“A IA não está falhando. Estamos reagindo à promessa errada”, diz futurista Ian Bearcraft

Um dos palestrantes do SXSW, o futurista avalia que a frustração atual com a tecnologia é sinal de que ela está evoluindo

implementação de inteligência artificial nas empresas
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Redação Fast Company Brasil 4 minutos de leitura

A adoção de inteligência artificial entrou na agenda de praticamente todos os setores. Companhias criam áreas dedicadas ao tema, equipes recebem novas ferramentas e executivos procuram ganhos de produtividade. Mesmo assim, a percepção interna ainda é de que os resultados ficam aquém do esperado.

Para o futurista e palestrante de destaque desta edição do South by Southwest (SXSW) Ian Bearcraft, essa reação acompanha a trajetória típica das novas tecnologias. “O pessimismo em torno da IA vem de um choque entre o que nos prometeram e o que realmente recebemos”, disse em entrevista exclusiva à Fast Company Brasil.

Novamente, o CEO da Signal and Cipher trará o tema dos impactos da IA no mercado de trabalho e nas empresas para o palco. A ideia aqui é lidar com o que a tecnologia, de fato, pode entregar. Nos últimos anos, Bearcraft tem ficado longe do hype e mais próximo das possibilidades factíveis da tecnologia. 

Ele descreve um ciclo recorrente: demonstrações iniciais geram expectativa de mudança rápida; a implementação revela dependência de processos, adaptação de equipes e tempo de aprendizado. “Toda tecnologia passa por um ciclo de entusiasmo e desilusão. É nessa fase que o progresso real começa”, afirma.

OUTRO TIPO DE CÓDIGO

A mudança aparece primeiro na rotina profissional. O receio de substituição acompanha a tecnologia, mas Beatcraft observa outra dinâmica. “Durante muito tempo associamos o valor humano à execução do trabalho, primeiro físico, depois intelectual. Teremos que procurar um novo valor para o trabalho”, explica.

O futurista diz que é uma mudança não só das profissões, mas no próprio desenho das companhias. O que significa produtividade se uma máquina replica rapidamente as ações? Como analisar um bom diretor se a divisão dele é feita por robôs e sistemas de IA? Quais incentivos dar para os agentes de IA e para os profissionais que o gerenciam?

“As organizações ainda usam métricas criadas há 150 anos, na Revolução Industrial: eficiência, velocidade e produtividade imediata”, afirma. Mas a implementação da IA envolve aprendizado e novos sistemas de premiação dentro das empresas. 

No lugar da capacidade do funcionário de produzir mais rápido ou fazer mais vendas, serão valorizadas a capacidade em difundir conhecimento, a taxa de experimentação e a proporção de protótipos criados para comercialização.

Ian Bearcraft

Gerenciar agentes de IA, explica Bearcraft,  é quase idêntico a fazer o onboarding de funcionários humanos: exige articular intenções, dar contexto e treinar a ferramenta.

Tarefas operacionais são automatizadas enquanto decisões, priorização e organização de processos ganham peso. “A ferramenta será um espelho de bons e maus gestores”, aponta. 

 “Muita gente acha que a IA reduz seu valor. Com menos tarefas repetitivas, aumenta a autonomia para decidir e orientar processos”, afirma. Esse cenário altera as competências procuradas nas equipes. “A habilidade mais importante não é escrever código. É saber definir um problema claramente”, diz.

RETORNO IMEDIATO? CALMA LÁ

Bearcraft diz que, do outro lado da corda, empresas que estão trocando áreas inteiras por IA também não estão acertando a transição. Elas estão deixando de lado a “fricção positiva”, que coloca as decisões éticas e preservam o que é único da marca.

O futurista conta sobre uma companhia que zerou o setor de assistência ao cliente e, menos de um semestre depois, percebeu que tinha que voltar a ter pessoas ali, uma vez que nem todo o resultado da área era automatizável. “Existe um molho secreto da marca, aquilo que a faz única, isso é um fator humano”, diz. 

Gerenciar agentes de IA exige articular intenções, dar contexto e treinar a ferramenta.

Outras companhias estão simplesmente colocando tecnologia em cima de processos antigos que já não funcionavam no mundo digital. “E o pior, estão culpando a tecnologia quando ela não dá retorno”.

Ele alerta que organizações que buscam retorno imediato ao aplicar uma tecnologia tão transformadora quanto a IA, sem permitir uma fase de "aprendizado e erro" (o ato de "ser ruim antes de ser bom") falharão em implementá-la com sucesso.  

INFRAESTRUTURA PRIMEIRO

Ian Beacraft aproxima o momento atual do período posterior à bolha das empresas pontocom. A queda de investimentos levou muitos a considerar a internet superestimada; poucos anos depois, ela sustentaria a economia digital. “Quando o hype desaparece, ficam apenas as pessoas realmente comprometidas em construir. É aí que a infraestrutura começa a ser criada”, diz.

Leia mais: Futuro do trabalho: como seria gerir uma equipe formada por agentes de IA?

A dimensão dos investimentos em IA ajuda a explicar a reação. Expansão de data centers, demanda energética e aportes bilionários reforçam a sensação de excesso tecnológico. “A própria internet exigiu uma infraestrutura gigantesca que parecia desproporcional na época. Hoje sustenta quase todas as atividades econômicas”, afirma.

“O futuro não chega totalmente formado para participarmos dele. O futuro é resultado de nossas decisões, resultado dos nossos desejos”, finaliza. 


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