SXSW 2026: as tendências morreram. Vida longa às tendências
Amy Webb decretou o fim do relatório fixo de tendências no SXSW, exaltou a criatividade destrutiva. Mas, o que isso significa?

Uma das apresentações mais esperadas do South by Southwest (SXSW) virou um enterro. E foi intencional. A futurista Amy Webb levou coroas de flores brancas, lenços de papel, uma playlist de “despedida” e velas (eletrônicas) para o salão principal do evento.
Antes de pisar no palco, a curiosidade das 1,5 mil pessoas da audiência era visível. Mais do que uma vez, perguntas sobre “apocalipse” e “fim do mundo” foram trocadas entre a audiência.
Quando entrou no palco, vestida de capa preta de veludo, a CEO do Future Today Strategy Group (FTSG) apresentou um vídeo de eulogia para o morto em questão: seu relatório anual de tecnologia emergente.
Publicado religiosamente no mês de março há 19 anos, o documento de cerca de mil páginas era uma mistura de bíblia e guia para as lideranças de inovação nos mais diversos setores.

“Essa eulogia não é só para o trend report, é para todos os relatórios de tendência. Um PDF estático até informa, mas, hoje em dia, torna-se obsoleto imediatamente porque tudo está mudando muito rapidamente”, afirmou. Amy não deixou nem o “corpo” do documento esfriar e logo citou a “destruição criativa” e chamou para uma celebração.
Foi aí que o enterro virou uma festa. A banda marcial da Universidade do Texas entrou na sala, tocando uma fanfarra. Alguns bateram palma, outros riram enquanto filmavam a cena inusitada.

A audiência ainda estava guardando os celulares quando Amy veio com um novo anúncio porque, embora o mundo esteja mudando rápido, ainda há uma forma de pensar estratégias para o futuro: as convergências.
Convergências ocorrem quando múltiplas tendências, forças e incertezas se cruzam e interagem entre si. Amy explicou que as tendências são mais como o dado de previsão de temperatura dos dias, enquanto as convergências são o radar meteorológico completo. Nas palavras da futurista, o novo modelo (também entregue em PDF) é um “rastreador de tormentas”.
A crítica aos relatórios de tendência não é nova. Em uma apresentação em 2024, o estrategista cultural Matt Klein falou sobre isso em uma apresentação. E vem reforçando essa ideia em outras ocasiões, inclusive neste mesmo South by Southwest.
TEMPESTADES SEMPRE À FRENTE
“Convergências operam em nível sistêmico, abrangem diversas indústrias e criam novas realidades, de forma repentina. É uma tempestade inevitável”, disse a futurista.
Não é a primeira vez que a veterana do SXSW fala sobre tempestades e cenários catastróficos em Austin. Entre 2021 e 2025, ela repetiu a palavra “tempestade” 25 vezes em apresentações. É bom lembrar que Amy se apresenta em Austin há pelo menos 15 anos.
“Você não pode ficar olhando o céu ficar verde, a chuva chegar e voltar dizendo que alguém está exagerando”, afirmou.
Embora tenham ficado cada vez mais populares e mais extravagantes, as palestras de Amy Webb seguem a mesma estrutura: há um gancho sentimental, um exemplo exagerado, um aviso para notícias ruins e um chamado para ação, que culmina no lançamento do documento.
Em 2022 e 2023, ela disse que sua apresentação era para quem tinha estômago forte. Em 2024, dedicou tempo para tratar sobre o medo, a incerteza e a dúvida. Em 2025, ela afirmou que tinha chegado ao “ápice do pessimismo”.
Depois há exemplos de tecnologias que vão das mais inusitadas – este ano foi o caso do criador de conteúdo que fez uma réplica deepfake de si para fazer lives – até as que impressionam mais, como os exoesqueletos para melhorar a performance física das pessoas. Este ano, Amy Webb trouxe mais exemplos que vieram da China e de países asiáticos.
"Não existem mais produtos para vender. Então as empresas vendem você de volta para você mesmo"
Ela não deixou de lado a crítica aos líderes de grandes empresas de tecnologia. Cada ano, a futurista critica um líder de big tech: em 2025 foi Elon Musk; em 2024, ela falou sobre os “tech bros”. Este ano, foi Sam Altman, o CEO da OpenAI.
Seguindo a estrutura das últimas apresentações, depois da tormenta vem o chamado para que líderes de empresas e pessoas tomem alguma atitude com relação à estratégia de futuro. Há sempre um chamado para ação, mas para que tipo de ação? Não fica tão claro.
Nos últimos anos, a parte mais otimista e propositiva da apresentação ocupou os 10 ou 20 minutos finais. Em 2026, a proposição de soluções teve menos tempo no palco do que a encenação do enterro. Foram oito minutos dedicados ao pedido final para as pessoas retomarem a agência com relação à estratégia de futuro.
“Ninguém vai te salvar”, avisou.
E O CONTEÚDO?
Amy Webb focou em três convergências este ano. A começar pela de “humanos aumentados”, que fala sobre o uso de biotecnologia e nanotecnologia para apoiar a performance física e mental das pessoas.
O tema remete à biologia sintética, apresentada em 2022, aos dispositivos vestíveis, mostrados em 2023 (mesmo ano em que ela se desdobrou para falar sobre o metaverso industrial) e ao conceito de “inteligência viva” apresentado no ano passado.

A outra convergência é a do trabalho ilimitado, que fala sobre agentes de IA e a possibilidade de fábricas “de luz desligada”, trabalhando sem a necessidade de humanos. Um desdobramento da computação assistida citada em 2023 e da IA agêntica, citadas desde 2024.
Já a terceirização emocional, que cruza a falta de conexão entre humanos e o uso de robôs para conversas e relacionamentos amorosos, é a evolução do fim da internet, decretado em 2023. E também de sistemas de IA que detectam emoção, citados em 2022.
Amy apresentou um cenário em que o capitalismo chega a sua “totalidade”. “O capitalismo não colapsa, ele se completou. Não existem mais produtos para vender. Então as empresas vendem você de volta para você mesmo".
QUEM É VOCÊ NO CHURRASCO?
Em 75 minutos no palco, Amy Webb mostrou um pouco menos da sua visão do que nos 20 minutos informais de fala no FastCo Grill, evento paralelo da Fast Company no SXSW.
Sem a cenografia e a teatralidade, numa conversa mais intimista, Webb mostrou que está com raiva com o rumo que o mundo tecnológico tomou. E exasperada com a falta de ações coletivas de empresas e de indivíduos com relação a isso.
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Para ela, consumimos as novidades tecnológicas sem pensar em seus objetivos de longo prazo. “Nós simplesmente abdicamos da responsabilidade. E não apenas nos Estados Unidos, aos meus amigos brasileiros: vocês também estão enfrentando o mesmo problema. A questão se entrelaça com política, cidadania e a forma de nos relacionarmos uns com os outros. Por mais quanto tempo vamos aceitar isso?˜, questionou.
“Precisamos ser mais céticos e desconfiar das tecnologias cool”, afirmou a futurista, que, há anos publica relatórios tratando exatamente sobre as tecnologias mais inusitadas do mundo.
A CRIATIVIDADE DESTRUTIVA DO QR CODE
Na palestra-funeral, Amy Webb citou rapidamente a ideia de criatividade destrutiva. O conceito, que deu o prêmio Nobel aos economistas Philippe Aghion, Peter Howitt, e Joel Mokyr em 2025, explica que o crescimento econômico sustentado pela inovação acontece quando novas tecnologias deixam as outras obsoletas.
A futurista evocou o conceito como um caminho para as empresas lidarem com o rol de incertezas e tempestades à frente.
Aparentemente, ela não aplicou a destruição que pregou. O chamado para a “autorreflexão” ficou mesmo para os executivos e para a audiência. Porque, depois do espetáculo teatral, a palestra de Amy Webb terminou da mesma forma de sempre: com um slide do QR code para o relatório de convergências. Em PDF.