O SXSW que não quer falar de tecnologia

Pela primeira vez em anos, o maior festival de inovação do mundo colocou uma pergunta simples no centro de tudo. Para que serve a tecnologia se ela não serve ao humano?

O SXSW que não quer falar de tecnologia
maxim-berg e shubham-dhage via Unsplash

Pedro Teberga 6 minutos de leitura

Há uma cena que resume bem o espírito do SXSW 2026, que ocorre entre 12 e 18 de março em Austin, no Texas. Tristan Harris, ex-designer do Google e cofundador do Center for Humane Technology, e o físico Anthony Aguirre, diretor do Future of Life Institute, dividem um palco para falar sobre como a humanidade pode perder o controle da inteligência artificial. Não é uma palestra sobre regulação. Não é um debate sobre governança de dados. É uma conversa sobre os mecanismos concretos pelos quais algo que construímos pode nos tornar irrelevantes. E sobre o que, se é que algo, ainda é possível fazer.

O detalhe significativo é que essa sessão foi a mais votada pelo público do PanelPicker, o sistema pelo qual os próprios participantes do SXSW elegem os temas que querem debater.

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Quase um terço de todas as propostas submetidas tocavam em inteligência artificial, número recorde na história do festival. Mas o que o programa revelou, ao sintetizar essas propostas, foi algo mais específico e mais incômodo do que o entusiasmo habitual com IA. Uma obsessão coletiva com a pergunta que raramente aparece nos releases corporativos. Para que serve tudo isso?

O festival era o lugar onde o futuro chegava antes do futuro.

É uma virada sutil, mas perceptível. Nos anos anteriores, o SXSW funcionava como uma vitrine de demonstrações, com novos modelos, novas plataformas, novos dispositivos. O festival era o lugar onde o futuro chegava antes do futuro. Em 2026, algo mudou. O tema central articulado pela organização não é uma tecnologia emergente. É uma questão sobre como isso impacta os seres humanos e a humanidade.

Greg Rosenbaum, vice-presidente sênior de programação do evento, resumiu em poucas palavras: neste ano, um tema se sobressaiu sobre todo o resto, e esse tema era os humanos. A frase seria banal se não viesse justamente do festival que, durante décadas, colocou o código acima da carne.

A escolha tem uma dimensão estrutural que não deve ser subestimada. O SXSW 2026 chega transformado fisicamente: o Austin Convention Center, sede do festival desde 1993, foi demolido para reconstrução, e o evento se espalha pelo centro da cidade num formato que a organização batizou de vila criativa.

O festival está tentando se reinventar no exato momento em que a tecnologia que ele sempre celebrou começa a gerar mais ansiedade do que admiração.

Hugh Forrest, figura central por 35 anos e o homem que transformou o braço interativo do festival no evento global que ele se tornou, não está mais lá. A tradicional trilha Interactive foi renomeada para Innovation. São mudanças de superfície, mas que sinalizam algo mais profundo. O festival está tentando se reinventar no exato momento em que a tecnologia que ele sempre celebrou começa a gerar mais ansiedade do que admiração.

A keynote que abre a conferência de inovação é reveladora nesse sentido. A cientista Rana el Kaliouby, pioneira em computação afetiva e CEO da Affectiva, sobe ao palco para discutir como manter a humanidade no centro de uma revolução de IA que, por definição, a está deslocando. El Kaliouby passou décadas tentando ensinar máquinas a reconhecer emoções humanas, o que a coloca numa posição filosófica peculiar. Ela sabe, melhor do que quase ninguém, o que se perde quando um algoritmo tenta simular empatia sem a ter de fato. A pergunta implícita em sua palestra é a que atravessa toda a programação de 2026: quando a máquina imita o humano com perfeição suficiente, o que sobra de distintivo no humano?

Não é por acaso que a robótica emerge como o segundo grande tema da edição, disputando protagonismo com a IA pela primeira vez. Humanoides já estão operando em hospitais e armazéns, e o SXSW vai além das demonstrações de fábrica para colocar em pauta a questão do design de personalidade. Como se faz para que um robô seja um companheiro confiável, e não apenas uma máquina impressionante? A pergunta parece técnica, mas é, em essência, política. Ela pressupõe uma escolha coletiva sobre que tipo de relação queremos ter com máquinas que, cada vez mais, habitam nossos espaços e imitam nossos comportamentos.

mão robótica segura cérebro envolto em fios de luz
Crédito: Freepik

Há também, na programação de 2026, um fio que conecta sessões aparentemente díspares sobre saúde mental, longevidade, solidão e bem-estar, revelando uma espécie de diagnóstico implícito: a tecnologia que deveria conectar as pessoas as está isolando. Dez por cento de todas as propostas submetidas ao PanelPicker abordaram saúde mental. Não a saúde mental como mercado, com apps de meditação e plataformas de terapia on-line, mas como crise.

A pesquisa de Desenvolvimento Adulto da Universidade de Harvard, que por mais de 85 anos rastreia os fatores associados à felicidade humana, tem uma conclusão que não cabe num produto. Conexões reais, não conexões digitais, são o que distingue uma vida longa de uma vida boa. Que essa pesquisa ganhe um painel no SXSW em 2026 diz algo sobre o momento.

Para o Brasil, o evento tem uma dimensão que transcende o turismo de tendências. A SP House, espaço do Governo de São Paulo em Austin, traz Amy Webb, uma das futuristas mais influentes do mundo, para uma conversa sobre como navegar a incerteza e preservar o fator humano em meio a transformações aceleradas.

A IA que chega ao Brasil não chega neutra; ela carrega os dados, os vieses e as prioridades de quem a treinou.

A presença brasileira no festival cresce a cada ano, e o país tem razões próprias para levar a sério o debate que Austin está travando. O reconhecimento facial já opera em sistemas de segurança pública brasileiros com regulação precária, produzindo erros que afetam desproporcionalmente a população negra. A IA que chega ao Brasil não chega neutra; ela carrega os dados, os vieses e as prioridades de quem a treinou.

inteligência artificial na medicina
Créditos: Wanniwat Roumruk/ Blue Planet Studio/ Getty Images

O SXSW não é, e nunca foi, um espaço de deliberação democrática. É um festival, com todas as limitações que isso implica: ingresso caro, público específico, programação curada por quem tem acesso. Mas ele funciona como um termômetro peculiar do estado de espírito das elites criativas e tecnológicas globais. E o que esse termômetro mostra em 2026 é algo que vale ser levado a sério.

Quando o público do maior festival de inovação do mundo elege como tema central a pergunta sobre o que acontece quando perdemos o controle da IA, e quando o próprio festival responde renomeando sua trilha mais icônica de Interactive para Innovation, retirando o humano do nome, a ironia é densa o suficiente para ser mais do que coincidência.

A disposição de questionar antes de aplaudir já é uma mudança de postura que não deve passar despercebida.

Amy Webb costuma dizer que tendência não é destino. O SXSW 2026 parece ter absorvido essa lição: ao invés de celebrar o inevitável, ele está, pela primeira vez em anos, questionando se o caminho que estamos trilhando é realmente o que escolhemos. É um gesto modesto, e provavelmente insuficiente. Mas num festival que durante décadas celebrou o futuro sem hesitar, a disposição de questionar antes de aplaudir já é uma mudança de postura que não deve passar despercebida.


SOBRE O AUTOR

Pedro Teberga é especialista em negócios digitais e professor da Faculdade Einstein, Inteli, ESPM, FGV, FAAP, Centro Universitário Bel... saiba mais