Periferia, favela, quebrada. Não importa o termo, regiões antes vistas de forma pejorativa, já se provaram, há anos, como fonte de inovação, consumo e geração relevante de negócios. Um novo movimento, no entanto, ganha força, sobretudo, com o avanço da tecnologia. As afrotechs, com soluções especializadas para a população afrodescendente e as perifatechs, com soluções voltadas à periferia, vêm ganhando cada vez mais espaço.

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Locomotiva, os mais de 14 milhões de empreendedores afro-brasileiros são responsáveis por movimentar cerca de R$ 1,6 trilhão da economia, embora a maior parte dessa população se concentre entre as pessoas mais pobres do Brasil.

Exemplos de como esses números se materializam são a TrazFavela, startup de logística para áreas periféricas, e a AfroSaúde, que se propõe a conectar a comunidade afro-brasileira com profissionais de saúde negros. Com o objetivo de equilibrar as oportunidades e, ao mesmo tempo, gerar negócios que resolvam as dores da população afro-brasileira, programas de aceleração de organizações como a Vale do Dendê, criada para fomentar ecossistemas de inovação e diversidade, que conta com o apoio de empresas como a Qintess e o Google, estão apoiando o desenvolvimento de ideias nessa direção.

“As acelerações tornaram o processo muito dinâmico. No começo pensamos que funcionaríamos como uma plataforma de conexão, mas nos transformamos em um guarda-chuva de tecnologia voltado à saúde da comunidade”, conta Arthur Lima, que é dentista, professor e fundador da AfroSaúde. Ele revela que que a startup reuniu mais de 1,2 mil profissionais de mais de 130 cidades em seu banco de cadastros e que cerca de 820 deles estão no aplicativo web desenvolvido para atender todo o País. Durante a pandemia, a startup atendeu mais de 400 famílias na região metropolitana de Salvador.

“Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Locomotiva, os mais de 14 milhões de empreendedores afro-brasileiros são responsáveis por movimentar cerca de R$ 1,6 trilhão da economia”

Outra startup que seguiu a mesma trilha é a TrazFavela, que tem como objetivo levar produtos de dentro da periferia para fora e de fora para dentro – dos extremos das capitais. Em 2020, a empresa somou mais de 2,4 mil entregas. “Somos uma empresa de logística que está funcionando via WhatsApp e estamos nos transformando em um aplicativo de delivery para possibilitar que micro, médias e até grandes empresas consigam escoar seus produtos por toda a cidade”, esclarece Iago Santos, designer, estudante de desenvolvimento e CEO da TrazFavela. Segundo o empreendedor, cerca de 70% das entregas realizadas cobrem locais não atendidos por aplicativos.

RESOLVA SEUS PERRENGUES

A Aimo Tech, startup de tecnologia educacional, cofundada pela designer Tata Ribeiro,  desenvolve soluções educacionais baseadas em inovações tecnológicas, mas que não dependem exatamente de dispositivos digitais para ensinar estudantes das escolas públicas baianas. “Na pandemia, oferecemos kits do tipo faça você mesmo inspirados na linguagem digital e da robótica, mas que possibilitavam que as crianças montassem suas próprias criações em casa”, explica Thais. Ela comemora o fato de o projeto ter beneficiado centenas de alunos. Impulsionada pelos programas de aceleração e também pela promoção de um financiamento coletivo, a startup consegui viabilizar o empreendimento educacional.

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil