Aos meus amigos: saudades de nossas discussões

Uma reflexão sobre as eleições de 2026, a democracia, as redes sociais e o que mudou nas nossas amizades nos últimos anos

Duas cadeiras brancas vazias, voltadas uma para a outra, diante de um fundo amarelo e cinza com figuras humanas.
Créditos: funkenzauber via Adobe Stock / Antoni Shkraba, Yan Krukau via Pexels

Kim Loeb 11 minutos de leitura
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Alguns dos meus anos mais felizes foram no ensino médio. Entrei numa escola pequena de bairro e me encontrei com uma turma de amigos, eles vinham de um ambiente completamente diferente do meu, conviviam em uma comunidade mais fechada, mas mesmo assim formei grandes amizades. Nossas maiores diversões eram as discussões filosóficas, religiosas e políticas. Essas discussões, repletas de dados e deboche, eram hilárias, discordávamos, mas isso não era problema - víamos uma discussão como duas espadas que se afiavam. Todos saíam mais inteligentes.

Mas gradualmente isso foi se dissipando. Menos deboche, menos dados, mais raiva… Em um ou outro momento, uma espada parecia ferir o outro. Ao ponto que hoje achamos melhor evitar estes assuntos.

Temos valores diferentes, seguimos diferentes caminhos de vida, mas esta não é a questão. O cerne da questão, está nas realidades informacionais completamente paralelas nas quais estamos convivendo.

As redes sociais são hoje a principal fonte de informação (cerca de 72% dos brasileiros com 16 anos ou mais acessam as redes sociais diariamente como fonte de informação), formadora de opinião e cultura, e intermediadora das relações humanas. Elas são a praça pública onde nos encontramos e os óculos através dos quais estamos enxergando a realidade. Mas, e se por um momento, baixássemos os óculos para analisar as suas lentes?

Ilustração colorida de pessoas e personagens diferentes lendo jornais com a palavra News
Em ilustração de Kim Loeb, diferentes personagens consomem notícias, em referência às realidades informacionais que convivem nas redes sociais.

Um estudo provou que, nas redes, mentiras viajam seis vezes mais rápido e alcançam muito mais pessoas do que as verdades. A raiva é o sentimento mais eficaz para gerar visibilidade. Um levantamento da Universidade de Nova York quantificou que a cada palavra que gera indignação moral adicionada a uma postagem aumenta sua taxa de compartilhamento em 17% . Ideias simples, extremas e mentirosas viralizam porque capturam atenção, mas são incapazes de traduzir a complexidade do mundo. “O meio é a mensagem”, escreveu o teórico Marshall McLuhan em 1964, querendo dizer que a estrutura da plataforma determina a mensagem que vai se propagar. A lente está distorcida.

O motivo está no seu incentivo financeiro: maximização de tempo de tela.

A fonte de renda da plataforma está na visualização de anúncios. Quanto mais tempo passa lá, mais anúncios vê; quanto mais anúncios vê, mais dinheiro a plataforma recebe dos anunciantes. É basicamente assim que a Meta vale mais que dois terços do PIB do Brasil.

O algoritmo de recomendação - o personagem invisível que decide qual post lhe mostrado e qual é enterrado -  serve a este propósito. Este é um algoritmo de inteligência artificial preditiva: ele utiliza todos os milhares de pontos de dados que possui sobre você e seus contatos e traça seu perfil psicológico e comportamental. A partir disso, ele escolhe qual vai ser o vídeo que aparece no seu feed, ou o próximo stories que vai aparecer, ou o que surge logo depois que outro termina - pensando no que vai te manter mais tempo lá. O algoritmo não escolhe intencionalmente a mentira ou o inflamatório - ele nem mesmo chega perto de entender o que é verdade - mas isso infelizmente é o que é mais efetivo em nos manter mais tempo lá.

Ilustração mostra um personagem vermelho controlando uma esteira que separa imagens de pessoas e descarta algumas em uma lixeira.
: Ilustração de Kim Loeb representa a seleção de conteúdos que chegam aos usuários por meio dos algoritmos de recomendação.

Mas isso não é inócuo. Em 2017, no Myanmar, onde o Facebook atuava como principal fonte de informação, um conflito étnico entre budistas e muçulmanos foi extremamente inflamado pela plataforma, com conteúdos preconceituosos e racistas postados por usuários e impulsionados pelo algoritmo. Um monge radical postava coisas como estupros que nunca ocorreram e clamores de genocídio e limpeza étnica. Como a raiva é boa em reter atenção, o conteúdo foi impulsionado para grande parte da população do país. Infelizmente, as tensões levaram ao massacre e assassinato de milhares de civis inocentes muçulmanos. A equipe da ONU declarou que o Facebook teve um papel determinante na tragédia.

Em 2021 a empresa ensaiou uma mudança. A tentativa de solucionar a questão começou com um teste: funcionários separaram os conteúdos entre “bons para o mundo” e “ruins para o mundo” e aplicaram uma versão do algoritmo que impulsionasse mais conteúdo “bom para o mundo” com um grupo de teste. O resultado: quem recebeu os conteúdos “bom para o mundo” começou a passar menos tempo na plataforma.

Ou seja, se implementado, o algoritmo diminuiria a receita da empresa. No final, a empresa resolveu implementar uma versão meio-termo, que não tivesse "bom para o mundo" a ponto de prejudicar muito o seu lucro. Este é um exemplo de desalinhamento de incentivos: o que gera mais lucro para a empresa, não está completamente alinhado com o que faz bem para nós, e gera danos para usuários e cidadãos.

Voltando ao Brasil, isso ajuda a explicar a sociedade polarizada e radicalizada que vemos aqui hoje. Observe como éramos em 2013:

Gráfico de páginas políticas do Facebook em 2013 mostra comunidades de diferentes cores conectadas por numerosas linhas.
Em 2013, o debate político no Facebook apresentava diversos grupos interligados, com menor separação entre comunidades. (Fonte: Sobrevivendo nas redes: Guia do cidadão, 2018)

Cada pontinho é uma página/perfil no Facebook, cada linha é um seguidor em comum ligando páginas diferentes. Quanto mais seguidores entre páginas, mais linhas e os pontinhos se aproximam.

Este é o mesmo gráfico apenas 3 anos depois, em 2016:

Gráfico de 2016 mostra páginas políticas do Facebook divididas em dois agrupamentos, um vermelho e outro azul, conectados por poucas linhas.
Três anos depois, em 2016, as páginas políticas do Facebook já apareciam organizadas em dois grandes agrupamentos, evidenciando a polarização do debate. (Fonte: Sobrevivendo nas redes: Guia do cidadão, 2018)

O algoritmo jogou amigos e parentes de lados opostos e nos distanciou. Se as redes sociais são sua principal fonte de informação, é provável que você tenha sido jogado para um destes lados.

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Acredito que este abismo informacional - e a polarização e o radicalismo que vem junto - são consequências não intencionais de uma plataforma projetada para maximizar tempo de tela, e não um plano arquitetado.

...mas isso pode estar mudando.

MANIPULAÇÃO ARQUITETADA?

A ex-diretora da Meta, Sarah Wynn-Williams, conta em seu livro de memórias, Careless People (Pessoas sem cuidado, em tradução livre), como a regulamentação é a maior preocupação das plataformas - afinal, esta é sua maior ameaça a poder, influência e dinheiro. O livro relata discussões sigilosas sobre possível favorecimento a certos políticos por uma uma troca simples: a plataforma entrega mais impulsionamento, visibilidade e atenção ao político; e, em troca, quando eleito, o político protege a empresa de regulamentação.

O fato que ela tem este poder e opacidade é, com certeza, um ponto extremamente preocupante e ameaçador para a democracia.

Alguns ocorridos expostos nos últimos dias poderiam indicar que algo parecido poderia estar se passando no Brasil agora:

Levantamentos de especialistas, pesquisadores e organizações, como a Ctrl+Z (formada por ex-funcionários da Meta), tem exposto uma série de incidentes graves que sugerem um favorecimento sistêmico: ferramentas de IA generativa operando com restrições enviesadas (criando material promocional de um candidato enquanto não faz de outro, mesmo se o prompt for o mesmo, só mudando o nome do candidato), engajamento absurdamente desproporcional para alguns perfis de um lado do espectro político (um desses deputados federais tinha mais de 33x a taxa de visualização que grandes celebridades internacionais no Instagram, enquanto que no TikTok, suas visualizações nos mesmos vídeos eram “normais”), e relatos de restrição de alcance (e até queda de página, falhas técnicas e funcionalidades) para o outro, além de uma outra série de erros técnicos como em tradução de conteúdo para o exterior. Buscas de informações sobre acesso a grupo de um candidato, leva a resultados do outro. Um conselho de supervisão independente afirmou que a Meta apresenta falhas recorrentes na moderação de conteúdo relacionado a eleições indicando inconsistência na aplicação das regras. Há até vazamento de mensagens internas da Meta nas quais funcionários admitem um favorecimento a um dos candidatos enquanto prejudica o outro. E parece que a cada momento tem mais dados sendo revelados de um aparente favorecimento seletivo.

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Coincidentemente, os políticos que mais se beneficiaram dessas assimetrias são os mesmos que em algumas sessões esvaziam audiências públicas sobre a taxação dessas empresas e evitam propostas reais de regulamentação das redes - até em propostas que sobre proteção à criança e ao adolescente.

Não podemos afirmar que a Meta tenha qualquer aliança ou lado nessas eleições, a falta de transparência em seu algoritmo faz com que qualquer acusação seja praticamente impossível de provar. Entretanto, não seria absurdo supor que a empresa possa usar sua influência para manipular o debate a seu favor. O fato que ela tem este poder e opacidade é, com certeza, um ponto extremamente preocupante e ameaçador para a democracia.

A verdadeira pacificação da nação depende de regulamentar estas plataformas

Estamos diante de eleições críticas quanto à regulamentação destas tecnologias, ainda mais se realmente há um candidato que esteja submisso a seus interesses. Interesses que, como visto acima, são desalinhados com os interesses do bem estar do povo brasileiro (e isso não é “só” sobre democracia, há uma outra gama ampla de áreas no qual isso afeta como, por exemplo, a saúde mental das crianças).

Por mais que possamos legitimamente discordar sobre formas de melhorar saúde, educação, segurança, economia, contas públicas e combater a corrupção, precisamos lembrar que, no final das contas, é isso que todos queremos! E as redes atuais e os candidatos que elas produzem nos fazem esquecer disso. Nossas discordâncias talvez sejam mais pautadas em abismos informacionais, o que o algoritmo entregou para um e omitiu para o outro, do que a gente consegue perceber. Afinal, dados mostram que nós temos muito mais pontos nos quais concordamos do que discordamos e extremistas são bem menos prevalentes que o que aparenta nas redes.

A verdadeira pacificação da nação depende de regulamentar estas plataformas. Isso não é de forma alguma em cima de censura ou limitando a liberdade de expressão do usuário - o que ele pode ou não pode postar - mas sim exigindo que a plataforma providencie transparência sobre este algoritmo de recomendação e dê ao usuário liberdade para customizá-lo. Ou seja, não é tapando a boca do usuário, mas sim garantindo que ele possa perceber e ajustar a lente de seus óculos.

DAQUI A 4 ANOS?

Ilustração de um personagem vermelho com um olho sentado em um trono enquanto vários olhos com pernas caminham em fila.
Ilustração de Kim Loeb sobre o poder dos algoritmos e a influência das plataformas na maneira como enxergamos o mundo.

Infelizmente é cada vez mais difícil conciliar a democracia que conhecemos com as tecnologias que estão surgindo. A IA preditiva e generativa tem um poder enorme de vigiar indivíduos e de influenciá-los. Em 4 anos essa tecnologia estará em um patamar inimaginável para nós hoje. Nem se fala em 8, 12, 16 anos para frente… A cada ano que passa sem que esta tecnologia seja regulamentada, o desafio será cada vez maior. 

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“Uma mentira contada mil vezes pode se tornar uma verdade” se prova correto em termos de eficácia: a cada encontro com uma mentira, sua eficiência aumenta, mesmo quando ela já foi corrigida por verificadores, pessoas criam memórias falsas para acompanhar fake news, estudos demonstram como a utilização de bots pode fabricar consenso e reverter a opinião em uma maioria de 2:1. Hoje temos uma máquina que consegue contar a mesma mentira milhões de vezes e ainda fazer parecer que vem de milhões de pessoas diferentes.  E muito dessa tecnologia já está sendo usada para influenciar opiniões.

A lente está distorcida.

Independente do resultado destas eleições, precisamos de uma profunda mudança atencional: precisamos redefinir qual será nossa praça pública, nossa fonte de informações, nossos “óculos”. Escolher com muita clareza qual será o espaço e instrumento que media nossa relação com a realidade e com os outros.

Precisaremos sair das plataformas desalinhadas e ir para plataformas mais transparentes e éticas. Trocar coletivamente plataformas como Instagram e TikTok (que já tiveram alguns vários casos de desalinhamento expostos), por alternativas que já existem e são menos conhecidas.

E, além de mudar de plataforma, também mudar as plataformas através de regulamentação que garanta transparência, autonomia e liberdade ao usuário. Isso não será possível se elegermos um governante em conluio com as plataformas.

Vamos observar o mundo através de lentes claras, vamos respeitar pontos de vistas diferentes mas estarão todas olhando para a realidade. Espero voltar a ter as mesmas discussões políticas divertidas com estes amigos, com quem provavelmente continuarei discordando em muitos pontos, mas que seguirei amando.

 Para isso, precisamos mudar as plataformas e mudar de plataformas. Vamos?


SOBRE O AUTOR

Kim Loeb é cofundador da Um Minuto de Sua Atenção, organização que trabalha com conscientização a respeito de mídia, tecnologia e prot... saiba mais