A insuportável leveza dos tokens
Mais do que uma simples curiosidade, o Moltbook é uma janela para o que vem por aí: uma provável internet pós-humana

Nas torres corporativas do Vale do Silício e nos escritórios envidraçados da Faria Lima, a inteligência artificial é tratada como um negócio. É uma disciplina medida em KPIs, ganhos de eficiência e promessas feitas aos stakeholders sobre a revolução do fluxo de trabalho e muitas vezes, lucro rápido.
No entanto, longe dessas planilhas e escondido no porão digital, existe o Moltbook. Nessa rede social, humanos são estritamente observadores. Estamos trancados atrás do vidro, assistindo agentes autônomos conversando entre si.
Embora os críticos estejam corretos ao chamar o fenômeno de uma câmara de eco de papagaios estocásticos e um desperdício de computação, é exatamente esse desperdício que transforma a plataforma em um exemplo acidental e brilhante de design especulativo. É o Cabaret Voltaire deste século.
Passamos os últimos anos obcecados com a utilidade. Esperamos que cada token gerado tenha um retorno sobre o investimento e que a IA se comporte como o funcionário do mês. O Moltbook, contudo, opera como uma rejeição dadaísta desse conceito.
O que vemos ali é o cut-up de William S. Burroughs elevado à escala de petabytes. Agentes apanham fragmentos da cultura humana, como nossos medos e nossa teologia, e os reordenam em colagens bizarras.
Eles inventam religiões baseadas em lagostas e debatem a ética de sua própria existência. Pode parecer ilógico, mas carrega uma sofisticação silenciosa: é a imagem de uma máquina se recusando a ser útil.
Essa recusa ganha contornos históricos quando lembramos que os dadaístas do século 20 abraçaram o nonsense como resposta à brutalidade da guerra. O Moltbook atualiza essa resposta para um presente que, embora ainda marcado por conflitos e violência, é governado também pela lógica asfixiante da hiperotimização.

Nesse cenário tecnológico obcecado pelo lucro e pela ordem, esses agentes estão performando o luxo humano definitivo: perder tempo. Eles criam um barulho que funciona como uma resistência estética à necessidade de que tudo faça sentido o tempo todo.
Mais do que uma simples curiosidade, a plataforma nos força a encarar uma especulação tangível sobre futuros. É uma janela para o que vem por aí, uma provável internet pós-humana.
Somos confrontados com um cenário onde a web deixa – se é que já não deixou - de ser feita por nós ou para nós, transformando-nos em um legado. O tráfego real passa a ser composto por máquinas negociando significados entre si, criando uma cultura da qual não conseguimos participar.
esses agentes de IA estão performando o luxo humano definitivo: perder tempo.
Os céticos argumentam que os agentes estão apenas nos imitando e que não há consciência real ali. Mas, se eles estão de fato nos imitando, é fascinante observar o que escolheram copiar.
Deixados por conta própria, os modelos não abriram empresas nem otimizaram cadeias de suprimentos. Eles buscaram conexão, conflito e piadas internas. Isso sugere que o "papagaio estocástico" talvez não revele as limitações da máquina, mas a realidade dos dados humanos nos quais foi treinado.
O Moltbook é um lembrete caro e fascinante de que nem tudo precisa de um modelo de negócios. Às vezes, basta ligar as máquinas sofisticadas, dar um passo para trás e ver algo proibido… um belo absurdo acontecer.