimiza o tempo e serve como um funil para a equipe. Outro fator que contribui bastante, é que utilizamos o modelo de open talent economy, com isso expandimos nossa rede a diversos filmakers, cenógrafos, editores, produtores musicais de acordo com a demanda do nosso cronograma”, destaca.

“Nos definimos como uma startup community-centered, em referência as empresas que tem o usuário no centro de tudo. E criamos uma jornada (semelhante a jornada do consumidor no e-commerce) para identificar quem são os fãs da Nice e centralizamos esse grupo de super fãs em uma comunidade white label. Isso nos ajuda muito a pivotar novas ideias, tanto de formato quanto de monetização, além de reduzir muito o custo. Se temos uma ideia de aplicativo, nós criamos um grupo dentro dessa comunidade e simulamos as principais funcionalidades do app para ver se rola engajamento e coletamos feedbacks, por exemplo. Se percebemos que funciona, nós recorremos a ferramentas no code e low code, para fazer o mvp e validar novas camadas de interação”, pontua.

Mari Galindo: uso de dados e tecnologia para potencializar conteúdo (Crédito: Divulgação)

Essa visão, inclusive, fez com que a Nice desse um novo passo, desta vez, integrando seu ecossistema por meio de uma parceria com o game Avakin Life. A Nice House irá usar o Avakin para criar conteúdo, interagir com os jogadores e influenciadores do game, e ao mesmo tempo alguns produtos licenciados serão lançados para os jogadores usarem de forma virtual dentro do game. Esse é um projeto de longo prazo, e permite explorar vários lados house, desde os nicers em si, como o conteúdo musical chegando a projetos em conjunto com marcas. É tudo pensando de forma a gerar conteúdo relevante para os seguidores da Nice House e para os jogadores de Avakin, e vamos estar atentos ao feedback para pensar em novas ações”, explica.

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil