A indústria da moda vem sendo repensada sob diversos aspectos há alguns anos: a frequência das coleções, que obrigatoriamente precisavam se renovar a cada dois meses, a qualidade das roupas fast fashion vs. produções mais lentas e manuais e as transformações de sustentabilidade no segmento como um todo, que precisam se estender a toda uma cadeia produtiva, que passa pelo tecido, pelos profissionais que a confeccionam, pela distribuição e comercialização dos produtos.

Essa reconfiguração ganhou ainda mais peso com a pandemia, que também salientou novos hábitos de consumo e favoreceu novos formatos de comercialização para atender a demanda do consumo digital. Em agosto do ano passado, a Gucci lançou uma plataforma que permitia os usuários calçarem tênis virtuais por meio de realidade aumentada. Segundo a grife italiana, o futuro da moda de luxo está totalmente ligado à integração com o universo digital.

Neste mês, o e-commerce brasileiro Shop2gether, do Icomm Group, também adere ao movimento com o lançamento de suas primeiras vestimentas 100% digitais. O estilista carioca Lucas Leão criou uma jaqueta virtual que é aplicada na foto do consumidor após a compra e uma camiseta que acompanha um QR Code para transformar a camiseta branca em quatro opções de estampas diferentes (para serem compartilhadas nas redes sociais).

Segundo Ana Isabel de Carvalho Pinto, co-founder do Shop2gether, as peças digitais são uma maneira sustentável e mais acessível de usar “looks incríveis sem gerar insumos para o planeta”. Para ela, junto com o crescimento da nova economia digital (compras online, bancos digitais e serviços de streaming) produtos, e não mais serviços, saíram do universo físico para se tornarem, também, ativos digitais. “A moda é sempre reflexo do comportamento e, neste caso, diretamente relacionada à otimização da experiência dos consumidores por meio de interações, a exemplo das roupas comercializadas no mercado de games, em franco crescimento”, diz.

Ou seja, além do preço mais acessível e da sustentabilidade ao não gerar resíduos ambientais, as roupas virtuais são uma aposta de experiência de entretenimento. Nos últimos anos, a Gucci criou versões digitais de suas coleções para games e looks para avatares. Robert Triefus, CMO da marca, disse em entrevista à Fast Company que itens virtuais têm valor devido sua natureza escassa e porque podem ser vendidos e compartilhados. No ano passado, um usuário pagou US$ 2,4 mil em um par de tênis virtuais em um game chamado Aglet e outra pessoa comprou um vestido digital de US$ 9,5 mil que existe somente no Instagram.

Moda nacional e sustentável

Os designers da 7ª edição do projeto Novos Designers, da Shop2gether. A apresentadora Gabriela Prioli (de verde, ao centro) é embaixadora da temporada (Crédito: Divulgação)

O lançamento das peças digitais da Shop2gether faz parte da 7ª edição do projeto Novos Designers, que tem como missão valorizar e incentivar o design de moda autoral nacional. O e-commerce selecionou seis novos talentos que refletem preocupações com questões como diversidade, responsabilidade socioambiental, body positive e digitalização fashion. Além e Lucas Leão, a temporada está divulgando os trabalhos de: Gonzalo, marca artesanal do Ceará; Nadruz, que utiliza matérias-primas naturais, nacionais e sobras do processo produtivo; Keka Tenório, pernambucana que confecciona roupas do tamanho 36 ao 52; Zâmbia, marca inspirada no artesanato de Belford Roxo e Nay Sunset Wear, que reaproveita materiais e prioriza a origem certificada de matérias-primas.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil