Muito se fala sobre como os algoritmos podem fomentar ainda mais as bolhas, a polarização e os vieses inconscientes – esta matéria da Fast Company sobre o documentário Coded Bias fala justamente sobre isso. Então como a tecnologia pode ser utilizada para reverter falas e comportamentos preconceituosos?

Peça de divulgação do Teclado Antipreconceito, da Edições Globo Condé Nast em parceria com a Leo Burnett Tailor Made (Crédito: Divulgação)

A aposta da Edições Globo Condé Nast (EGCN), detentora das marcas Vogue, Glamour, GQ e Casa Vogue no Brasil, e da Leo Burnett Tailor Made é um aplicativo para Android que identifica palavras preconceituosas e sugere sinônimos cada vez que uma delas é digitada. Desenvolvida pela produtora Savoir, a ferramenta contou com a consultoria do linguista Thomas Finbow, doutor do Departamento de Linguística da USP, que mapeou mais de 300 palavras e expressões de cunho rascista, homofóbico, xenófobo e sexista no português, no espanhol e no inglês. Batizado de Teclado Antipreconceito, o app sugere substituições a termos como “judiar”, “denegrir” e “marica”.

O tempo de desenvolvimento da primeira versão de um app é de aproximadamente seis meses, porém o Teclado Antipreconceito levou um ano para ficar pronto. “Construir um aplicativo de teclado já é complexo naturalmente porque é um tipo de software crítico no uso diário do celular, se o teclado falhar ou mesmo ficar lento, todo o aparelho e seus outros apps serão indiretamente prejudicados. Há também uma dificuldade adicional em lidar com versões antigas do sistema operacional Android, o percentual de uso de cada uma das diferentes versões é muito fragmentado. Então projetar um software crítico e mantê-lo robusto, sem falhas em aparelhos muito diferentes entre si e ainda assim ter uma ótima performance foi um grande desafio”, afirma Manoel Augusto, CEO da Savoir.  A produtora desenvolveu, em 2018, o Corruption Detector para o Reclame Aqui (que rendeu à empresa e à agência Grey um Grand Prix em Mobile no Cannes Lions). Para Augusto, o grande desafio do projeto de dois anos atrás e do atual é aliar a inovação da tecnologia à curiosidade e ao impacto e, ao mesmo tempo, construir um sistema fácil de usar por todos, mesmo que por trás haja um software complexo. “É muito gratificante ver as pessoas na rua utilizando o app com facilidade sem perceber toda complexidade contida nas inúmeras linhas de código-fonte”, comenta.

No final de 2020, a HavasPlus, com consultoria de linguagem da Vírgula, criou o Teclado Consciente para a TIM, com o objetivo de ajudar a combater o uso de expressões rascistas. O projeto faz parte do programa de diversidade e inclusão da operadora, que pretende ampliar a representatividade em todas as áreas da empresa.

O preconceito também se estrutura nas palavras, está impregnado na nossa linguagem e se perpetua pelas nossas conversas. Acredito que a tecnologia pode nos tornar sim mais humanos. O app une a tecnologia ao que temos de mais humano, a habilidade de falar, dialogar, se expressar. É um exemplo de como a tecnologia usada de forma criativa pode ajudar a mudar o comportamento das pessoas, neste caso, incentivando a troca de palavras que são originárias em alguma forma de preconceito por outra que não seja ofensiva”, afirma Pedro Prado, vice-presidente de criação da Leo Burnett Tailor Made.

Para Finbow, o intuito do app é sensibilizar e conscientizar um número maior de pessoas sobre o significado de certas palavras e por que são consideradas preconceituosas. “Existe um discurso generalizado sobre aceitação, diversidade e inclusão, mas é preciso conhecer as origens da expressão, gerar algum tipo de reflexão. Nesse sentido, o alcance da tecnologia é muito importante para mudar essa percepção”, afirma. No entanto, ele ressalta que é preciso considerar que expressões preconceituosas têm diferentes pesos para cada cultura e cada grupo. Na língua portuguesa, o termo “crioulo” possui uma conotação bastante preconceituosa, mas nas culturas ibéricas e hispânicas, por exemplo, o termo é utilizado para identificar uma etnia. Existem também os casos nos quais uma palavra carregada de conotação pejorativa é ressignificada, como no caso de “queer”, que durante muitas décadas foi utilizada de maneira preconceituosa para se referir aos gays, mas hoje dá nome, inclusive, a disciplinas acadêmicas. “Às vezes, é possível subverter a carga preconceituosa, cortar essas raízes e transformar a palavra em um termo genérico”.

Mas, para que isso aconteça, é preciso olhar para todas as conotações e associações possíveis de uma determinada palavra, explica Finbow. E considerar, também, a variação das línguas, inclusive de pessoa para pessoa. “Novas construções estão sempre surgindo e outras vão sendo eliminadas. Ao longo de nossas vidas podemos observar isso, como gírias dos tempos dos avós que não são mais usadas”. Ainda que o preconceito seja difícil de erradicar e que os xingamentos tenham papel fundamental na expressividade de emoções, Finbow diz que o trabalho de conscientização sobre palavras preconceituosas acompanha o peso relativo do que é considerado preconceito na sociedade. “A aceitação da homossexualidade é muito maior agora do que no passado. É um processo de abertura, de redirecionar o olhar da sociedade por meio de uma linguagem menos carregada de preconceito”, afirma.

Produzida pela Barry Company, com direção de cena de Judith Belfer, o filme da campanha que promove o app da EGCN mostra que o preconceito está impregnado na fala e explora uma série de situações de discriminação que são originadas ou agravadas por frases, expressões, palavras ou adjetivos falados no dia a dia, muitas vezes sem reflexão.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.