AirPods com câmera podem ser proibidos em academias e empresas

Caso venham munidos de câmeras, como estão indicando os rumores, dispositivos poderão infringir regras de privacidade de espaços privados

Montagem mostra AirPods cor-de-rosa apoiados em anilhas dentro de uma academia.
Créditos: Apple, Unsplash

Kit Eaton 5 minutos de leitura
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Um dos rumores mais comentados sobre o próximo evento de hardware da Apple é o possível lançamento de uma versão dos AirPods equipada com câmeras.

Segundo as informações disponíveis, os fones seriam projetados para funcionar em conjunto com o sistema de inteligência artificial da empresa, o Apple Intelligence.

Um vídeo encontrado no código de uma versão de testes do macOS reforçou os rumores. Na demonstração, os fones reconhecem um livro mostrado pelo usuário e salvam suas informações para que ele possa consultá-las posteriormente.

Novas informações indicam, porém, que o aparelho não deve chegar ao mercado antes de 2027. Se isso se confirmar, o adiamento pode ser uma decisão sensata.

Se não houver uma sinalização visível e confiável, empresas e academias podem decidir proibir todos os AirPods em determinados ambientes.

A opinião pública está dividida em relação aos dispositivos vestíveis com câmera. Muitos comentaristas condenam o que consideram uma ameaça à privacidade — mesmo que os sensores dos AirPods não funcionem exatamente como as pessoas imaginam.

O PROBLEMA NÃO É APENAS GRAVAR

Quando publiquei no LinkedIn meu artigo na Inc. sobre os dispositivos, as reações deixaram claro o tamanho da preocupação.

Um comentarista afirmou que os AirPods com câmera poderiam se transformar em um “pesadelo jurídico prestes a acontecer dentro das empresas”.

Se os sensores captarem uma lista de clientes e enviarem a imagem para um serviço da Apple, por exemplo, funcionários poderão violar acordos de confidencialidade ou outras cláusulas contratuais sobre compartilhamento de informações.

Outra pessoa imaginou uma “enxurrada de processos” assim que funcionários entrassem em banheiros usando os fones, já que os empregadores poderiam ser responsabilizados. Em uma crítica ainda mais contundente, alguém sugeriu que os usuários simplesmente “passariam a fazer parte do Estado de vigilância”.

QUANDO O FONE ENTRA NO VESTIÁRIO

Comentaristas do Reddit se mostraram igualmente desconfiados.

Um usuário apontou uma complicação especialmente difícil: outras pessoas não teriam como saber se alguém está usando uma versão comum dos AirPods ou o modelo equipado com câmera.

Isso poderia obrigar empresas, academias e outros espaços privados a adotar uma proibição geral.

A privacidade de um dispositivo vestível depende tanto do que a tecnologia faz quanto do que as pessoas ao redor conseguem verificar.

“Odeio isso. Academias obviamente proíbem celulares nos vestiários, mas agora vou ter que tirar meus AirPods para garantir que as pessoas se sintam à vontade”, escreveu.

Se não houver uma sinalização visível e confiável, empresas e academias podem decidir proibir todos os AirPods em determinados ambientes.

Outro usuário reconheceu que o dispositivo poderia oferecer “um recurso incrível de acessibilidade”, mas disse não enxergar outras utilidades que compensassem os riscos.

Muitos fizeram comparações com os vestíveis Ray-Ban da Meta, que chegaram a receber o apelido de “óculos de assediador” depois que alguns usuários gravaram pessoas sem consentimento.

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CÂMERAS QUE NÃO TIRAM FOTOS

O repórter de tecnologia da Bloomberg Mark Gurman informou que os AirPods com câmera não serão lançados junto com os novos iPhones deste ano. Segundo ele, o adiamento não estaria relacionado à privacidade, mas a limitações na cadeia de suprimentos e a problemas de software.

Gurman também indicou que as câmeras não deverão funcionar como as pessoas imaginam.

Elas teriam resolução relativamente baixa, devido às limitações de tamanho e bateria dos AirPods, e não seriam usadas para registrar fotos ou vídeos. Sua principal função seria fornecer informações visuais ao Apple Intelligence.

Os sensores poderiam reconhecer objetos, lugares ou textos no ambiente e oferecer esse contexto à inteligência artificial.

Isso está alinhado à posição que a Apple mantém há anos em relação à privacidade. A cautela da empresa na adoção de IA chegou a alimentar acusações de que ela havia ficado para trás na corrida tecnológica.

Os defensores da companhia provavelmente partiriam do princípio de que, se a Apple lançar AirPods equipados com câmeras, eles não poderão ser usados para invadir a privacidade como os óculos da Meta.

Também é possível que parte do processamento das imagens seja realizada diretamente no celular ou pelo sistema de nuvem privada da Apple. Sem um anúncio oficial, entretanto, ainda não é possível saber quais informações serão enviadas a servidores, por quanto tempo serão mantidas ou quem poderá acessá-las.

A Apple certamente conhece os riscos. Recentemente, a Meta passou a enfrentar um processo envolvendo imagens sensíveis captadas por seus óculos inteligentes. Entre os conteúdos analisados por trabalhadores terceirizados estavam registros de nudez, relações sexuais e pessoas usando o banheiro.

A privacidade de um dispositivo vestível depende tanto do que a tecnologia faz quanto do que as pessoas ao redor conseguem verificar.

EMPRESAS AINDA NÃO TÊM REGRAS

A controvérsia revela um problema que continuará existindo mesmo que a Apple adote proteções rígidas de privacidade.

Muitas empresas ainda não possuem diretrizes atualizadas para orientar funcionários sobre quais dispositivos vestíveis são permitidos e em quais circunstâncias seu uso é aceitável.

Algumas poderão adotar os AirPods com câmera. Outras terão de proibi-los por questões jurídicas, de segurança ou de conformidade.

Provavelmente está na hora de conversar com as equipes sobre os riscos e benefícios desses aparelhos. Até dispositivos aparentemente inofensivos podem captar informações e enviá-las a serviços de inteligência artificial, expondo dados pessoais ou propriedade intelectual sensível.


SOBRE O AUTOR

Cubro a área de ciência, tecnologia e tudo o que é inovador e empolgante para a Inc. e a Fast Company.Também tenho doutorado e já ... saiba mais