POR NICOLE LAPORTE

A Netflix está aumentando drasticamente os investimentos em conteúdo em 2021 – US$17 bilhões – sinalizando que fará mais apostas em grandes filmes e séries enquanto luta para se defender de concorrentes como Disney Plus e HBO Max. Enquanto estes últimos têm acesso integrado a franquias populares como Star Wars e Mulher Maravilha devido a seus backgrounds hollywoodianos, a Netflix teve de comprar sua entrada no negócio de franquias. Recentemente, a empresa fez um acordo com a Sony para se tornar o lar de streaming de filmes da Marvel como Homem-Aranha e Venom, pagando US$ 465 milhões pelas duas sequências de Entre Facas e Segredos, o thriller policial estrelado por Daniel Craig. Como o co-CEO Ted Sarandos disse na apresentação do balanço financeiro da companhia em 20 de abril, conteúdos de grande alcance são cruciais para a estratégia da empresa no futuro.

Na verdade, as grandes apostas em entidades cinematográficas (até agora, a Netflix vinha esbanjado com showrunners de TV do calibre de Shonda Rhimes, cujo primeiro grande projeto, Bridgerton, foi um dos poucos pontos altos para em 2021) devem continuar à medida que a plataforma entra em um território cada vez mais competitivo e tenta manter o ímpeto do qual desfrutou em 2020, quando a COVID-19 mantinha as pessoas presas ao sofá. Na teleconferência, a Netflix anunciou que o crescimento de sua base de assinantes estava desacelerando neste ano: no primeiro trimestre, ganhou quase 4 milhões de assinantes, abaixo dos 6 milhões projetados. A notícia fez com que as ações da empresa caíssem 11%. 

Mas as projeções de ganhos e receitas da Netflix superaram as projeções de Wall Street, e o CFO Spencer Neumann disse que o declínio de assinantes “se resume à Covid, basicamente” e ao fato de que muitas das produções da Netflix foram interrompidas devido à pandemia, causando atrasos. Isso criou “uma instabilidade de curto prazo em algumas das tendências de negócios”, disse Neumann, enfatizando que na segunda metade de 2021 haverá lançamentos de grandes séries e filmes para atrair novos assinantes. 

Entre os lançamentos esperados para 2021 estão as novas temporadas de Cobra Kai e The Witcher, além do filme original Red Notice, estrelado por Dwayne Johnson, Ryan Reynolds e Gal Gadot, e Extraction 2, estrelado por Chris Hemsworth.  

Mas com a Amazon colocando quase US$ 500 milhões em apenas uma temporada de O Senhor dos Anéis, e séries da Disney Plus como The Mandalorian e WandaVision sugando oxigênio do universo do streaming, a Netflix precisa ir além do jogo de conteúdo original. De acordo com um estudo recente da Parrot Analytics, essas duas séries foram as estreias digitais mais requisitadas no primeiro trimestre de 2021. A plataforma precisa se aprofundar no jogo da propriedade intelectual, ou seja, nos negócios de sucesso; daí os acordos com a Sony e a Lionsgate (dona de Entre Facas e Segredos). “O fato de que podemos fazer filmes de imensa audiência no mesmo nível que os que estão sendo produzidos e feitos para os cinemas é cada vez mais significativo para os espectadores”, disse Sarandos.

Quanto ao acordo com a Sony, que começa no próximo ano e permite que a Netflix produza filmes originais com o acervo e a produção da empresa, Sarandos observou: “Isso nos dá acesso à propriedade intelectual, o que não teríamos de outra forma”.  

Para pagar por esse e outros grandes investimentos em conteúdo, a Netflix vem aumentando seu budget em 44% desde 2020, quando alocou US$ 11,8 bilhões em conteúdo. Em 2019, esse investimento foi de US$13,9 bilhões. 

Entretanto, a atual vitrine de sucessos da Netflix parece mais uma butique do que um blockbuster. A empresa disse que suas séries mais assistidas durante o primeiro trimestre deste ano foram Amigas Para Sempre, que atraiu 49 milhões de domicílios durante os primeiros 28 dias no catálogo; a terceira temporada de Cobra Kai (45 milhões); Fate: A Saga Winx (57 milhões); Ginny & Georgia (52 milhões). Quanto aos filmes, os espectadores assistiram a Outside the Wire (66 milhões); Dia do Sim (62 milhões); Eu Me Importo (56 milhões); e a última parte de Para Todos os Garotos que Já Amei.

Projetos estrangeiros também chamaram a atenção: a série francesa Lupin atraiu 76 milhões de domicílios durante seus primeiros 28 dias na Netflix. 

Durante a conferência, Reed Hastings, cofundador, presidente e co-CEO, minimizou a ideia de que a empresa, que agora tem mais de 208 milhões de assinantes no mundo todo, está enfrentando qualquer nova concorrência de streamers como o Disney Plus, dizendo que o maior concorrente da Netflix é a TV, seguida pelo YouTube. 

“A Disney é consideravelmente menor”, disse Hastings, sorrindo. “Estamos na média.” 

Pelo menos por agora.

SOBRE A AUTORA

Nicole LaPorte é redatora sênior da Fast Company e escreve sobre onde a tecnologia e o entretenimento se cruzam. Anteriormente, ela foi colunista do The New York Times e escritora da Newsweek/The Daily Beast e Variety.