SXSW 2026: IA pode acabar com o clique? CEO da Cloudflare acha que sim

Modelo de negócios que beneficia tráfego e cliques deve ser radicalmente transformado com agentes de IA, segundo Matthew Prince

SXSW 2026: IA pode acabar com o clique? CEO da Cloudflare acha que sim
4zevar via Adobe Stock, Daryl Han via Unsplash

Camila de Lira 4 minutos de leitura

Gerar tráfego e, então, vender. Esse foi o modelo que sustentou a internet por décadas. Agora, ele começa a se desfazer com a chegada dos agentes de inteligência artificial.

Em palestra bastante comentada no South by Southwest (SXSW), o CEO da Cloudflare, Matthew Prince, apontou para a ruptura de uma das bases dos principais serviços online: o clique. Ele foi entrevistado por Stephanie Mehta, jornalista, CEO e diretora da Mansueto Ventures, empresa de mídia que publica a Fast Company

Até 2027, bots devem gerar mais tráfego na internet do que humanos, projetou Prince. “O problema é que isso quebra o modelo de negócios da internet: bots não clicam em anúncios”, afirmou.

A interface da IA, que dá as respostas diretas para o usuário final e “conversa” com ele, é um dos pontos que altera a estrutura da internet. No lugar de clicar no site ou no aplicativo, a pessoa segue na página da IA.

Para Prince, é uma mudança de interface equivalente ao que aconteceu com o começo dos navegadores de internet nos anos 1990 e a entrada das redes sociais no mundo digital em 2010. E isso chega na estrutura da monetização da web, que é a audiência. 

Dados da CloudFlare, empresa que fornece serviços de rede para 20% da internet, mostram que os sites já estão recebendo menos usuários. Há 18 meses, já era 20 vezes mais difícil obter tráfego do Google do que há 10 anos; hoje em dia, é 50 vezes mais difícil devido aos resumos de IA no topo da busca. 

Dentro das ferramentas mais conhecidas de IA, a diferença é ainda mais acentuada. Atrair tráfego para o site a partir do ChatGPT é três mil vezes mais difícil do que era no modelo clássico de buscador e 50 mil vezes mais difícil no Claude, da Anthropic.

CRISE TAMBÉM DO E-COMMERCE

O impacto também chega ao e-commerce. Para Prince, o setor mais tradicional da internet entra em um processo de desintermediação radical. O processo de escolha de produtos deixa de ser humano e passa a ser feito por agentes de IA. Enquanto uma pessoa entra em média em cinco sites para conferir e comparar produtos, um bot entra em cinco mil. 

Os bots podem analisar milhares de opções em segundos, cruzar preço, especificações e histórico – e ir direto à alternativa mais eficiente disponível.

Em vez de navegar por diferentes sites, comparar opções e escolher onde comprar, o usuário passa a delegar essa decisão. O agente pesquisa, cruza dados e pode ir direto ao fornecedor, sem passar por marketplaces, vitrines ou páginas intermediárias.

mão clica em um produto em site de e-commerce
Crédito: Freepik

Isso explica porque os maiores varejistas dos Estados Unidos estão adotando estratégias radicalmente diferentes quando o assunto são bots. O Walmart está completamente permissivo, numa tática de “venham todos os robôs”, deixando que os agentes naveguem e comprem em seu site.

Já a Amazon, diz Prince, está “aterrorizada com os bots”. A gigante do e-commerce tenta bloqueá-los legalmente, processando empresas como a Perplexity para impedir que seus agentes realizem compras no site.

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Para Prince, nenhuma dessas abordagens resolve o problema. Ele diz que é possível que o e-commerce tenha que se acostumar com um ambiente de receitas menores. O que pode ser prejudicial para micro e pequenas empresas. 

Outro perigo desta nova internet da IA é a consolidação ainda maior do mercado em apenas cinco grandes tipos de empresas: uma que fabrica, uma que detém o dinheiro, uma que possui o setor imobiliário, uma que transporta e uma empresa de IA. 

MODELO DE CONHECIMENTO

Embora esteja tudo em processo de transformação, Prince sugeriu uma alternativa ao clique: o modelo de conhecimento. No lugar de vender serviços ou produtos, os sites passam a licenciar a informação específica para adicionar à IA.

O executivo compara os modelos de IA a um “queijo suíço”: sistemas amplos, capazes de responder a muitas perguntas, mas com lacunas, especialmente em informações específicas, locais ou proprietárias. Falta ao ChatGPT a informação sobre restaurantes locais, exemplifica. 

hoje, é 50 vezes mais difícil obter tráfego do Google do que há 10 anos devido aos resumos de IA no topo da busca. 

Prince, que recentemente comprou um jornal local no estado de Utah (o "Park Records"), vê espaço para veículos locais ganharem com a nova internet agêntica. No lugar de se acotovelar por cliques, os sites ganham por licenciamento de conteúdo e de dados. Ou seja, o acesso dos robôs vira uma métrica.

Plataformas de IA podem remunerar criadores por meio de créditos, à medida que seus conteúdos são utilizados para compor respostas ou treinar sistemas. Tal modelo ainda está em testes por empresas de mídia, por exemplo. E vai depender da “unicidade” e da originalidade do conteúdo. 

Segundo Prince, o Reddit já tem licenciado o conteúdo do site para as inteligências artificiais. “A receita já foi sete vezes maior do que o 'New York Times' teve no último ano”, diz.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para n... saiba mais