A IA pode ter um (perigoso) efeito desmotivacional
Especialistas alertam que tecnologia pode reduzir o esforço intelectual necessário para desenvolver criatividade, autonomia e pensamento crítico

A preocupação com a soberania cognitiva, ou seja, a habilidade humana de pensar, já faz parte dos riscos da inteligência artificial. Em debates no South by Southwest (SXSW), especialistas levantaram outro receio: o impacto dessas ferramentas na motivação para aprender. Em escolas e no trabalho, cresce o receio de que sistemas capazes de produzir respostas em segundos reduzam justamente o esforço mental que sustenta criatividade, autonomia e pensamento crítico.
Do jeito que muitas ferramentas são usadas hoje, a IA não funciona apenas como uma fonte de respostas. Ela também sugere formatos, organiza argumentos e estrutura o raciocínio. Em poucos segundos, um chatbot pode produzir o esboço de um texto, o plano de um projeto ou a lista de ideias para uma apresentação.
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Para alguns pesquisadores, isso cria uma mudança mais profunda do que parece. Quando a tecnologia se torna o primeiro passo do processo intelectual — quase como um oráculo que entrega respostas prontas — ela também pode reduzir o espaço de exploração, dúvida e tentativa que normalmente faz parte da formação das ideias.
Em um dos painéis do festival, Mike Pell, executivo da Microsoft e criador do formato PDF, chamou atenção para a ordem em que muitas pessoas recorrem à tecnologia. Em vez de começar pela reflexão, disse ele, muitos usuários acionam a IA como primeiro passo.
“Antes de recorrer automaticamente à inteligência artificial para a resposta deveríamos recorrer primeiro a nós mesmos."
Mike Pell, executivo da Microsoft e criador do formato PDF
“Antes de recorrer automaticamente à inteligência artificial para a resposta deveríamos recorrer primeiro a nós mesmos", diz Pell, o criador do PDF.
Ferramentas capazes de estruturar textos e organizar ideias em poucos segundos aceleram processos e tiram a fricção. Ao mesmo tempo, podem encurtar uma etapa importante do pensamento: o momento em que as ideias ainda estão sendo exploradas.
O CÉREBRO PRECISA DE FRICÇÃO
A preocupação também aparece na neurociência.
Durante o debate, Ned Johnson, educador e coautor do livro The Self-Driven Child, lembrou que o desenvolvimento cognitivo segue um princípio básico: o cérebro se desenvolve de acordo com a forma como é utilizado.
Aprender envolve esforço mental. Sem esse esforço, o aprendizado tende a se tornar mais superficial.
Criatividade, capacidade de resolver problemas e resiliência surgem do enfrentamento de desafios. Quando tarefas complexas são automatizadas cedo demais, parte desse processo pode se enfraquecer. Aprender envolve esforço mental. Sem esse esforço, o aprendizado tende a se tornar mais superficial.
QUANDO O ESFORÇO DESAPARECE
Pesquisas citadas no festival ajudam a ilustrar esse fenômeno.
Em um estudo feito pelo Massachussets Institute of Technology (MIT) estudantes foram convidados a escrever uma redação. Metade utilizou ferramentas de IA.
Três dias depois, 83% dos alunos que recorreram à tecnologia não conseguiam lembrar o que haviam escrito, enquanto aqueles que produziram o texto sem auxílio tecnológico demonstraram maior retenção do conteúdo.
Para os pesquisadores, o resultado aponta para um problema central: quando o esforço cognitivo é terceirizado, o aprendizado tende a se tornar mais frágil.
O RISCO DE FORMAR ALUNOS "PASSAGEIROS"
A discussão ganhou outra dimensão com dados apresentados por Rebecca Winthrop, diretora do Center for Universal Education da Brookings Institution, que apresentou no festival resultados de uma pesquisa internacional sobre jovens e inteligência artificial.
O estudo identifica quatro perfis de engajamento no aprendizado: alunos que resistem às atividades escolares, alunos que apenas cumprem tarefas, alunos focados em desempenho e um grupo menor movido pela curiosidade.
Esse último perfil — chamado de “explorer mode” — representa menos de 4% dos estudantes. Já cerca de metade dos jovens afirma frequentar a escola em um estado descrito pelos pesquisadores como “passenger mode”: fazem o necessário para avançar, mas sem envolvimento real com o aprendizado.

Para Rebecca, existe o risco de que o uso indiscriminado de inteligência artificial amplifique esse comportamento.
Durante entrevistas com estudantes, ela ouviu uma pergunta recorrente: se os chatbots conseguem fazer tudo, qual é exatamente o papel do aluno?
CRIATIVIDADE TAMBÉM ENTRA NA CONTA
Outro efeito observado envolve a produção de ideias.
Pesquisas que analisaram milhares de redações de estudantes mostram que textos escritos sem o uso de IA apresentam maior diversidade de argumentos. Quando ferramentas generativas entram no processo, as respostas tendem a se concentrar em padrões semelhantes.
O resultado sugere que a tecnologia pode reduzir a variedade de ideias, mesmo quando acelera a produção de conteúdo.
ENTRE O ENTUSIASMO E A CAUTELA
Apesar dos alertas, o tom dos debates no South by Southwest esteve longe de ser tecnofóbico.
Especialistas lembraram que a inteligência artificial também pode abrir novas possibilidades para a educação. Ferramentas generativas já ajudam professores a adaptar conteúdos para diferentes perfis de alunos, apoiar estudantes neurodivergentes e reduzir tarefas administrativas que consomem tempo dos educadores.
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O desafio, segundo os pesquisadores, não está em impedir o avanço da tecnologia. Está em aprender a usá-la sem eliminar processos humanos essenciais para o aprendizado.
No centro dessa discussão está uma pergunta que surge repetidamente nos debates do festival: se a inteligência artificial consegue fazer tantas tarefas intelectuais, qual continua sendo o papel do esforço humano no processo de aprender?