Recentemente, meu amigo Mike se candidatou a um emprego na área de marketing e comunicação de uma empresa de games. O recrutador pediu que os candidatos demonstrassem criatividade e um profundo conhecimento da cultura geek.

A vaga é ideal para Mike, que é obcecado por quadrinhos, ficção científica e videogames desde que estudamos juntos no ensino médio. Mas, antes da pandemia, o entrevistador teria de acreditar na palavra dele. Mas, como a entrevista aconteceu remotamente, ele teve a oportunidade de provar isso.

Antes da entrevista, Mike deixou suas estatuetas Funko visíveis na câmera, mostrando personagens de seus quadrinhos, games e filmes de ficção científica favoritos.

“Muitas pessoas da cultura geek fazem coleções”, diz Mike, que prefere não usar seu sobrenome, já que seu atual empregador não sabe que ele está dando entrevista para outro lugar. “O objetivo era mostrar sutilmente que faço parte dessa cultura, que tenho aquela formação ‘nerd’ que eles procuram.”

A maioria dos conselhos para causar uma boa impressão em uma entrevista remota fala que o o espaço visível por trás da câmera deve ser o mais limpo possível. Porém, como entrevistas em vídeo passaram da exceção à norma, candidatos como Mike estão começando a usar o atual cenário para apresentar adereços cuidadosamente selecionados que podem servir como um início de conversa, demonstrar algo sobre sua personalidade ou provar suas qualificações.

BACKGROUNDS DE VÍDEO: O NOVO TRAJE DAS ENTREVISTAS
Antes da pandemia, a escolha da roupa fornecia uma das únicas oportunidades para os candidatos trazerem um pouco de sua personalidade para a sala de entrevistas; agora, o background do vídeo de um candidato pode servir a um propósito semelhante em um ambiente remoto de entrevistas.

“O que você vestia para uma entrevista era frequentemente examinado ou podia impressionar”, diz Diane Domeyer, diretora executiva do Creative Group, braço de recrutamento da indústria de marketing e criação da consultora global de recursos humanos Robert Half. “A realidade agora é que, como muitas das contratações acontecem virtualmente, o background do seu vídeo faz parte do processo de entrevista.”

Assim como as roupas de um candidato devem ser cuidadosamente escolhidas para demonstrar profissionalismo e personalidade, Domeyer diz que os entrevistados remotos têm um outro fator para lidar – mas as regras para esse espaço ainda estão sendo definidas.

“As indústrias criativas têm a oportunidade de realmente liderar a criação de algumas mudanças de comportamento para entrevistas em vídeo, que podem ser mais ousadas”, diz ela. “Pode ser um diferencial, mas ainda é preciso cautela com esse tipo de coisa para que não pareça muito forçado ou cafona.”

O FUNDO CERTO PARA O TRABALHO CERTO
Em caso de dúvida, Domeyer diz que é melhor ir pelo caminho seguro e optar por um fundo simples, mas acrescenta que pode valer a pena incluir itens cuidadosamente escolhidos em rodadas de entrevista posteriores, à medida que os candidatos ganharem mais senso sobre a cultura da empresa.

“É meio parecido com o currículo; é preciso editá-lo um pouco para cada situação”, afirma Brie Reynolds, especialista sênior de carreira da FlexJobs. “Você pode se candidatar a empregos em empresas muito tradicionais e restritas e pode estar se candidatando a empregos em empresas super casuais e criativas; então você pode querer mudar, permanecendo sempre fiel a si mesmo e a quem você é.”

Reynolds sugere que os candidatos devem adaptar suas experiências com base na função e no setor, além de procurar pistas sobre a cultura da empresa nas redes sociais, no site e na própria oferta de emprego. “Faça pesquisas sobre a empresa e veja como ela se mostra ao mundo. É abotoada e tradicional ou criativa?”

Ela conta que a FlexJobs vai atualizar suas orientações sobre melhores práticas para entrevistas remotas com informações sobre o uso criativo do espaço de fundo, de modo a acompanhar a constante evolução da contratação remota.

“Os recrutadores podem não estar familiarizados com trabalho e entrevistas remotos. Agora, mais pessoas estão habituadas ao trabalho remoto – essa mistura de trabalho e vida, e como seu escritório e sua casa nem sempre são um ambiente profissional improdutivo.”

UMA POSSÍVEL FONTE DE DISCRIMINAÇÃO
Trazer mais da vida doméstica para um ambiente profissional, no entanto, pode ser assustador para algumas pessoas. Assim como os requisitos do dress code podem servir de barreira para quem não tem acesso às últimas tendências da moda, é importante que os recrutadores não coloquem o ambiente de fundo na lista de quesitos de discriminação.

“Temo que isso exponha recrutadores a mais preconceitos em entrevistas de vídeo, porque é muito mais fácil fazer esses julgamentos”, avalia Chanele McFarlane, estrategista de carreira e fundadora da Do Well Dress Well, plataforma online de personal e professional branding. “Quando você está em uma entrevista em vídeo, está expondo sua casa e tem uma ideia da situação financeira de alguém, enquanto em uma entrevista feita pessoalmente você deixa isso de lado.”

McFarlane adverte que entrevistas remotas podem contribuir ainda mais para a desigualdade ou ansiedade entre aqueles com renda mais instável, já que são menos propensos a ter internet com alta velocidade, câmeras de alta qualidade ou acessórios relevantes.
“É responsabilidade da empresa estar ciente de tudo isso e ver o que pode ser feito para aliviaressa ansiedade. Talvez passar um link de um background que eles possam usar, o que apenas ajuda a nivelar a situação.”

PARTE DO “NOVO NORMAL”
Até mesmo os planos de fundo dão oportunidade para os candidatos mostrarem sua personalidade, criatividade e identidade pessoal, comenta Domeyer, que recentemente encontrou um exemplo de alguém que o fez com sucesso.

“Ao olhar para o perfil do LinkedIn do recrutador, a candidata percebeu que ambos haviam estudado na mesma instituição de ensino, então ela colocou o estádio da universidade como fundo da entrevista”, diz ela. “Foi muito bem pensado, muito ousado e provavelmente deixou uma boa impressão.”

Independentemente de os candidatos utilizarem acessórios relevantes ou fundos digitais, McFarlane acredita que o ambiente atrás do entrevistado será utilizado com mais frequência no futuro, como uma ferramenta de identidade pessoal em entrevistas remotas. “Você quer que seja algo a ser lembrado por eles. Futuramente, acho que as pessoas irão se esforçar para garantir que seu background tenha itens que as ajudem a se destacar.”

SOBRE O AUTOR

Jared Lindzon é jornalista freelancer e palestrante de Toronto, no Canadá. Ele cobre futuro do trabalho, inovação, empreendedorismo, tecnologia, política, esportes e música.