O futuro que o mundo busca tem sotaque brasileiro

Esther Perel, a psicóloga belga que redefiniu o debate global sobre relacionamentos, diz que a sociabilidade brasileira pode ser uma vantagem em um mundo marcado pela solidão

O futuro que o mundo busca tem sotaque brasileiro
FG Trade via Getty Images

Bruna Infurna 3 minutos de leitura

Esther Perel, a psicóloga belga que redefiniu como o mundo pensa sobre relacionamentos, confiança e intimidade — foi revelada como keynote do SP2B, o novo grande festival de inovação e criatividade que São Paulo lança para o mundo, programado para agosto. Mas antes do anúncio, ela respondeu a uma pergunta que poucos teriam coragem de fazer em um palco desse porte.

Quais skills devemos ensinar aos nossos filhos? E o jeito brasileiro de ser — de gostar de estar junto, de criar laço, de conversar longo, de se encontrar — pode ser nosso superpoder em um mundo que enfrenta uma epidemia de solidão?

“Não tente se tornar igual a esta sociedade. Vocês têm algo único e é exatamente com isso que as pessoas aqui estão tentando se reconectar. Não apliquem um conceito americano à realidade brasileira", diz Esther Perel.

O Brasil inteiro precisava ouvir isso.

Durante décadas, a gente cresceu com a sensação de ser o patinho feio da inovação global. Olhávamos pro Vale do Silício como modelo, para os americanos como referência, para o nosso jeito de ser como problema a resolver. Aprendemos a ter vergonha da nossa sociabilidade. A chamar de soft skill aquilo que é, na verdade, uma das habilidades mais complexas e raras que existem: construir confiança, criar pertencimento, sustentar relação no meio do caos.

Leia mais: SXSW 2026: as tendências morreram. Vida longa às tendências

Nós não éramos atrasados. Éramos diferentes. E essa diferença era, o tempo todo, exatamente o que faltava lá fora.

O Brasil aprendeu a sobreviver na incerteza sem perder o fio do laço. E isso, num mundo ansioso e fragmentado, vale ouro.

Esther Perel foi além. Falou sobre ritmo  e como o Brasil tem uma tradição única de saber dosar ação e pausa, movimento e silêncio. Que parte da crise do Ocidente é essa: a mudança tão acelerada que as pessoas ficam desorientadas, param de se ajudar, fraturam. Quando o beat vai rápido demais, vira caos. O Brasil sabe regular esse beat. Aprendeu a sobreviver na incerteza sem perder o fio do laço. E isso, num mundo ansioso e fragmentado, vale ouro.

Ela falou sobre confiança, o fio que conecta o SP2B ao legado do Yuval Harari, keynote da edição prévia de lançamento que deixou uma frase no ar: sem reconquistar confiança em nível pessoal, organizacional e de país, não enfrentamos o que vem

Leia mais: 5 perguntas para David Gruber, biólogo e fundador do Projeto CETI

Esther Perel define confiança como o que usamos para fechar o gap entre expectativa e incerteza. Um salto de fé. E a sua arquitetura — pertencimento, reconhecimento, resiliência coletiva — é o que o Brasil pratica, quase sem perceber, há séculos. Só que nunca colocou no currículo porque achava que não contava.

O Brasil sempre foi o cisne. Só não sabia.

O SP2B nasce com essa aposta: que São Paulo pode ser o palco onde o Brasil finalmente conta essa história para o planeta. Não como país emergente tentando copiar um modelo, mas como civilização que tem algo urgente e insubstituível a oferecer. Esther Perel estará em São Paulo em agosto. E eu tenho a sensação de que ela vai chegar lá e encontrar exatamente o que descreveu no palco da SP House: aliveness. Aquela qualidade de estar vivo que não se compra, não se automatiza e não se replica com IA.

O mundo não precisa que o Brasil vire americano. O mundo precisa aprender o que o Brasil já sabe fazer.


SOBRE A AUTORA

Bruna Infurna é head de contas estratégicas do LinkedIn para a América Latina. saiba mais