Eu sei! Mas o tema ainda é paralimpicamente desconhecido pela maioria das pessoas, inclusive muitas daquelas que trabalham com programação de sites e aplicativos, apesar do barulho que os ativistas têm feito para tirar o tema do limbo e dar a ele a relevância que merece.

Na verdade, eu mesmo acabei aprendendo meio que na marra o que é Acessibilidade Digital e quais são seus principais pressupostos. Como as coisas não acontecem por acaso, apesar de anos trabalhando com tecnologia e acompanhando o nascimento da internet no mundo e, por tabela, no Brasil, só fui me ligar que existia algo do gênero em setembro de 2007, cinco dias antes de dar o fatídico mergulho equivocado, quando quebrei o pescoço e virei, automaticamente, cliente desses recursos inclusivos.

Estava na Croácia, mais especificamente em Brijuni, um agradável arquipélago adriático, participando do primeiro dia do júri internacional do WSA – World Summit Award, maior premiação global de conteúdo digital, quando me deparei com o quesito Acessibilidade Digital e algumas instruções básicas para saber se os projetos avaliados eram ou não acessíveis digitalmente.

Aprendi, de cara, que a principal entidade mundial sobre o tema é o W3C – World Wide Web Consortium, fundada por nem mais nem menos do que Tim Berners-Lee, o pai da internet, reunindo especialistas de governos, empresas e sociedade civil, com a finalidade de desenvolver padrões técnicos a serem aplicados globalmente.

Mal sabia eu a importância que essas normas teriam na minha vida dali pra frente. Já tetraplégico, sem movimentos em mais de 80% do meu corpo, senti na pele a falta que Acessibilidade Digital e sua “prima” Tecnologia Assistiva fazem para quem tem alguma deficiência.

Hoje, mais de 13 anos depois, conhecido ativista da causa, sei que o W3C Brasil, a exemplo da entidade mãe, é o principal think tank sobre o tema no país, contando com apoio e financiamento do CGI – Comitê Gestor da Internet e colaboração de entusiastas reunidos em uma animada rede de especialistas.

Com o tempo, fui descobrir que os principais demandantes da Acessibilidade Digital são as pessoas com deficiência visual, com baixa visão e cegos, que, simplificando, navegam usando a tecla Tab e programas que transformam texto em voz. Para tanto, os sites devem ter arquitetura acessível, o que a maioria das plataformas já oferecem, e, principalmente, descrições de fotos e imagens, colocadas no lugar do código ou, como vemos muito atualmente, de forma visível, com uso da #paracegover e, mais recentemente, #paratodosverem.

Outro recurso de Acessibilidade Digital bastante comum hoje em dia, agora visando a população surda que se comunica em Libras, são os avatares de leitura de textos, onde o Brasil está na vanguarda mundial, com opções gratuitas e pagas. Também começo a ver, em sites públicos e privados, a disponibilização de SAC, Fale Conosco, Ouvidoria e Canal de Vendas em Libras, o que, com certeza, deverá virar padrão de mercado.

Quando estava à frente da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, tive a oportunidade de transformar os sites da Prefeitura em showcases de Acessibilidade Digital, com todos os recursos disponíveis e pontuação acima de 9 no ASES-Web, ferramenta do Governo Federal que avalia acessibilidade.

Nesse contexto, também criamos o Selo de Acessibilidade Digital, emitido pela CPA – Comissão Permanente de Acessibilidade, visando contribuir com uma necessária certificação para a evolução deste contexto tão importante para a plena inclusão da pessoa com deficiência no Brasil.

Agora que todos sabemos um pouco mais sobre Acessibilidade Digital, bem como entendemos sua importância para 16 milhões de brasileiros com deficiência, uma boa medida é aderir ao Movimento Web para Todos, que trabalha pela difusão destes conceitos e práticas, visando ampliar o atual quadro de menos de 5% de sites acessíveis no país.

Acessibilidade quae sera tamen!

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Cid Torquato é advogado, ex-Secretário Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo e atual CEO do ICOM Libras