Um dos grandes desafios do Brasil – e do mundo – na crise econômica provocada pela Covid-19 é gerar renda para a população. De acordo com a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), divulgada pelo IBGE, a taxa de desemprego no trimestre encerrado em novembro de 2020 foi de 14,1%, índice mais alto para esse trimestre móvel desde o início da série histórica da pesquisa, em 2012. Neste cenário, muitas pessoas recorrem ao trabalho informal na urgência de conseguir deixar os boletos em dia.

Cientes dessa necessidade, o trio de publicitários Andre Mancini, Otavio Schiavon e Rafael Miessi lançou o Grito, um app gratuito disponível para iOS e Android que tem o objetivo de gerar renda imediata por meio da venda ou aluguel de coisas pouco ou nunca utilizadas que as pessoas têm em casa. Um guarda-roupa repleto de peças pode não fazer mais sentido para quem trabalha em home-office, mas algum look pode ser importante para outra pessoa que precisa trabalhar fora. Inspirado pelo conceito norte-americano de lowsumerism, que prega consumo e produção conscientes, similar à ideia de economia compartilhada, o serviço encoraja as pessoas a resolverem a vida em casa e no entorno dela, estreitando os laços com vizinhos e estabelecimentos próximos – repensar o consumo desenfreado e o fomento ao comércio local são duas pautas que já vinham sendo debatidas nos últimos anos e que ganharam força com a pandemia.

Grito quer resolver a vida das pessoas conectando-as aos vizinhos em até 3 km de distância (Crédito: Divulgação)

“O ser humano convive em comunidade até antes mesmo dos primeiros registros históricos. As cidades de concreto e toda a organização lógica aparente produziram um certo distanciamento que faz com que as pessoas acreditem que estão apartadas, que apenas as suas famílias são a sua comunidade. Esse pensamento não é e nunca foi verdadeiro, é triste de se pensar isso, mas a Covid está aí e revela que somos todos parte de uma única origem, somos uma espécie que compartilha dos mesmos dilemas, da mesma biologia, da mesma fragilidade, mas também da mesma força e capacidade de organização. Conviver e compartilhar itens e objetos é apenas uma pequena parte do que somos capazes de fazer como espécie. Economicamente falando, agir em comunidade é algo que pode nos reintegrar e reproduzir abundância de forma micro para o macro, fortalecendo as relações e os bolsos de quem vive na mesma região”, afirma Schiavon.

COMO FUNCIONA

Sem preencher ficha cadastral, o aplicativo utiliza a geolocalização para que pessoas comprem produtos, contratem serviços e façam doações num raio de até 3 km de distância. A pessoa pode anunciar a demanda como bem entender: “Vendo cadeira.”, “Preciso de um encanador.”, “Estou doando moletons” e “Compro Atari.” São alguns exemplos. Com isso, os fundadores esperam estimular o cotidiano da vizinhança e transformar a economia local, fazendo com que marmitas cheguem mais quentinhas e que manicures, massagistas e eletricistas se conectem a potenciais clientes de maneira mais rápida. O app conecta as partes interessadas pelo WhatsApp, que combinam o pagamento final.

OPORTUNIDADES PARA MARCAS

Os três começaram a divulgar o app em bairros que acreditavam ter potencial e avaliam que a aceitação tem sido boa. Aluguel de jogos de videogame que estão encostados, ferramentas e venda de produtos, autônomos como cabeleireiros, manicures, massagistas, oferecendo os próprios serviços estão na plataforma. Eles esperam que, em breve, a ferramenta conquiste uma base grande o suficiente para que as negociações aconteçam espontaneamente. Já existe um roadmap do produto para o desenvolvimento de serviços pagos, venda de espaços de mídia e parcerias com players de grandes redes que poderão se integrar com as comunidades locais. “É nesse tipo de profissionalização das relações que nós ganhamos, oferecendo facilidades, diminuindo dores das pessoas e dos negócios”, diz Miessi.

De acordo com os fundadores, a ascensão do lowsumerism sinaliza às grandes empresas a necessidade de se considerar o entorno e todo tipo de situação de vida para dialogar diretamente com as pessoas. “Principalmente aquelas que vivem em uma situação de vulnerabilidade, estão muito mais acostumadas com a solidariedade, compartilhar recursos, ajudar quem está por perto. Essa não é uma realidade tão presente nas classes média e alta, pois existe toda uma narrativa que é construída para criar esses muros e manter as pessoas com medo umas das outras. No momento que o medo cai, as narrativas mudam. Um tempo atrás seria impossível imaginar o que tem acontecido nestes tempos, as pessoas compartilham e alugam as próprias casas (Airbnb), compartilham os próprios veículos (Uber), tem comunidades se formando para viverem juntas e compartilharem todos os recursos gerados, inclusive os alimentos (Permacultura). É algo que não é novo para a humanidade, mas que está voltando, as pessoas estão se reconectando consigo mesmas e consequentemente com as outras também”, comenta Mancini.

OLHAR CRIATIVO

O trio afirma que colocar um app no mercado chega a ser ainda mais complicado do que abrir uma empresa num espaço físico, devido à velocidade das transformações. “Talvez o maior desafio seja manter a mente aberta para as novidades que fervilham todos os dias e não pirar, é preciso ter clareza do que você quer oferecer e traçar um destino, ao mesmo tempo que essa abertura da mente permite que as coisas mudem durante o caminho. E isso não para nunca, então é melhor se acostumar com esse estado de impermanência”, diz Schiavon.

Otavio Schiavon, Rafael Miessi e Andre Mancini, fundadores do Grito (Crédito: Divulgação)

Todos com experiências prévias em agências de publicidade em funções criativas, eles dizem que o olhar criativo contribuiu muito para o desenvolvimento da plataforma. Eles foram responsáveis não só pela concepção do aplicativo como também pelo design, desenvolvimento, produção dos filmes e pela campanha de lançamento. “Fomos forjados no desapego e na necessidade de ter muitas ideias, todos os dias, e sabemos que muitas pessoas são forçadas a desacreditar de sua criatividade desde muito cedo devido aos modelos industriais de educação. Esse tipo de pensamento criativo, alinhado a uma forma mais pragmática de separar o que é possível tecnologicamente e desejável pelas pessoas que queremos impactar, acaba se transformando em uma verdadeira explosão de possibilidades para a elaboração não só do produto digital, mas de toda a cadeia por trás do nosso objetivo, que é auxiliar as pessoas a terem novas formas de renda”, afirmam.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.