A geração que ninguém protegeu está te ensinando a dizer não
Hoje se vê uma geração que aprendeu na pele o que acontece quando ninguém desenha o mundo antes que ele seja desenhado por quem só pensa em engajamento no movimento de reação

Ninguém pediu permissão. Uma geração inteira de adolescentes recebeu um dispositivo na mão antes de entender o que era tédio ou limite, e um algoritmo passou a decidir o que eles sentiriam em seguida, silenciosamente, bilhões de vezes por dia.
Tristan Harris deu um nome para isso: “baby AI”. Um sistema que não precisava de inteligência, só de velocidade para encontrar o ponto fraco de cada cérebro humano. E a parte mais impressionante não é que falhou. É que funcionou exatamente como foi projetado para funcionar.
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Essa geração chegou ao mercado de trabalho. Está nos painéis do SXSW deste ano tentando construir relações genuínas dentro de estruturas que nunca ensinaram o que é genuíno, entrando em empresas que seguem o mesmo caminho das big techs com IA e as redes sociais: escalam a tecnologia antes de entender o custo humano de não colocar nenhum limite nela.
“Eficiência sem fronteira vira pressão sem fim.”
88% dos profissionais mais avançados no uso de IA reportam burnout.
Um dado apresentado aqui resume bem o paradoxo: 88% dos profissionais mais avançados no uso de IA reportam burnout. A ferramenta que prometia liberar tempo está consumindo mais. Não porque a tecnologia é ruim, mas porque eficiência sem fronteira vira pressão sem fim.
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O curioso é que quem está reagindo primeiro é justamente quem foi mais exposto. Restaurantes cheios, acampamentos de teatro para adultos, celular largado de propósito. Não é nostalgia e não é ironia. É uma geração que aprendeu na pele o que acontece quando ninguém desenha o mundo antes que ele seja desenhado por quem só pensa em engajamento.
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Que mundo você quer? Não o que o mercado permite, não o que a eficiência justifica — o que você, de fato, escolhe. Porque cada vez que uma liderança implementa mais uma ferramenta sem perguntar isso, ela está respondendo à pergunta no lugar de todo mundo.
A porta já está sendo empurrada. A questão não é se ela vai abrir. É quem vai decidir o que entra.