20 anos depois, Idiocracia é menos ficção e mais checklist
Lançado quase em segredo em 2006, a comédia de Mike Judge sobre um futuro governado por idiotas completa duas décadas falando mais sobre o presente do que sobre o ano 2505 que imaginava

Em junho deste ano, uma arena de UFC de 27 metros de altura foi erguida no gramado da Casa Branca para sediar o evento "UFC Freedom 250", com capacidade para 5 mil pessoas e uma estrutura de iluminação apelidada de "a garra".
Bastou a notícia circular para as redes sociais lotarem de comparações com uma cena específica: a de um presidente fictício, ex-lutador de wrestling, que resolve os problemas do país a tiros de metralhadora e discursos histéricos.
O presidente em questão é Dwayne Elizondo Mountain Dew Herbert Camacho, personagem de Terry Crews em Idiocracia (Idiocracy, no original), sátira de ficção científica dirigida por Mike Judge que completa 20 anos em setembro.
A trama imagina uma humanidade tão regredida intelectualmente que um sujeito mediano de 2005, congelado por acidente, acorda 500 anos depois como o homem mais inteligente do planeta.
Quando estreou, em 1º de setembro de 2006, "Idiocracia" foi lançada em pouco mais de 130 cinemas, sem trailer, sem cartaz e sem uma única entrevista de divulgação. Arrecadou US$ 495 mil. Duas décadas depois, é citada toda vez que a realidade parece ter decidido copiar o roteiro.
O ABSURDO QUE VIROU REALIDADE
A graça original de "Idiocracia" estava no exagero. Um presidente que também é astro pornô. Uma Starbucks que virou casa de prostituição. Um tribunal em que a culpa se decide porque "basta olhar pra cara dele". Passadas duas décadas, boa parte desse exagero deixou de soar hipotético.
Além da arena erguida na Casa Branca, o site Consequence listou outros paralelos que se acumularam ao longo do segundo mandato de Donald Trump: patrocínios corporativos financiando obras ligadas à administração norte-americana, um secretário de Educação com décadas de vínculo com a World Wrestling Entertainment e um vocabulário público cada vez mais dependente de solavancos performáticos do que de política propriamente dita.
A comparação Trump-Camacho já persegue a obra desde 2016, quando o próprio Mike Judge foi convidado a comentar o paralelo em entrevista à Fast Company, feita pelo jornalista Dan Solomon às vésperas daquela eleição.

Na trama, as plantações morrem porque uma corporação convenceu a população a irrigar a terra com uma bebida esportiva de nome Brawndo em vez de água, sob o slogan "tem o que as plantas precisam".
A cena funciona quase como parábola sobre como interesse comercial de curto prazo pode se sobrepor a fatos básicos, mesmo quando o resultado é a fome coletiva.
Não é uma alegoria muito distante do impasse real entre lucro corporativo e crise climática: como a própria Fast Company Brasil já mostrou, reconhecer a gravidade do problema muitas vezes esbarra em crenças e interesses que as pessoas preferem não abandonar, mesmo diante de catástrofes recorrentes.
No filme, as marcas e corporações dominam um mundo que já colapsou. Elas seguem vendendo, ao mostrar para o público que não só são necessárias para a vida, como tem tudo aquilo que o ser humano precisa.
O discurso lembra um pouco a conversa que CEOs das companhias de inteligência artificial têm repetido ultimamente, argumentando que a tecnologia não só é inevitável como necessária para a humanidade chegar no futuro.

Além disso, em "Idiocracia" as corporações patrocinam agências governamentais, chegando ao ponto de logotipos de grandes empresas estarem estampados em prédios do governo. Os executivos ditam as regras a partir do que acham melhor para suas companhias e o agentes governamentais apenas aceitam, sem questionar.
Apesar de os produtos que tais companhias vendem fazerem mal e viciarem as pessoas, os executivos têm poder para seguir operando. Chega-se ao ponto de os personagens deste futuro distópico defenderem com unhas e dentes as marcas e os produtos vendidos.
O inglês do ano 2505 é uma mistura de gíria caipira, "valley girl" e grunhidos, a ponto de o protagonista ser confundido com um esnobe por falar de forma clara. Em 2024, a Oxford elegeu "brain rot" (algo como "cérebro apodrecido") a palavra do ano, em um contexto de consumo compulsivo de conteúdo raso nas redes.
Leia mais: Brain rot a jato? 10 minutos de IA bastam para afetar o raciocínio, diz estudo
O fenômeno já não é só humano: pesquisadores das universidades Texas A&M e Purdue descobriram que modelos de inteligência artificial treinados com muito conteúdo viral de baixa qualidade também perdem capacidade de raciocínio, um "brain rot" das máquinas.
Um estudo da Universidade Yale mostrou que problemas cognitivos autorrelatados praticamente dobraram entre jovens de 18 a 34 anos em uma década. A mesma publicação citou pesquisa do MIT Media Lab segundo a qual depender demais de chatbots de IA piora a capacidade de identificar desinformação ao falar sobre como a dependência de IA sem questionamento reduz o esforço cognitivo aplicado ao trabalho.

É um raciocínio parecido com o das previsões do filme "Ela" sobre companhia digital: a tecnologia que promete nos aliviar de um esforço também pode, sem perceber, atrofiar a capacidade que esse esforço treinava.
O roteiro de 2006 imaginou uma humanidade mais burra daqui a 500 anos. Não imaginou que ela inventaria, em duas décadas, formas inteiramente novas de ser absurda.
"ISSO VIROU DOCUMENTÁRIO"
A frase virou clichê nos comentários sobre "Idiocracia", tanto que parte do próprio público já reclama dela. No Letterboxd, rede social de resenhas de cinema, é comum encontrar avaliações recentes chamando a produção de "documentário" ou dizendo que ela parece "terror, não comédia" quando revista hoje.
No equivalente brasileiro AdoroCinema, o padrão se repete, mas com um ingrediente local: comentários recentes comparam a trama diretamente com o dia a dia do país, sem citar nenhum evento específico – só a sensação geral de que aquilo já é a realidade daqui.

Mas há uma camada a mais por trás desse consenso fácil. Desde o lançamento do filme, parte da crítica aponta que a premissa inicial (pessoas menos instruídas tendo mais filhos e "puxando a humanidade para baixo") flerta com um discurso eugenista.
Questionado sobre isso na mesma entrevista de 2016 à Fast Company, Mike Judge respondeu que a cena de abertura mostra duas famílias – a que se reproduz sem responsabilidade e a que se cerca de tantos cuidados que nunca tem filhos – como crítica aos dois lados. Disse que não acredita em eugenia e que via ali uma combinação de fatores natos e criados, não um veredito genético.
BASTIDORES DE UMA PRODUÇÃO AMALDIÇOADA
Se essa história fala tanto sobre hoje, vale lembrar como ela quase não existiu. Segundo relato do diretor de fotografia Timothy Suhrstedt à revista "Inverse", o orçamento foi de cerca de US$ 3 milhões, insuficiente para os efeitos visuais que a ambientação futurista pedia. O produtor Darren Gilford contou que o ambiente era tenso, com jornadas de até 16 horas e brigas constantes.
Até o clima jogou contra a produção: a trama se passa durante uma seca, mas o verão de gravações em Austin, no Texas, foi um dos mais chuvosos da história recente, obrigando a equipe a queimar grama repetidamente para simular terra ressecada.
Uma das cenas mais lembradas nos bastidores é a da "produção dentro da produção", um sucesso de bilheteria fictício chamado apenas "Ass" (Bunda), que consiste em 90 minutos de uma câmera fixa apontada para uma bunda.

Segundo o próprio Judge, a equipe chegou a gravar a cena de verdade, com atores recrutados só para posar, e a projetou para uma plateia teste. Funcionou tão bem, contou ele à Fast Company em 2016, que ele chegou a cogitar simplesmente lançar "Ass" e abandonar o resto do roteiro.
Outro detalhe hoje folclórico: os Crocs usados no figurino como calçado do futuro eram, na época das filmagens, um produto de startup praticamente desconhecido. A figurinista topou a ideia sob a condição de que ninguém realmente usaria aquilo dali a poucos anos. A estreia foi em 2006. Hoje é difícil achar alguém que nunca tenha visto um par.
POR QUE A FOX ENTERROU A PRÓPRIA OBRA
Nenhum desses detalhes de bastidor chegou ao público na época porque a 20th Century Fox, distribuidora do longa, essencialmente não divulgou seu lançamento. Não houve cartaz nos primeiros meses nem pré-estreia para a crítica.
A Associated Press chegou a pedir uma foto de divulgação à assessoria da Fox mas foi informada de que, apesar de elas existirem, a agência não poderia recebê-las, segundo reportagem da Slate publicada em 2016.
Duas explicações concorrentes tentam justificar o sumiço. A primeira, mais repetida pelo próprio Judge, é que os testes de audiência foram ruins o suficiente para assustar o estúdio.
A segunda, defendida pelo ator Terry Crews em entrevistas posteriores, é que marcas reais satirizadas no roteiro, como Starbucks, Costco e Carl's Jr., cederam seus nomes esperando aparecer de forma positiva e reagiram mal ao ver o resultado final, levando a Fox a recuar por medo de represália publicitária.
O próprio Judge evitou cravar uma explicação definitiva e sugeriu uma terceira hipótese, mais pé no chão: a Fox teria observado que um trabalho anterior dele, "O Escritório" ("Office Space"), vendeu bem em home video mesmo sem sucesso nos cinemas e concluído que gastar com divulgação não fazia diferença se o público "ia encontrar aquilo de qualquer jeito".
Seja qual for o motivo real, o resultado foi uma estreia tão apagada que boa parte da força cultural que a obra tem hoje só nasceu anos depois, quando o DVD e a televisão a cabo a transformaram em item de culto.
Passadas duas décadas, é tentador dizer que "Idiocracia" previu o presente. Mas vale prestar atenção no que ficou de fora. Mike Judge imaginou eleitores hipnotizados por espetáculo, corporações controlando agências reguladoras e um idioma cada vez mais primitivo.
Não imaginou uma pandemia global. Não imaginou parte da população recusando vacina em plena crise sanitária, décadas depois de erradicar doenças que a ciência já havia resolvido. Não imaginou uma inteligência artificial fazendo tarefas inteiras no lugar dos humanos, dispensando até o esforço mínimo de pensar.
O roteiro de 2006 apostou em um futuro "mais burro" daqui a 500 anos. A realidade de 2026 encontrou formas de ser absurda que nem o exagero mais generoso tinha imaginação suficiente para prever. Se isso é motivo de alívio ou de alarme, cada um assiste e decide.
