50 anos: o maior legado da Apple pode ser a privacidade
Apple transforma privacidade em estratégia central e redefine o valor dos dados na era digital e da inteligência artificial

Quarta-feira, 1º de abril, marca os 50 anos desde a fundação da Apple.
Ao longo da semana, você certamente verá uma enxurrada de artigos analisando a influência da empresa, muitos deles tentando apontar qual produto da Apple teve o impacto mais decisivo na indústria de tecnologia e na sociedade como um todo. Opções não faltam: do Macintosh original ao iMac, passando pelo iPod e pelo iPhone.
Ainda assim, para mim, a contribuição mais importante da Apple nesses 50 anos não é um produto físico, é uma política: a de que a privacidade é um direito humano fundamental e, para protegê-la, os produtos precisam ser concebidos com a privacidade em mente.
Essa política é mais importante hoje do que nunca.
Quer você perceba ou não, você é o produto mais valioso vendido por muitas das maiores empresas do mundo. O Google pode até vender anúncios, mas eles só têm valor porque a empresa acumula enormes quantidades de dados sobre você, o que permite segmentá-los com muito mais precisão.
O mesmo vale para Meta, TikTok, Pinterest, Snap e tantas outras. Essas empresas oferecem serviços em troca da sua privacidade (às vezes de forma consciente, muitas vezes não) e depois monetizam seus dados para faturar bilhões.
Pelas primeiras duas décadas da internet pública, a maioria das empresas online coletava dados pessoais de forma invasiva como parte central de seu modelo de negócios.
Com o passar do tempo, a fome das empresas por dados só aumentou, à medida que a tecnologia se integrou cada vez mais ao nosso cotidiano, especialmente com a chegada dos smartphones, repletos de sensores e chips capazes de coletar ainda mais informações. Até que uma coisa mudou.

Cerca de 15 anos atrás, a Apple – então a maior empresa de tecnologia do mundo – começou a adotar a privacidade como pilar estratégico. Um dos primeiros grandes movimentos foi tornar o iMessage criptografado de ponta a ponta, garantindo que ninguém além de você e o destinatário pudesse ler as mensagens.
É difícil enfatizar o quanto essa mudança foi revolucionária. A criptografia de ponta a ponta já existia em soluções corporativas, mas usuários comuns nunca haviam tido acesso a esse nível de proteção, até a Apple intervir.
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Desde então, praticamente todos os anos, a empresa segue inovando nesse campo, implementando novas medidas para manter seus dados longe de terceiros.
Foi a primeira a bloquear rastreadores de terceiros (e até dos sites em si) em seu navegador, impedindo que anunciantes e publishers acompanhassem o comportamento dos usuários pela web. Também saiu na frente ao permitir que usuários bloqueassem o compartilhamento de localização com aplicativos.
PROTEGENDO A PRIVACIDADE (ATÉ DE SI MESMA)
Vale lembrar: a Apple não apenas criou mecanismos para impedir que outras empresas acessem seus dados, ela também limitou o próprio acesso.
O iPhone e o Apple Watch, por exemplo, armazenam uma grande quantidade de dados de saúde – da quantidade de calorias queimadas à qualidade do sono. Tudo isso é criptografado de ponta a ponta, o que significa que nem a própria Apple consegue acessar essas informações.

O mesmo vale para o Apple Pay. A plataforma de pagamentos foi desenhada de forma que a empresa nunca tenha acesso ao histórico de compras identificável dos usuários, mesmo que esses dados pudessem gerar bilhões em receita.
Conforme nossos dados migraram dos discos rígidos para a nuvem, a Apple se tornou a primeira grande empresa de tecnologia (e ainda hoje, a única) a permitir que usuários ativem a criptografia de ponta a ponta no armazenamento em nuvem por padrão, impedindo até mesmo a própria empresa de saber o que está guardado em seus servidores.
O FATOR HARDWARE
É claro que o modelo de negócios da Apple sempre foi diferente do de muitos concorrentes. A empresa ganha dinheiro com hardware de alta margem de lucro, não com anúncios ou serviços baseados em dados.
Os céticos diriam que isso explica sua postura: ao faturar centenas de bilhões por ano com dispositivos, a Apple pode se dar ao luxo de não explorar dados dos usuários. E, de fato, também se beneficia ao usar a privacidade como argumento de marketing para vender ainda mais produtos.
nunca foi tão importante sustentar a ideia de que a privacidade é um direito humano fundamental.
Já os fãs mais fervorosos defendem que a empresa age por convicção, ou seja, que seus executivos realmente acreditam que privacidade é um direito fundamental e que cabe à Apple protegê-la.
Para mim, o motivo pouco importa. O que importa é que a Apple defende a privacidade – e faz isso de forma clara e barulhenta.
Sendo uma das empresas mais bem-sucedidas (e agora mais longevas) do setor, tudo o que ela faz é observado de perto. Consumidores prestam atenção. Concorrentes também.
Esses concorrentes sabem que, se seus clientes convivem com usuários de produtos Apple que estão sempre destacando os recursos de privacidade, eles passarão a exigir o mesmo – ou vão simplesmente migrar para a concorrência.
COMO A APPLE PODE LIDERAR NA ERA DA IA
Há alguns anos, Craig Federighi, chefe de software da Apple, me disse que essa postura ajuda a impulsionar mudanças em toda a indústria.
“A história mostra que conseguimos mover o setor de formas realmente significativas”, afirmou em 2021. “Quando os clientes passam a entender o que podem e devem esperar, quando percebem que aquele ‘acordo’ que achavam inevitável na verdade não é, toda a indústria precisa reagir para entregar o que eles agora exigem.”

Hoje, 50 anos após sua fundação, e com tecnologias invasivas presentes em praticamente todos os aspectos da vida, nunca foi tão importante sustentar a ideia de que a privacidade é um direito humano fundamental.
Isso se torna ainda mais crítico na era da inteligência artificial, em que empresas estão ainda mais ávidas por dados do que as gigantes da publicidade digital do passado, ampliando os riscos à nossa privacidade.
O compromisso da Apple com a privacidade tem tudo para continuar sendo um diferencial na era da IA, além de um fator de melhoria para a sociedade.
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Se essa política de desenvolver produtos centrados na privacidade continuar influenciando não apenas os próprios sistemas de IA da Apple, mas também os de seus concorrentes, não tenho dúvidas de que a contribuição mais importante da empresa nos próximos 50 anos será a mesma dos primeiros.
E isso é algo de que todos nós nos beneficiaremos.