POR LENA CASTELLÓN

Entre fãs de filmes e séries, a pergunta corriqueira é “onde está passando?”, mas isso, lógico, não se refere tanto a um canal. Cada vez mais a questão se desloca para os serviços de streaming. E, mais recentemente, a dúvida passou a englobar realities, novelas e talent shows e já inclui, com uma participação recheada de altas expectativas, os eventos esportivos.

A guerra do streaming foi forte em 2021. Mas ainda há muito por vir neste ano. Os grandes players do setor – Netflix, Disney+ e Amazon Prime Video – investiram em estratégias diferentes para consolidar os hábitos e a audiência formados na pandemia. Quem chegou nesse mundo depois, como a Paramount+, que lançou sua plataforma em março passado, e mesmo quem desembarcou no Brasil em 2021, caso da HBO Max (nos EUA desde maio de 2020 e por aqui desde junho do ano passado), aumentou a disputa do segmento pela atenção e pelo bolso do público.

Fora a maior concorrência, em 2021 as plataformas tiveram de enfrentar a retomada das atividades externas, com as pessoas voltando a sair e, inclusive, retornando às salas de cinema. Além disso, os efeitos da pandemia sobre a produção, começaram a se fazer sentir no ano passado devido aos atrasos. Com isso, as estratégias para enfrentar esse cenário não foram iguais. Veja o que os principais serviços do setor no mundo colheram no ano passado e o que os aguarda nos próximos meses.

  1. HBO Max

No final de 2020, a Warner Media, dona da HBO Max, anunciou, de forma surpreendente, que disponibilizaria suas maiores apostas de bilheteria, como as superproduções “Duna” e “Godzilla vs. Kong”, na plataforma. Essa combinação de entretenimento em massa feito para o cinema (uma aposta que poderia dar errado já que depende de outro ator, o público) com programas criados para TV de alto nível e com boa repercussão, caso de “White Lotus”, “Succession” e “Mare of Easttown”, faz da HBO Max um streamer a ser batido. O serviço, junto com a HBO, conta com mais de 70 milhões de assinantes. Filmes mais exclusivos estão planejados para 2022. Embora a Warner Bros. retorne aos cinemas, ela está fazendo 10 filmes especificamente para seu braço de streaming. A mudança ocorre no momento em que a HBO Max se prepara para perder parte de seu conteúdo para outras empresas que desejam fortalecer suas próprias plataformas. Isso ao menos nos Estados Unidos. A Comcast anunciou que os filmes da Universal serão transferidos para o Peacock, serviço lançado em 2020 no mercado americano, cerca de quatro meses após a estreia nos cinemas. A HBO Max tinha um acordo de para ser a primeira janela de exibição dos títulos da Universal. Mesmo assim, a plataforma é uma dos mais fortes na corrida deste ano. No Brasil, entre os conteúdos mais vistos estão “Godzilla vs Kong”, as séries “Friends” e “Chernobyl”, o programa “Sandy+Chef” (produção nacional do selo Originals) e os jogos ao vivo da Champions League, da UEFA.

  1. Amazon Prime Video

Em abril passado, Jeff Bezos escreveu, em sua última carta aos acionistas como CEO da Amazon, que o Prime, que inclui o serviço de streaming de vídeo, ultrapassou 200 milhões de assinantes. Isso ressaltou a transição da Amazon de uma plataforma com programação de prestígio (com títulos como “Manchester by the Sea”) para um serviço que expandiu seu foco para filmes grandiosos. O longa de ação “A Guerra do Amanhã”, com Chris Pratt, custou para a Amazon US$ 200 milhões, que o adquiriu do estúdio Paramount. Fala-se que ele acumulou 1,1 milhão de minutos de exibição em seu lançamento nos EUA no ano passado, feito no final de semana de 4 de julho. Entre as séries, a Amazon se superou com a adaptação dos romances de fantasia de Robert Jordan, “A Roda do Tempo”. Jennifer Salke, diretora do Amazon Studios, disse que foi a estreia de série mais assistida do ano e uma das cinco mais vistas na história da companhia. A produção baseada na mitologia criada por J.R.R. Tolkien, autor da saga “O Senhor dos Anéis”, deverá estrear no segundo semestre de 2022 (o lançamento foi adiado porque a série foi uma das obras audiovisuais atrasadas pela pandemia). Neste ano vão entrar na prateleira também novos capítulos dos títulos originais “The Marvelous Mrs. Maisel” (quarta temporada em fevereiro) e “The Boys” (terceira temporada prevista para o segundo semestre). A Amazon investe muito menos do que a Netflix em conteúdo – US$ 11 bilhões em 2020, contra US$ 17 bilhões da Netflix –, mas com a aquisição do icônico estúdio MGM por US$ 8,5 bilhões (ainda pendente de aprovação das autoridades regulatórias), em maio passado, a empresa terá acesso a uma biblioteca que ostenta séries como “O Conto da Aia” e uma das franquias mais populares do mundo, com a qual a Netflix sonharia contar: 007. No Brasil, a Amazon Prime Video sacudiu o mercado no ano passado ao contratar duas estrelas que eram da Globo para atuarem como showrunners, Ingrid Guimarães e Lázaro Ramos.

  1. Netflix

Depois de um início de ano sem muito brilho – ressaca após a festa que foi 2020, quando a Netflix viu seu número de assinantes disparar –, a gigante do streaming terminou o ano com um estrondo sob o nome de “Round 6” (aqui. Fora, o título sul-coreano ficou como “Squid Game”). O drama distópico, que estimulou de memes no TikTok a fantasias de Halloween, se tornou o maior show da história da Netflix, provando como sua estratégia de investir em conteúdo de outros países, em idioma local, está valendo a pena. Atrações como “Round 6”, “La Casa de Papel” (Espanha) e “Sex Education” (Reino Unido) foram os programas mais assistidos na plataforma em setembro. “Round 6” não só empurrou a Netflix de volta para a conversa cultural, mas deu à empresa uma grande franquia (além de “Stranger Things”) para inserir em suas estratégias de receita, que incluem as aposta em games e merchandising. São caminhos que a Netflix está perseguindo em sua disputa com a Disney. Projeções apontam que a empresa tenha fechado 2021 com cerca de 214 milhões de assinantes (em outubro, o relatório financeiro apontava 209 milhões). No Brasil, um dos mercados mais importantes da indústria de streaming, a Netflix anunciou em novembro que irá investir em 40 “novas ideias” para desenvolver neste ano. Para isso, ela preparou um evento chamado “Mais Brasil na tela”, em que comunicou seus projetos e celebrou cinco anos de produções locais. Entre as novidades estão a animação “O Menino Maluquinho” e a primeira ficção científica brasileira da plataforma, “Biônicos”, ambos com estreia neste ano. Vale ressaltar que em relação a eventos o escritório daqui exportou um projeto para a Netflix global, o festival Tudum. Nascido para aproximar o público das produções – tanto as mundiais quanto as locais –, no ano passado o formato foi compartilhado com o mundo inteiro, com estrelas como Henry Cavill (protagonista da série “The Witcher”), Idris Elba (do western “Vingança & Castigo”) e Charlize Teron (de “The Old Guard”).

  1. Apple TV +

Em 2021, a estratégia da Apple para a produção de conteúdo, com passos mais lentos, começou a dar frutos. A segunda temporada de “Ted Lasso” fez da série um dos programas mais populares do ano. Foram sete prêmios Emmy, incluindo melhor série de comédia. Outros títulos como “The Morning Show”, “For All Mankind” (ligado à Nasa) e “Fundação”, série que faz adaptação da obra de Isaac Asimov, geraram buzz. A companhia busca ampliar sua base de assinantes – seriam 20 milhões de usuários pagantes e outros 20 milhões que obtêm o serviço por meio de testes gratuitos. Com relatos de que ela aumentará drasticamente sua produção em 2022 para pelo menos um novo programa de TV ou filme por semana (o dobro do ritmo de lançamento de 2021), esse número está prestes a disparar. Enquanto isso, a Apple TV+ faz apostas comerciais como o filme de Tom Hanks, “Finch” ou investe em áreas mais nichadas, como o documentário “The Velvet Underground”, de Todd Haynes. Com mais poder de fogo neste ano, a plataforma pode muito bem se tornar uma ameaça real para os mega streamers, especialmente se mergulhar no cofre de trilhões de dólares da empresa.

  1. Disney+

Após um início meteórico em novembro de 2019, o crescimento do Disney+ parou no final de 2021, em parte devido aos atrasos de produção relacionados à pandemia que diminuíram sua capacidade de lançar conteúdo. Mas há um problema existencial mais urgente para enfrentar: como uma plataforma tão focada em um gênero, o entretenimento familiar, sobrevive em uma paisagem na qual Netflix, Amazon e demais estão oferecendo virtualmente tudo para seus assinantes? Dito de outra forma, as novas temporadas de “The Mandalorian” e “WandaVision”, além de uma biblioteca de títulos infantis antigos (embora amados), são suficientes para o Disney+ estar no topo? A plataforma acumulou impressionantes 118 milhões de assinantes em um período muito curto de tempo, mas para que isso dobre, diminuindo a distância para a Netflix, que tem dez anos de existência, é preciso ter mais opções de conteúdo para o público. Se depender das contas do banco Morgan Stanley, a Disney irá atacar nessa frente com substância. Segundo seus cálculos, o conglomerado deverá aumentar seu investimento em conteúdo entre 35% e 40% em 2022. O aporte para novas produções deverá chegar a US$ 23 bilhões. Se forem incluídos direitos esportivos, o montante sobe para US$ 33 bilhões. Seria bom também definir melhor a estratégia de lançamento de seus filmes. O ano passado revelou certa confusão por parte da empresa. Enquanto “Luca”, da Pixar, foi disponibilizado exclusivamente no serviço (deixando o estúdio de animação possivelmente irritado), “Viúva Negra”, da Marvel, e “Cruella” tiveram lançamentos simultâneos nas salas de cinema e na plataforma, mas para os assinantes que estivessem dispostos a pagar US$ 30 a mais. Ter “Viúva Negra” liberado concomitantemente no streaming irritou Scarlett Johanson, a protagonista, que processou a Disney por causa de supostas perdas financeiras, já que seus ganhos estavam atrelados à bilheteria obtida no cinema. Em meio aos burburinhos que se ergueram na indústria a respeito do futuro do entretenimento, a atriz e a corporação acabaram fazendo um acordo. No final do ano, a Disney voltou à distribuição primeiro para o cinema com “Shang-Chi e a Lenda dos Dez anéis” e “Eternos”, outros títulos da Marvel, e “Encanto”, da Disney Animation. Eles apareceram na plataforma meses depois de chegarem às telonas. Para uma empresa que é tão firme sobre o tipo de conteúdo que está oferecendo aos usuários, as decisões sobre a distribuição soam um tanto irregulares.

  1. Hulu

Historicamente, o Hulu tem estado na mira de vários interesses corporativos, tornando-se um enigma. Mesmo com a Disney como sua proprietária majoritária (desde maio de 2019), essa percepção não mudou. Com a maior parte do poder de fogo da corporação indo para o Disney+, o Hulu, que não está disponível no Brasil, ainda precisa apresentar um canal robusto e original para substituir favoritos antigos como “O Conto da Aia” (série que pode ser vista no país nos serviços de streaming Paramount+ e Globoplay). O orçamento de conteúdo do Hulu em 2020 foi de US$ 3 bilhões. Em 2022, ele pode começar a perder conteúdo da NBCU, que pode redirecionar programas para sua própria plataforma, o Peacock, igualmente não disponível por aqui. Há outros entraves no caminho. A série “Impeachment: American Crime Story”, do canal FX, estava disponível apenas para assinantes do Hulu Live. Embora o FX seja propriedade da Disney, “Impeachment” será encaminhado para a Netflix em 2022, devido a um antigo acordo. O número de assinantes do Hulu aumentou para 43 milhões contra os 35 milhões de 2020. A Disney disse que a plataforma agora é lucrativa.

  1. Peacock

Em 2021, o Peacock finalmente conseguiu o evento ao vivo em que apostava desde seu lançamento, em abril de 2020: as Olimpíadas de Tóquio, atrasadas pela pandemia. Como esperado, os Jogos deram um solavanco e, em julho, a plataforma tinha 54 milhões de inscrições e mais de 20 milhões de usuários ativos mensais. Mas a questão se transformou em “e agora?” assim que a temporada olímpica acabou. Sem uma coleção de séries originais que provocam barulho, até o final do ano o ritmo das assinaturas ficou para trás. Sem ter um estilo como o da Netflix, a plataforma foi posicionada pela Comcast, dona da NBCU, como o lugar para assistir o melhor da TV aberta. É o lar de “The Office” (que no Brasil pode ser vista no Amazon Prime Video e na HBO Max), “Parks and Recreation” (no serviço da Amazon para os fãs brasileiros) e “Modern Family” (que compartilha com o Hulu e que, no Brasil, pode ser visto no Star+, como outras produções do Hulu). Incluídos estão alguns originais, como “Dr. Death”, série que caiu no gosto do público americano (a produção pode ser vista no país pelo Starzplay). Mas sem uma oferta premium sólida, não está claro como o Peacock se destacará na guerra do streaming, especialmente quando se trata de conquistar clientes com salários mais altos, que querem mais do que o plano gratuito da plataforma, que inclui publicidade. Uma resposta pode ser os filmes da Universal, incluindo “Jurassic World: Dominion”, que reunirá o trio de atores do primeiro longa da franquia (Sam Neil, Laura Dern e Jeff Goldblum), e “Minions 2: A Origem de Gru”, que a plataforma começará a transmitir 45 dias depois de chegar aos cinemas em 2022.

  1. Globoplay

Novela faria sucesso no streaming? “Verdades Secretas 2” prova que sim. A produção, que também pode ser classificada por uns como série, estreou em outubro passado e até o dia 26 de dezembro alcançou 50 milhões de horas de exibição no Globoplay. Com isso, em menos de 70 dias de disponibilidade, tornou-se o terceiro conteúdo mais consumido na história da plataforma da Globo, lançada em 2015. Perde apenas para “The Good Doctor” (disponível há três anos) e “The Big Bang Theory” (no menu há quase três anos). O Globoplay explicou que novelas no streaming terão formato diferente das exibidas na TV aberta. Nada de tramas longas. No caso, foram 50 capítulos – e com dois finais diferentes. “Verdades Secretas 2” é conteúdo original da plataforma, que foi desenvolvida pelos Estúdios Globo. Outro produto da casa que vai bem é a série “Onde Está Meu Coração”. A empresa não divulga sua base de assinantes, mas um dos relatórios financeiros da companhia mostrou que o número de usuários cresceu 42% no primeiro semestre em relação ao segundo semestre de 2020. E uma das razões desse movimento foi o BBB21, edição que foi um fenômeno midiático, gerando expectativas para o BBB22, que estreia em 17 de janeiro. O Globoplay ambiciona ser o streaming número 1 do Brasil em dez anos. Em 2022, tem planos de estrear 40 produções originais.

(Esta matéria foi adaptada a partir da reportagem da Fast Company assinada por Nicole Laporte, que pode ser conferida aqui.)

Lena Castellón é jornalista, corredora, escreve sobre marketing, vida digital, esportes e saúde, e é viajante (antes da Covid-19; agora espera a pandemia passar).