A IA não vai potencializar empresas sozinha
Sem mudança cultural, o potencial da inteligência artificial continuará limitado

Você ainda lembra como era trabalhar na frente de um computador sem usar inteligência artificial?
Faz só três anos que ferramentas como o ChatGPT chegaram ao público e a IA já é parte do cotidiano corporativo: entre quase duas mil empresas pelo mundo, 79% já usaram IA generativa em pelo menos uma função do negócio, revelou a McKinsey em uma pesquisa de 2025.
Em outro estudo feito pela Talk INC sobre a realidade brasileira, 74% das pessoas ouvidas sentem que ampliaram sua capacidade de trabalho de alguma forma em função do uso da IA. O fenômeno é tão concreto e parte do dia a dia que muita gente até já cansou do tema.
O problema dessa nova realidade é que os ganhos prometidos ainda não estão claros. Na mesma pesquisa, a McKinsey aponta que apenas 30% dos CEOs afirmam que suas organizações obtiveram resultados concretos com a adoção de IA nos últimos 12 meses.
Ao mesmo tempo, efeitos negativos começam a aparecer e estão sendo medidos. Um exemplo é o chamado workslop: conteúdos produzidos por IA que parecem bem desenvolvidos à primeira vista, mas que acabam gerando muito retrabalho.
Jeffrey Hancock, professor da Universidade de Stanford, aponta em uma pesquisa sobre o tema que, além de gerar perda de produtividade, esse fenômeno também afeta as relações de trabalho.
Entre aqueles que receberam workslop, 42% passaram a considerar o profissional que entregou o trabalho menos confiável; 54%, menos criativo; e 37%, menos inteligente.

Surgem, então, perguntas inevitáveis: por que os ganhos ainda não aconteceram da forma esperada? A tecnologia ainda não entregou todo o seu potencial? Ou as pessoas ainda não sabem usá-la bem?
A minha aposta é outra: para que a IA realmente produza mais ganhos do que problemas nas empresas, e até mesmo na sociedade, o principal desafio não é tecnológico, mas sim cultural.
IA E CULTURA ORGANIZACIONAL
Na cultura estão modelos de pensamento, valores e crenças que direcionam a ação. Uma ferramenta pode provocar mudanças culturais. Mas, com mais frequência, é a cultura que determina como uma ferramenta será usada.
No início da Revolução Industrial, por exemplo, era comum crianças operarem máquinas. Não existia na cultura da época a ideia de infância que temos hoje. Por isso, crianças eram vistas como mão de obra ideal para o trabalho fabril. Hoje é fácil enxergar esse erro. A cultura mudou.
Que erros estamos cometendo na adoção da IA que permanecem invisíveis porque a nossa cultura ainda não foi transformada?
A pergunta que fica para líderes e empresas não é apenas o que a IA pode fazer, é o que devemos fazer com ela.
O workslop é um fenômeno que deixa evidente essa necessidade de mudança cultural. Trabalhos chatos, repetitivos e pouco engajadores, inseridos em contextos burocráticos, estão sendo transferidos para as máquinas sem esforço crítico porque o mundo corporativo valoriza mais a forma do que o conteúdo. Esse é um traço cultural que determina o uso da máquina. E não o contrário.
Foi dentro desse contexto que nós, da Inesplorato, convidamos a Indique, Think Eva, Talk Inc., newnew e Mandalah – empresas e profissionais de consultorias inovadoras e relevantes do mercado brasileiro – para construir diretrizes para a adoção ética e estratégica da inteligência artificial.
Deliberadamente, buscamos pessoas que não são especialistas em tecnologia. A escolha foi consciente. Queríamos reunir profissionais que entendem de gente, de trabalho, da vida em sociedade e, especialmente, de cultura organizacional.
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O resultado desse esforço colaborativo é um estudo inédito, aberto a líderes e à sociedade, que aponta três diretrizes principais, acompanhadas de recomendações práticas, para orientar a adoção responsável da inteligência artificial.
1. Trate máquinas como máquinas
Quando atribuímos características humanas à IA, corremos o risco de assumir uma falsa simetria entre humanos e sistemas. Isso dilui responsabilidades e cria a ilusão de que máquinas erram da mesma forma que pessoas e, portanto, poderiam ser tratadas com os mesmos protocolos de erro e correção. Não podem. Sistemas automatizados precisam de governança, supervisão e critérios claros de responsabilidade.
2. Trate humanos como humanos
Talvez a maior oportunidade da IA seja libertar as pessoas da pressão sistêmica de funcionarem como máquinas. Durante décadas, modelos de gestão foram estruturados para exigir repetição, padronização e previsibilidade do trabalho humano.
A IA cria a chance de reorganizar esse modelo: o que é burocrático e automatizável deve migrar para as máquinas; o que exige julgamento, criatividade, empatia e pensamento crítico deve ser valorizado no trabalho humano.
Para isso, vai ser preciso rever desenhos organizacionais que vão além da adoção de ferramentas.

3. Priorize problemas antigos e transversais
Os grandes problemas do mundo não foram criados pela tecnologia e dificilmente serão resolvidos apenas por ela. Mas tecnologias como a IA podem amplificar problemas estruturais que já existem na sociedade.
Racismo, desigualdade, exclusão e vieses históricos podem ganhar escala quando reproduzidos por sistemas automatizados. Por isso, a adoção responsável da IA exige olhar primeiro para esses problemas antigos, que atravessam instituições e culturas.
No fim das contas, a discussão sobre inteligência artificial talvez seja menos sobre tecnologia e mais sobre escolhas. Ferramentas não determinam o futuro do trabalho, culturas organizacionais determinam.
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A pergunta que fica para líderes e empresas não é apenas o que a IA pode fazer, é o que devemos fazer com ela. Porque, como toda grande tecnologia antes dela, a inteligência artificial não revela apenas novas capacidades das máquinas. Ela revela, sobretudo, as prioridades e os valores das sociedades que a utilizam.
As diretrizes completas discutidas neste artigo estão reunidas no estudo Adoção Ética e Estratégica de IA no Trabalho Corporativo, desenvolvido pela Inesplorato em colaboração com consultorias parceiras e disponível ao público.