Desde que o Playstation 5 foi lançado em junho do ano passado, a internet comparou o design do console a praticamente tudo: de um roteador Wi-Fi a um chapéu papal. É fácil entender por quê. A Microsoft havia acabado de apresentar a espartana caixa preta do Xbox Series X e uma série S inspirada em Dieter Rams viria logo na sequência.

E lá estava a Sony, aparentemente ignorando as regras do bom design praticadas pelo concorrente. O PS5 não tem superfícies planas e precisa de um apoio agrupado apenas para ficar parado, na lateral ou na vertical, guardado ou em cima da estante. O Xbox foi projetado para desaparecer, enquanto o PS5 foi projetado para ser uma obra de arte.

A Sony e a Microsoft há muito tempo disputam consoles de jogos, mercado que deve chegar a US$ 51 bilhões até 2027. Mas os consoles não são a única fonte de receita dos games: jogos de smartphones estão se popularizando cada vez mais. É por isso que a Microsoft está diversificando apostando em um serviço de jogos por assinatura. E a Sony fez parceria com a Microsoft para compartilhar e colaborar em tecnologia para streaming de jogos e mídia. Ou seja, trata-se de uma rivalidade amigável: cada uma joga sua parte para manter os jogos de console vivos e passando bem, enquanto o Google tenta eliminá-los com seu serviço de jogos na nuvem, o Stadia. Os designs de console representam diferentes visões que criam a diversidade necessária no mercado.

Mas o trunfo do PS5 é o controlador DualSense: não é apenas uma coleção ergonômica e de botões e thumb sticks. Pelo contrário, é funcionalmente maximalista, com todos os controles normais e um touchpad como o do laptop, gatilhos que podem alterar a resistência para imitar a sensação de um disparo de arco ou enrolamento de mola, um acelerador para que o jogador possa dirigir ao inclinar, um microfone e, o mais impressionante, uma configuração de alto-falante que potencializa as vibrações táteis. Com o DualSense, dá para ouvir e sentir o barulho da água e os passos na areia.

O Chief Designer do PS5, Yujin Morisawa, deixa claro que a abordagem da Sony para a próxima geração de jogos de console será a antítese da Microsoft. Nesta entrevista, ele revela que foi treinado como um estudante universitário ao estilo Bauhaus, amado pelos fanáticos de Rams. Mas ele é mais filosófico do que pragmático, mais aspiracional do que prático. E entender sua intenção me fez apreciar ainda mais a abordagem da Sony.

Vamos começar com essa forma amorfa. De onde veio?, perguntei. E ele respondeu: “Tentei romper o limite de qualquer objeto porque queria expressar a experiência que temos no Playstation.”

Morisawa é especialista em quebrar formas convencionais. O Sony Rolly que ele projetou, lançado em 2007, reinventou um MP3 player e transformou-o em um player com luzes e dança para reunir os amigos. Algo mais próximo de um animal de estimação virtual, como o cão robótico Aibo do que do alto-falante bluetooth do iPhone. Morisawa tinha em mente que a nova arquitetura interna do PS5 interna poderia carregar e pular entre diferentes jogos quase que instantaneamente, transformando o jogador em outra pessoa a qualquer momento.

“O conceito do PS5 tem cinco dimensões. Está se tornando uma realidade na qual você se sente como um campeão do mundo, você pode ser um guerreiro e um piloto ao mesmo tempo. Sua identidade durante o jogo é literalmente moldada por esta caixa e, portanto, ela teve de capturar a natureza fluida do jogo.”

Morisawa encarou o PS5 como uma escultura, começando com a caixa, cheia de processadores e resfriamento ordenados por engenheiros, e cortando-a o mais profundamente que pôde.

“Todos os dias conversei com engenheiros e perguntei quantos milímetros eu poderia entrar para esculpir o que não é necessário”.

Sem bordas planas, o PS5 é a articulação perfeita de arquitetura defensiva, na escala eletrônica. Não dá para empilhar nada em cima dele, ou mesmo equilibrar um único controle nele é quase impossível – e isso ajuda a máquina a funcionar resfriada. Essa é uma decisão de projeto funcional, porque empilhar componentes eletrônicos leva ao superaquecimento.

Ele se preocupou em fazer um console sem bordas planas? “Um pouco”, admite. Mas está feliz com a solução, um pequeno suporte circular que se conecta ao PS5. O núcleo gira em dois modos diferentes, como uma peça de quebra-cabeça 3D que pode se ajustar perfeitamente ao console. Por um lado, é um pouco pesado e um pedaço extra de plástico é necessário para colocar o PS5 em uma mesa (multiplique esse plástico por 100 milhões de vezes e também terá um impacto ecológico significativo). Por outro lado, dá uma sensação de leveza ao objeto, parece que ele está flutuando.

Quanto ao DualSense, Morisawa admite que redesenhar o controle foi intimidante. “Acho que o DualShock 4 [no PS4] é quase o controle perfeito”. Pode parecer que ele está se gabando, mas não. A Sony refinou a ergonomia de seus controles ao longo de décadas, durante as quais os jogadores passaram milhares de horas ganhando memória muscular em controles altamente precisos. Ajustar um único milímetro aqui ou ali acarreta um risco real de condenar uma base de fãs leais ao sedentarismo.

Esteticamente, Morisawa queria que o DualSense “viesse do mesmo planeta” do PS5. É notavelmente mais atraente do que o DualShock 4, graças à textura quase invisível, com os principais símbolos do Playstation (um quadrado, círculo, X e O, criando textura).

“Disse aos designers que ele deveria ser um parceiro. Deve sentir como seu parceiro. Quando você está jogando, este é o único dispositivo que você segura. Ele te ajuda e este tipo de sentimento emocional é expresso no objeto.”

E é isso que o DualSense é. Não é apenas um controle, está lá para fazer o que você comandar. Se você pensar bem, o DualSense é quase como um Sony Rolly em suas mãos, com mais sensações que vão além dos pixels na tela. É o seu intérprete.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos.