Apple reinventa seu TikTok para conquistar a geração Z
Os novos vídeos da Apple na rede social são uma aula de como captar a atenção da geração Z sem sacrificar a estética da marca

Minha nova criadora de conteúdo favorita no TikTok é a Apple. Sim, aquela Apple.
No dia 4 de março, a empresa lançou seu mais novo produto, o surpreendentemente acessível MacBook Neo. Na mesma data, também apagou todo o conteúdo que existia em sua página no TikTok e recomeçou do zero.
Os novos vídeos vão de um clipe inspirado na apresentação original do Macintosh de 1984 por Steve Jobs a uma animação fofa do ícone do Finder do Mac rindo e corando. As postagens têm sido publicadas em trios, cada um associado a uma das cores do Neo.
A reformulação é um movimento claro para atingir o público que a Apple sabe que mais se interessa pelo Neo: a geração Z. O novo laptop, impulsionado pela mesma arquitetura presente no iPhone, mira usuários mais jovens com um preço inédito e opções de cores que exploram uma obsessão já conhecida da GenZ: a estética retrô da tecnologia.
Até agora, a estratégia parece estar funcionando. Segundo registros do Wayback Machine de 28 de fevereiro, a Apple tinha sete milhões de seguidores e 21,9 milhões de curtidas antes da mudança, números que saltaram para 7,8 milhões e 31,6 milhões, respectivamente.
A empresa também lançou recentemente uma conta secundária no Instagram, chamada @helloapple, voltada para notícias, marketing de produtos e histórias de clientes. O tom ali é mais corporativo do que no TikTok, mas reforça o interesse da marca em ampliar sua presença nas redes sociais.
A nova página da Apple funciona porque mistura tendências visuais populares com seu já conhecido rigor de design, transformando até os vídeos mais bobos em peças visualmente refinadas e altamente “reassistíveis”.
"PODRIDÃO CEREBRAL" OU IDEIA GENIAL?
Diversas marcas já tentaram descobrir como capturar a atenção da geração Z no TikTok, e a Apple claramente estudou vários desses caminhos. A empresa experimenta de tudo: de conteúdos “brain rot” a nostalgia dos anos 2000, ASMR, músicas autorais e edições propositalmente estranhas.
Em outras mãos, essa mistura poderia soar forçada ou constrangedora. No caso da Apple, a execução criativa meticulosa amarra tudo.
Um exemplo é um vídeo de 14 segundos em que uma mulher abre e testa um blush rosa – uma referência direta à cor “Blush” do Neo. O conceito é simples, mas cada detalhe foi pensado para dialogar com a estética Y2K: da blusa listrada ao tapete felpudo rosa, passando pela embalagem personalizada com o logo da Apple, que remete ao icônico iMac G3.
@apple getting ready
♬ original sound - apple
Esse cruzamento entre “nostalgiacore” e referências diretas a produtos clássicos da marca faz o conteúdo parecer autêntico, não forçado. E o engajamento comprova isso: o vídeo já ultrapassou 64 milhões de visualizações e acumula quase 35 mil comentários, muitos deles pedindo a volta dos dispositivos coloridos da Apple.
Outros clipes seguem a mesma lógica, combinando o design sonoro característico da marca com visuais chamativos, como um vídeo de três segundos do nascer do sol sincronizado com o som de inicialização do Mac, ou uma montagem vibrante de frutas coreografadas ao ritmo de notificações.
@apple starting up
♬ original sound - apple
A conta também testa conteúdos que flertam com o “apodrecimento do cérebro”, uma tendência que abraça escolhas caóticas e, muitas vezes, sem sentido, como visuais distorcidos, design agressivo e narrativas desconcertantes.
Outras marcas, como Duolingo e Brita, já levaram esse tipo de estratégia ao extremo. A diferença é que a Apple entende o que faz esse conteúdo funcionar – a combinação de irreverência e surpresa –, mas mantém tudo sob controle, com um acabamento visual sofisticado.
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É como se fosse Steve Jobs encontrando o “brain rot” – e, de alguma forma, dando muito certo.