A Starlink, de Musk, está perdendo a guerra das redes de satélites em órbita?

No momento a Starlink está em vantagem, mas outras empresas disputam a oportunidade de dominar o futuro da internet

ferramenta de geolocalização por satélite no celular
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Jesus Diaz 9 minutos de leitura

A corrida espacial mais feroz da atualidade não é para voltar à Lua – é para permitir que você publique um post no TikTok ou assista à Netflix no celular em qualquer lugar do planeta.

Para que isso aconteça, duas filosofias de design completamente diferentes estão em confronto, à medida que empresas constroem a infraestrutura necessária para garantir que todo smartphone do mundo esteja permanentemente conectado à internet.

De um lado está a SpaceX/ Starlink, de Elon Musk, e empresas similares que surgiram no rastro do Starlink. A abordagem delas é invadir o espaço com dezenas de milhares de pequenos satélites, criando uma rede de objetos que cobre a órbita baixa da Terra.

Do outro lado está uma pequena empresa sediada no Texas chamada AST SpaceMobile, que acredita ser possível oferecer um serviço melhor com menos de 100 satélites gigantes no espaço.

Ambas as empresas – junto com a Amazon e algumas organizações chinesas – querem dominar as comunicações sem fio em escala global.

A rede de satélites que oferecer o serviço mais rápido, a maior cobertura, a melhor compatibilidade com celulares 5G e os menores custos operacionais vai definir como nos comunicaremos pelos próximos anos.

Qual abordagem vai prevalecer terá um impacto profundo não apenas no futuro da internet, mas também na saúde do nosso planeta.

UMA NOVA ERA DA CORRIDA ESPACIAL

A SpaceX, dona da Starlink, lançou seu primeiro satélite em 2019, oferecendo acesso à internet banda larga a qualquer pessoa com uma grande antena Starlink e um modem em solo. Desde então, a empresa já colocou mais de nove mil satélites em órbita. A projeção é chegar a uma rede de 34 mil satélites.

Após o lançamento inicial da Starlink, concorrentes seguiram o mesmo caminho, incluindo Jeff Bezos, com o Projeto Kuiper – agora chamado Amazon Leo –, e a China, cujos planos incluem duas grandes redes de satélites.

representação, no céu noturno, da trajetória dos satélites em  órbita
Crédito: Alan Dyer/ VWPics/ Universal Images Group/ Getty Images

Mas há um problema fundamental nesse modelo de mega rede: o plano de Musk para a internet espacial é um jogo com falhas, desperdício e perigoso como uma "roleta russa orbital".

Cientistas temem que a rede projetada de 34 mil satélites da Starlink cause danos irreparáveis à atmosfera. Uma grande rede também aumenta drasticamente a probabilidade de colisões no espaço, o que poderia iniciar uma reação em cadeia catastrófica, destruindo redes orbitais que são cruciais para a sobrevivência da nossa espécie.

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Jonathan McDowell, astrofísico e historiador de voos espaciais no Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, acredita que podem existir formas melhores de alcançar cobertura global via satélites – se é que isso realmente precisa ser feito.

“Tenho preferência por um número menor de satélites maiores. Um dos motivos é o risco de colisões no espaço. Se você tem 10 vezes mais satélites, tem 100 vezes mais quase colisões. Só por esse ponto de vista, consolidar em um número menor de satélites parece mais sensato”, afirma.

REDE DE SATÉLITES MAIS EFICIENTE

É aí que entra o maior concorrente de Musk. A AST SpaceMobile desenvolveu uma tecnologia de conexão direta com celulares que utiliza grandes satélites chamados BlueBird. Essas máquinas usam milhares de antenas para fornecer banda larga diretamente a celulares comuns, explica o presidente da empresa, Scott Wisniewski.

“Essa abordagem é bem eficiente: conseguimos alcançar cobertura global com aproximadamente 90 satélites, e não milhares ou dezenas de milhares, como exigem outros sistemas”, diz Wisniewski. McDowell concorda que a abordagem da AST SpaceMobile é mais eficiente e gera menos desperdício.

O segredo está no tamanho e na sofisticação dos satélites. A primeira geração comercial da AST, o BlueBird 1-5, se desdobra no espaço em uma enorme estrutura de 64 metros quadrados. Atualmente, a empresa tem cinco satélites BlueBird 1-5 operacionais em órbita, mas suas ambições são muito maiores.

Satélites BlueBird, da AST Space Mobile
Satélites BlueBird, da AST SpaceMobile (Crédito: Divulgação)

Em 24 de dezembro de 2025, a AST lançou da Índia o primeiro satélite de sua próxima geração, chamada Block 2 – e ele quebrou recordes. O BlueBird 6 tem quase 223 metros quadrados de superfície, tornando-se o maior satélite individual em órbita baixa da Terra. A empresa planeja lançar até 60 unidades adicionais até o fim de 2026.

“Essa grande área de superfície é essencial para captar sinais fracos vindos de celulares padrão, sem modificações, em solo”, explica Wisniewski. Na prática, trata-se de uma única torre de celular extremamente poderosa e sensível no céu, capaz de atender uma área geográfica enorme.

Essa filosofia de design equaciona as duas maiores ameaças do modelo de mega rede. Primeiro, com apenas cerca de 90 satélites Block 2 necessários para cobertura global, o volume total de material lançado e depois retirado de órbita é ordens de magnitude menor do que as dezenas de milhares planejadas pela Starlink e outros sistemas.

Desde 2019, a Starlink já colocou mais de 9 mil satélites em órbita.

Com uma vida útil de sete a 10 anos, os satélites da AST SpaceMobile foram projetados para durar mais do que os da Starlink, que têm vida útil de cerca de cinco anos. Essa combinação de fatores reduz drasticamente o potencial de poluição atmosférica.

Além disso, um número menor de satélites reduz consideravelmente o risco de colisões. “Menos satélites em órbita diminuem a probabilidade de colisões e de geração de detritos espaciais, promovendo um ambiente orbital mais sustentável”, diz Wisniewski.

É uma solução baseada em engenharia de precisão, e não em força bruta numérica – uma forma diferente de pensar o problema. Como resume McDowell, do ponto de vista do tráfego espacial, “menos satélites, maiores, provavelmente é melhor”. Trata-se de uma escolha de design que prioriza sustentabilidade e mitigação de riscos.

MAIS SATÉLITES, MAIS POLUIÇÃO

A ideia central por trás do serviço direto para celular da Starlink é a força bruta. É o equivalente digital de um bombardeio de saturação: inundar a órbita baixa da Terra com dezenas de milhares de satélites relativamente pequenos, baratos e descartáveis.

Cada um deles funciona como uma minúscula torre de celular no céu, se comunicando com o telefone no seu bolso. Como estão em órbita baixa, a latência é mínima e o sinal é forte o suficiente para um celular comum. É um conceito simples, mas sua aparente elegância engana. Na prática, ele tem a elegância de uma marreta.

O modelo da Starlink depende de um ciclo constante de substituição. Os satélites são programados para retornar à Terra após cerca de cinco anos, queimando na reentrada. É aí que surge o primeiro grande problema.

Comparação de diferentes modelos de satélite da Starlink
Comparação de diferentes modelos de satélite da Starlink (Crédito: SpaceX)

“Quando queimam, eles não desaparecem, simplesmente”, explica McDowell. “Eles se transformam em poeira, poeira de alumina, partículas de óxido de alumínio. Essas partículas são muito eficazes em destruir o ozônio.”

O efeito de longo prazo de despejar toneladas desse material na alta atmosfera todos os dias é desconhecido – e assustador. Estamos, na prática, conduzindo um experimento sem qualquer controle sobre as camadas protetoras do nosso próprio planeta.

McDowell observa que, enquanto um único lançamento de foguete causa danos temporários e localizados ao ozônio, a reentrada contínua de milhares de satélites cria um problema persistente e global, que nunca foi estudado nessa escala.

Cientistas temem que a rede projetada de 34 mil satélites da Starlink cause danos irreparáveis à atmosfera.

O problema se agrava pelo fato de que agora todos estão copiando o modelo da SpaceX. O Projeto Leo, da Amazon, planeja lançar mais de 3,2 mil satélites. Pequim e algumas empresas chinesas planejam duas mega redes de satélites separadas, Guowang e G60 Starlink, totalizando quase 26 mil unidades.

Para sermos justos, a abordagem da AST SpaceMobile também não está livre de controvérsias. O tamanho de seus satélites os torna extremamente brilhantes no céu noturno, uma grande fonte de frustração para astrônomos que trabalham em terra.

“É um problema sério e estamos trabalhando com a comunidade astronômica para mitigar nosso impacto”, diz Wisniewski. A empresa está explorando soluções como revestimentos antirreflexo e ajustes operacionais para minimizar o tempo em que seus satélites atingem brilho máximo.

ROLETA RUSSA NO ESPAÇO

Além das preocupações ambientais, existe uma ameaça ainda mais imediata: a Síndrome de Kessler. Popularizada pelo filme "Gravidade," é um cenário que tira o sono de especialistas em espaço como McDowell.

A teoria, proposta em 1978 pelo cientista da NASA Donald Kessler, descreve um efeito dominó no qual a colisão entre dois objetos em órbita cria uma nuvem de detritos.

Cada fragmento se torna um projétil capaz de provocar novas colisões, gerando ainda mais detritos, até que a órbita baixa da Terra se transforme em um campo minado intransponível de estilhaços em altíssima velocidade.

Cena do filme "Gravidade"
Cena do filme "Gravidade" (Crédito: Warner Bros.)

A SpaceX desenvolveu um sistema altamente automatizado de prevenção de colisões para a Starlink. Seus satélites monitoram constantemente suas trajetórias e têm autonomia para acionar seus propulsores para desviar de possíveis impactos.

Mas, embora a SpaceX afirme que seus satélites são 100% seguros, os fatos mostram que eles não são infalíveis. “Mesmo com uma taxa de sucesso de 99% na desorbitagem, uma falha de 1% em uma rede de 30 mil satélites significa a possibilidade de queda de 300 deles a cada cinco anos”, calcula McDowell. “São 300 projéteis incontroláveis esperando para iniciar a Síndrome de Kessler.”

um número menor de satélites reduz bastante o risco de colisões.

Uma reação em cadeia catastrófica poderia, em questão de horas ou dias, destruir redes de satélites essenciais que sustentam a civilização moderna.

Não se trata apenas de você perder o GPS no caminho para um novo restaurante. Estamos falando do colapso das finanças globais, da previsão do tempo, das comunicações, de sistemas militares e de resposta a desastres.

Seria uma regressão tecnológica de décadas – um cenário que McDowell considera cada vez mais plausível à medida que mais mega redes são lançadas. É uma aposta de altíssimo risco com a infraestrutura essencial da civilização.

SERÁ QUE DEVEMOS MESMO FAZER ISSO?

Mas, e se estivermos olhando para essa corrida da forma errada? Musk, Bezos, Wisniewski, os europeus e os chineses argumentariam que precisamos de internet barata e onipresente em todo o mundo, para aplicações civis e militares.

Sem dúvida, há muito dinheiro em jogo e uma necessidade real de atender comunidades remotas sem investir em infraestrutura terrestre. Mas será que realmente precisamos fazer streaming de TikTok a partir do espaço?

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“Minha posição é que, mesmo que seja necessário, não deveria ser apenas os EUA a decidir isso. Essa decisão deveria ser tomada por todos os países do mundo, porque todos são afetados, sejam ou não potências espaciais”, diz McDowell.

Ele está certo. E, se todos decidirmos que realmente precisamos disso, também deveríamos concordar coletivamente sobre a melhor solução para minimizar o impacto sobre a humanidade.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais