SXSW 2026: Burnout é sintoma de vida e de trabalho biologicamente insustentáveis

Especialistas mostram que a exaustão é sistêmica e que cultura organizacional deve ser construída um sistema nervoso por vez

comportamento da liderança pode levar as equipes ao burnout
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Carol Romano 8 minutos de leitura

Por muito tempo, o burnout foi tratado como um problema psicológico ou comportamental, uma falha individual de gestão do tempo ou de autocuidado que poderia ser resolvida com mais resiliência, yoga ou aplicativos de bem-estar. Hoje começa a se consolidar outra leitura: o burnout é uma característica estrutural da forma como organizamos o trabalho e a vida. 

Essa conclusão apareceu sob perspectivas distintas nas falas do consultor e autor Daniel Motta e da cientista social Megan Holmes. Juntas, elas desenham um diagnóstico duro: organizações e indivíduos estão tentando resolver um problema estrutural com soluções superficiais. Enquanto isso, o cérebro humano vem sendo empurrado para um estado permanente de sobrevivência.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Mais de 70% dos trabalhadores relatam experimentar burnout e mais da metade afirma viver esse estado de forma contínua. Ao mesmo tempo, apenas 11% dizem ter um forte senso de propósito no trabalho, o que indica que a exaustão deixou de ser um episódio isolado para se tornar parte do cotidiano profissional.

A ciência hoje descreve o burnout como um estado biológico de desregulação. Em condições saudáveis, o corpo funciona em ciclos: o cortisol sobe diante de ameaças e depois diminui, a dopamina recompensa a conclusão de tarefas e a melatonina regula sono e recuperação. O sistema nervoso alterna naturalmente entre ativação e descanso, permitindo que o organismo recupere energia.

No ambiente contemporâneo, esses ciclos foram quebrados. Notificações constantes, excesso de informação, demandas contínuas e conectividade permanente mantêm o organismo em alerta prolongado. O resultado é um sistema nervoso que nunca desliga e que passa a operar de forma crônica em modo de sobrevivência.

OS VILÕES DA ENERGIA VITAL NO TRABALHO

Outro ponto provocativo do debate é que o ambiente corporativo explica apenas parte do problema. Pesquisas indicam que cerca de um terço do burnout está diretamente ligado ao trabalho, enquanto os outros dois terços vêm de fatores que moldam a vida contemporânea.

Isso significa que muitas organizações estão tentando resolver um problema sistêmico apenas com ferramentas internas.

Entre esses fatores estão a conectividade permanente e a ausência de fronteiras entre vida pessoal e trabalho, a comparação social amplificada pelas redes, o excesso de escolhas no cotidiano, a insegurança econômica constante, a perda de comunidades e redes de apoio, a sobrecarga de informação e a deterioração do sono.

como a saúde mental influencia a produtividade
Créditos: Rawpixel/ Freepik

Programas de bem-estar, horários flexíveis e aplicativos de meditação ajudam, mas atingem apenas parte da equação. Eles aliviam sintomas sem necessariamente alterar o sistema que produz o problema.

A reação da geração mais jovem ao mercado de trabalho ajuda a ilustrar esse cenário. Muitas vezes interpretada como falta de comprometimento, ela pode ser lida de outra forma. Nos Estados Unidos, o burnout médio aparece por volta dos 42 anos, enquanto entre profissionais da geração Z ele já surge por volta dos 25.

Mais da metade desses jovens afirma evitar cargos de gestão. Não por falta de ambição, mas porque percebem a liderança atual como um papel de alto estresse e baixo retorno emocional. Em outras palavras, a nova geração está enviando um sinal de mercado que muitas organizações ainda interpretam de forma equivocada.

A ciência hoje descreve o burnout como um estado biológico de desregulação.

Outro fenômeno crescente é o uso de substâncias para sustentar performance. O mercado global de nootrópicos e estimulantes cognitivos já ultrapassa US$ 10 bilhões, e prescrições de estimulantes têm crescido rapidamente entre profissionais de alta performance.

Essas substâncias produzem exatamente os comportamentos que muitas empresas recompensam: hiperfoco, resistência à fadiga, dedicação intensa e estabilidade emocional artificial.

O efeito se aproxima do doping no esporte. Quando alguns começam a usar, o padrão de performance sobe e quem não usa passa a parecer menos produtivo. O risco é que se normalize, ainda que implicitamente, uma cultura organizacional baseada em performance farmacologicamente sustentada.

EFEITO COLATERAL

Outro fator que pode intensificar esse cenário é a inteligência artificial. Grande parte das discussões sobre IA no trabalho gira em torno da automação de empregos, mas há um risco menos discutido: a intensificação infinita do trabalho. Sistemas baseados em IA reduzem drasticamente o esforço necessário para executar tarefas, o que inicialmente parece positivo.

No entanto, quando o esforço cai, muitas organizações aumentam o volume de trabalho até preencher o novo limite de capacidade.

dinâmicas aparentemente banais do cotidiano corporativo podem ativar respostas neurológicas profundas.

Além disso, ferramentas baseadas em agentes de IA removem algo fundamental para o cérebro humano: a sensação de conclusão. Sem marcos claros de finalização, o simples “terminei” desaparece e o sistema de recompensa do cérebro deixa de funcionar plenamente.

Nesse contexto, as pessoas trabalham continuamente, mas com a sensação de que nada foi realmente concluído. O burnout deixa então de parecer um acidente e passa a ser consequência previsível de sistemas projetados exclusivamente para eficiência, velocidade e crescimento contínuo.

Durante décadas, empresas otimizaram processos para produtividade e retorno financeiro sem questionar se esses modelos eram biologicamente sustentáveis para as pessoas que operam dentro deles.

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Agora os efeitos começam a aparecer de forma mais evidente. A exaustão deixa de ser tratada como fragilidade individual e passa a revelar limites estruturais do modelo de trabalho contemporâneo. Isso abre espaço para novas perguntas sobre como as organizações devem ser desenhadas no futuro.

UM NOVO PARADIGMA PARA AS LIDERANÇAS

Se o burnout é sistêmico, o papel da liderança também muda. Não basta perguntar se uma decisão melhora eficiência, pois a pergunta central passa a ser outra: se essa decisão gera ou consome energia humana. Cada escolha organizacional produz impactos biológicos reais sobre as pessoas.

Excesso de reuniões fragmenta atenção, demandas ambíguas elevam cortisol, ausência de marcos de conclusão reduz dopamina e falta de descanso impede recuperação cognitiva.

Pesquisas indicam que até 70% do engajamento de uma equipe é determinado pelo comportamento do gestor direto. Isso significa que líderes não apenas tomam decisões estratégicas, mas também regulam o ambiente emocional e biológico das equipes.

saúde mental no trabalho
Crédito: Jacob Wackerhausen/ iStock

A cientista social Megan Holmes explica que dinâmicas aparentemente banais do cotidiano corporativo podem ativar respostas neurológicas profundas. Imagine uma reunião em que alguém levanta uma preocupação e a ideia é rapidamente descartada. O silêncio toma conta da sala, olhares desviam, ombros se contraem e as ideias começam a encolher.

Segundo Holmes, situações como essa ativam imediatamente o sistema de ameaça do cérebro. A amígdala, responsável por detectar perigo, assume o controle enquanto o córtex pré-frontal, responsável por criatividade, planejamento e resolução de problemas, perde prioridade. Nesse momento, a pessoa não está menos motivada, mas neurologicamente bloqueada.

O resultado nas organizações é imediato. Ideias deixam de ser compartilhadas, críticas construtivas desaparecem, erros deixam de ser apontados e a inovação evapora. Muitas vezes, ninguém percebe que o problema não está nas pessoas, mas no ambiente que desencadeou essa resposta neurológica.

COMO O BURNOUT AFETA O SISTEMA NERVOSO

Esse bloqueio ocorre porque o cérebro opera em três sistemas principais. O cérebro de sobrevivência é responsável por funções básicas; o cérebro emocional processa emoções e estresse; e o cérebro racional permite planejamento e tomada de decisão.

Quando o ambiente é percebido como seguro, esses sistemas trabalham juntos. Quando o cérebro detecta ameaça, ocorre o que alguns pesquisadores chamam de flipped lid, situação em que o cérebro racional perde acesso.

Nesse momento entram em ação quatro respostas clássicas de sobrevivência:

- fight (luta) aparece como defensividade, conflitos ou microgerenciamento

- flight (fuga) surge como silêncio, distanciamento ou evitação

- freeze (paralisia) manifesta-se como bloqueio cognitivo ou desengajamento;

- fawn (bajulação) aparece como people pleasing, excesso de trabalho e submissão

Curiosamente, esse último comportamento é frequentemente confundido com alta performance, quando na verdade pode ser apenas uma resposta ao medo.

imagens do cérebro em vários estados emocionais
Crédito: Fast Company Brsil

A neurociência social também mostra que emoções se espalham rapidamente entre as pessoas por meio dos neurônios-espelho. Isso significa que o estado emocional do líder influencia diretamente o estado da equipe.

Se o líder entra em uma reunião tenso ou irritado, o cérebro do time registra isso como ameaça. Se entra calmo e aberto, cria segurança e facilita colaboração. Como resume Holmes, o sistema nervoso do líder regula o sistema nervoso da equipe.

Nesse sentido, cultura organizacional deixa de ser apenas um conjunto de valores abstratos. Ela passa a ser construída nas microinterações do cotidiano que regulam o sistema nervoso das pessoas. A boa notícia é que mudanças pequenas já podem alterar profundamente o ambiente.

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Holmes sugere algumas microações práticas. Diminuir o ritmo da fala, baixar o tom de voz, nomear tensões na sala dizendo algo como “acho que algo aconteceu aqui, vamos voltar a esse ponto”, e reparar rapidamente falhas de comunicação com frases simples como “acho que falei de forma dura, vamos retomar isso”. Esses gestos simples ajudam a restaurar segurança psicológica.

Durante anos, confiança, pertencimento e segurança psicológica foram tratados como soft skills. A neurociência mostra que isso é um erro estratégico, pois criatividade, colaboração e inovação surgem apenas quando o cérebro sente que não precisa se defender. Nesse sentido, como resume Holmes, cultura organizacional é construída um sistema nervoso por vez.


SOBRE A AUTORA

Carol Romano é consultora de inovação, psicanalista e especialista em relações. Cofundadora da consultoria Futuro Co. com foco em inno... saiba mais