POR MARK WILSON

Depois de 20 anos, a era Y2K está de volta. Em meio à pandemia de Covid-19, uma onda de tecno-otimismo que inclui do Metaverso aos NFTs tem inundado a vida prática.  Inúmeros novos milionários surgiram da noite para o dia graças às criptomoedas ou à arte gerada por algoritmos. Mas neste artigo nossa intenção é jogar um pequeno balde de água fria em todo esse hype que promete seguir firme 2022 adentro. Vamos problematizar modismos que vão desde o blockchain à adoção do modelo de trabalho híbrido por empresas direto ao consumidor (D2C) que se dizem “sustentáveis”. Para questionar o status quo desse ciclo contemporâneo de novidades superestimadas, recrutamos uma equipe de designers muito atentos.

Uma tendência sobrevalorizada pode ser comparada a algo muito doce, mas que depois deixa um gosto amargo na boca. Ou então algo que brilha tanto sob os holofotes que deixa questões mais importantes nas sombras. Superestimar algo pode gerar lucro, nós já sabemos disso. Mas muitas vezes a capacidade real de algo novo impactar e melhorar nosso mundo está muito aquém da empolgação inicial que algo gera.  

Sem mais delongas, aqui estão as tendências mais “overhypadas” de 2022: 

O METAVERSO

Nós, como tantos outros, temos construído há anos conceitos em torno do Metaverso. Embora a realidade aumentada e a realidade virtual já tenham sido engolidas pela indústria como resultado natural dos smartphones, a ideia de que uma única empresa pode se lançar e se autodenominar como “O metaverso”  soa arrogante e sinistra. Vocês lembram o que aconteceu com a AOL (America Online)? Hoje, mal lembramos do seu navegador ou do seu serviço de internet discada. Ou seja: nenhuma plataforma consegue sozinha representar tudo o que a Internet tem a oferecer. E nenhuma modalidade ou interface dominará toda a nossa experiência – por mais que ela queira.

(Crédito: Fast Company)

A campanha publicitária do Facebook em torno da ideia do Metaverso é baseada na premissa de que as pessoas escolherão – e, antes disso, de que terão a opção de – escapar do “mundo real” para interagir em um mundo artificial (patrocinado, é claro, por eles). Mas esse raciocínio ignora o caminho que as coisas já estão tomando. O que a computação tem feito por nós é adicionar mais uma camada aos ambientes existentes.

Na maioria das situações, nós não queremos entrar nos universos dos nossos computadores, mas sim que os nossos computadores funcionem em interação com o mundo, com os lugares e situações nos quais a vida já acontece: na mesa de jantar, no trem, no encontro com amigos etc. Com o entusiasmo em torno da realidade aumentada, os celulares com internet tiveram o efeito prático de, literalmente, trazer para a palma de nossas mãos tudo o que a computação oferece. Talvez, um dia, a computação móvel “vestível” permita essa realidade mista, mas deixando as nossas mãos livres. E, como as tecnologias predecessoras, ela mudará profundamente a forma como as pessoas se comportam. De todo jeito, seja qual for a interface, o futuro da computação não será uma escapatória para outro mundo. Ele será sobre nós, e sobre a força amplificadora que a tecnologia tem sobre as nossas próprias habilidades, nesse mundo em que já vivemos.

—Mark Rolston, fundador e chefe de criação, e Jared Ficklin, chefe de tecnologia de criação, ambos da Argodesign

LEVANDO EM CONTA A GERAÇÃO Z E OS MILENNIALS

A estética suave e amigável do design voltado para a geração dos millennials está dando sinais de esgotamento há algum tempo. Ela fez bastante sucesso: basta pensar naqueles planos de fundo em “rosa millennial” ou em outros tons neutros e pastéis, nas fotografias tipicamente postadas no Instagram, nas ilustrações de traço tosco e com personagens peculiares e nas fontes com um ar retrô. A maioria das marcas “direto ao consumidor” (D2C) que surgiram na última década e que aparecem frequentemente em nossos feeds do Facebook emprega muitas dessas técnicas. Para não ficar para trás, as marcas convencionais também começaram a adotar essa mesma estética, com o objetivo de transmitir uma atmosfera de autenticidade que é crucial para esse público. Mas, como se costuma dizer, todas as modas são passageiras. Então, é este o momento em que o design da Geração Z chega com tudo? Bem, é melhor respondermos com mais calma a essa pergunta. 

(Crédito: SurfUpVector / iStock / Getty Images Plus)

As tendências de design voltadas para a Geração Z estarão em pleno vigor em 2022, e elas se caracterizam por uma estética mais chamativa (olá, cores neon!), mais experimental e mais forte para os olhos e para os outros sentidos. Já há um consenso estabelecido no marketing que afirma que a Geração Z tem um período de atenção mais curto do que aquele da Geração Y (os Millenials): 8 segundos contra 12, de acordo com algumas fontes. E essa primeira geração a passar toda a sua vida online está interessada na fluidez entre gêneros e de outras normas, em marcas que abram mais espaço para a personalização e em experiências online fáceis e digeríveis, que ganhem sua lealdade.

Entendeu o problema? Uma geração que não quer ser definida, não quer ser definida. O nível de individualidade que essa geração autossuficiente tem demandado exige, por sua vez, um nível totalmente novo de flexibilidade. Os jovens da geração Z são como um alvo em movimento, e a maioria das marcas inevitavelmente ficará vários passos para trás. Nesse caso, como sempre, é melhor as marcas serem fiéis a elas mesmas, transmitindo a sua mensagem honesta – e esperar para ver quem essas mensagens alcançam. 

—Kevin Grady, parceiro sênior de design da Lippincott

NFTs

Você pode até não estar familiarizado com o nome Mike Winkelmann, mas provavelmente já ouviu falar no Beeple, seu pseudônimo como artista digital. Em março, um NFT de sua arte foi vendido por US $ 69 milhões. Essa negociação marcante inseriu de vez artistas como Beeple e os tokens não fungíveis no seio do zeitgeist cultural, tendo sido inclusive inspiração para um vídeo explicativo estilo rap no programa de TV Saturday Night Live. Desde então, os NFTs entraram em um volume explosivo de negociações, gerando mais de US $ 10 bilhões no terceiro trimestre, e diversas marcas e de figuras públicas começaram a competir por uma fatia do hype dos primeiros usuários. Mas, apesar de todo esse hype, a Forrester descobriu, em outubro, que 45% dos adultos que usam internet nos EUA nunca ouviram falar de NFTs. E 28% deles indicaram que ainda não entendem o que NFTs significam. Então, para quem os NFTs têm feito sentido? Geralmente, para colecionadores do sexo masculino e adeptos da criptografia. Um em cada cinco adultos do sexo masculino online nos EUA respondeu que já possui pelo menos um NFT, contra apenas 7% das mulheres adultas online dos EUA.

(Crédito: FooTToo/iStock)

O movimento cada vez maior de marcas se desdobrando para entrar no universo dos NFTs ultrapassa a demanda do consumidor e isso pode estar contaminando a percepção do público em relação aos NFTs. Apenas 12% dos adultos online nos EUA gostariam de ver mais marcas lançando NFTs como brindes, de acordo com a Forrester. Pode-se argumentar que os NFTs já fizeram acrobacias espetaculares, que chamaram a atenção para determinadas marcas e figuras públicas. Mas os NFTs estão apenas em seu estágio inicial experimental, e o valor de longo prazo deve eclipsar a ganância de curto prazo. As marcas que pretendem ir além das manobras superficiais de relações públicas no universo dos NFTs devem oferecer utilidade como uma troca de valor, gerar demanda por meio da escassez e do acesso, além de  co-criar como parte da comunidade aberta do NFT.

Em última análise, os testes e o aprendizado que acontecem hoje com os NFTs estabelecem o roteiro de longo prazo do Metaverso, onde os NFTs farão parte de um contexto maior de propriedade digital. Isso, no entanto, ainda está a anos de distância.

—Mike Proulx, VP e diretor de pesquisa da Forrester

O CULTO DA EFICIÊNCIA

Um dos clichês de nossa obsessão por eficiência é a ideia de que quanto melhor pudermos analisar tendências e prever o futuro, mais eficientes — e, portanto, bem-sucedidos — nos tornaremos. Durante a maior parte da existência humana, pouca coisa mudou. Mas era muito mais fácil prever o futuro, porque ele não era tão diferente do nosso passado e presente. Nas últimas décadas, o ritmo das mudanças aumentou dramaticamente, mas ainda seguiu trajetórias lógicas. Contudo, nosso futuro nunca foi tão opaco, e nosso foco excessivo no poder da previsão e no culto da eficiência, em todas as suas formas, acabou criando um sistema extremamente frágil, que pode facilmente desmoronar em tempos de grande estresse — como agora.

(Crédito: Jeff Gritchen / MediaNews Group / Orange County Register / Getty Images)

Basta que a realidade revele uma pequena divergência em relação às nossas principais previsões coletivas para que os próprios sistemas que construímos com base nelas desmoronem. Vejamos, apenas como exemplo, os nossos problemas “de eficiência” na cadeia de suprimentos. Durante recessões e crises anteriores, os fabricantes ficaram com sobras de itens que simplesmente não conseguiam vender. Consequentemente, na última década houve um esforço concentrado para minimizar o estoque em favor de redes de fornecimento just-in-time, que usam análise preditiva para produzir, enviar e estocar a quantidade exata de produto que atenda à demanda do consumidor. Essa estratégia protege os fabricantes e mantém os custos baixos para os consumidores. Mas bastou alguns pequenos aumentos inesperados no volume de compras, como efeito direto da pandemia global, é claro, para interromper da noite para o dia toda a cadeia de suprimentos gerida virtualmente.

Lembra da escassez de papel higiênico e de desinfetante no início de 2020? Quase dois anos depois, ainda estamos tentando acompanhar a demanda que, entre outros problemas, está contribuindo para níveis elevados de inflação, de acordo com a Federal Reserve. A demanda também contribuiu para a escassez de chips semicondutores, de materiais de construção, de espuma, de alimentos para animais domésticos, de cream cheese e até de pacotes individuais de ketchup Heinz. Derek Thompson, do The Atlantic, chama isso de “Escassez Generalizada”. O que pode ser feito, então? No futuro, as organizações que estabelecerem sistemas para lidar com múltiplas contingências, que priorizam agilidade, adaptabilidade e resiliência em vez de eficiência, serão as únicas remanescentes.

—Jason Schlossberg, diretor administrativo da Huge

REALIDADE VIRTUAL

A realidade virtual e a realidade aumentada (VR e AR) ainda estão lutando para despertar o interesse das massas depois que uma pandemia global prendeu todas as pessoas em suas casas, privando-as de viagens ou de momentos de exploração ao ar livre e as impedindo de ter contato humano em grande escala. Pessoas com condições de pagar US$ 300 por um fone de ouvido tiveram mais motivação do que nunca para usar um artefato tecnológico colado ao rosto.

(Crédito: koya79 / iStock, iStock)

Ainda assim, em 2020 o Nintendo Switch, uma plataforma de videogame com meia década de idade, vendeu mais que headsets de realidade virtual, em uma proporção de quase 3: 1. As vendas de conteúdo de RV representaram 0,5% de todas as vendas de videogame – menos que um erro de arredondamento.

Muitos meses após o início da pandemia, meu filho de 14 anos finalmente se sentiu motivado a experimentar um fone de ouvido da Oculus. A princípio, ele proclamou que aquilo era o futuro e brigou com a irmã para não ter que emprestar o equipamento. Mas depois de mais ou menos uma hora de jogo, ele quase vomitou e foi para a cama cedo, com enxaqueca.

Já ouvi muitas teorias de conspiração malucas sobre a gênese da pandemia, então aqui está outra que é definitivamente fictícia, mas plausível: e se Mark Zuckerberg e Palmer Luckey, tendo tentado de tudo para avançar seus bilhões em investimentos, decidissem trancar toda a humanidade em suas respectivas casas por dois anos? Eu assistiria a uma série baseada nessa premissa.

Realidade virtual e realidade aumentada certamente serão partes marginais de nosso futuro. Mas, por favor, vamos fazer deste o último ciclo de notícias em que superestimamos as tecnologias e os conteúdo feitos para a realidade virtual? Vamos admitir, logo de uma vez, que a RV é a última grande coisa que nunca existiu… e não a próxima?

—Jake Barton, diretor da Local Projects

D2C E “SUSTENTABILIDADE”

A promessa de trabalhar “direto com o consumidor” pode rapidamente se tornar uma armadilha. Como designers na era da crise climática, estamos em conflito constante. Não podemos ignorar que nosso conjunto de habilidades se traduz diretamente na criação de mais coisas; mas se o século passado nos ensinou alguma coisa, é que a busca insaciável da humanidade por conveniência ameaça nos levar à ruína.

Pedimos frascos de sabonete orgânico e eles vêm embrulhados em plástico. Enviamos pacotes cheios de ar para desempacotamentos dignos do TikTok, que duram segundos antes de a embalagem ser jogada no lixo. Compramos uma escova de dentes que promete recargas inteligentes, mas ela quebra e inunda nosso escritório com baterias intermináveis. Caixas, embalagens, fitas, etiquetas, adesivos, poliestireno, plástico bolha. Todos os dias. Chegando em bilhões de portas. Antes de ser atraído pelo próximo objeto brilhante e de adicioná-lo ao carrinho, é hora de parar e pensar.

(Crédito: Auris / iStock, AlessandroPhoto / iStock)

Precisamos nos educar. A análise do ciclo de vida deveria ser tão obrigatória e tão transparente quanto são as informações sobre nutrição presentes nos rótulos dos alimentos. Precisamos reduzir. Devemos criar produtos com menos telas, menos peças e menos embalagens, que percorram menos distâncias. Eles devem ser reparáveis ​​e usar materiais que podem ser reutilizados ou regenerados. Precisamos ser responsáveis. Os produtos não devem ser feitos apenas para reforçar as marcas.

E não, produzir produtos com ética não é algo que sai barato. Mas o custo da elevação do nível do mar, da seca e do clima catastrófico não é barato. A perda diária de habitat e espécies não é barata. Então, por que a sua lâmina de barbear deveria ser tão barata?

—Nichole Rouillac, fundador e diretor criativo da Level

TRABALHO REMOTO / HÍBRIDO

Quero adicionar “trabalho remoto” e “trabalho híbrido” à minha lista de palavras-chave mal interpretadas.

Não é que eu duvide da importância ou da relevância de obter um trabalho remoto e híbrido “sob medida” para um mundo que luta contra as realidades da Covid-19. E não é que eu duvide que o trabalho remoto e o trabalho híbrido são o futuro do trabalho. É que, acima disso tudo, eu acredito que temos nos concentrado e em excesso no aspecto errado do futuro do trabalho. O futuro do trabalho não se resume a experiências de local de trabalho, seja ele remoto ou híbrido.

O futuro do trabalho é o construir locais de trabalho informados sobre o trauma – e essa parte “informada sobre o trauma” é a chave.

(Crédito: Suwinai Sukanant / EyeEm / Getty Images)

Trauma: qualquer evento ou experiência que leva a danos emocionais, físicos, espirituais ou psicológicos, angústia ou deficiência. É isso o que assola o local de trabalho contemporaneamente, e as organizações não tem conseguido abordar e oferecer apoio adequado aos seus funcionários e ao trauma organizacional, que se manifesta de maneiras significativas. Um local de trabalho informado sobre trauma buscaria minimizar e limitar os danos do trauma em um nível organizacional.

Enquanto o mundo continua a cambalear com a destruição e devastação deixadas pela Covid-19, e como as taxas de demissão de funcionários aumentam, as organizações estão ficando aquém da implementação de iniciativas e de estratégias em torno do bem-estar dos funcionários, priorizando a velocidade sobre o a necessidade de entender do que os funcionários realmente precisam. Vimos empresas se aplaudirem publicamente por dar aos funcionários uma semana de folga para lidar com o esgotamento, apesar de evidências e pesquisas sugerirem que uma semana de folga é essencialmente ineficaz. Em uma pesquisa da American Psychological Association de 2018, mais de dois terços dos 1.500 entrevistados relataram como os benefícios mentais das férias haviam desaparecido poucos dias após o retorno ao escritório.

2020 fez muitas pessoas olharem para seus locais de trabalho atuais e perceberem que mereciam algo melhor.

Para que o trabalho remoto e híbrido se torne melhor, as organizações precisam entender que o trauma não é apenas uma questão individual, é organizacional.

Para que o trabalho remoto e híbrido se torne melhor, as organizações precisam manter seus líderes e funcionários responsáveis ​​por como eles impactam a cultura da empresa. Comportamentos inclusivos e autoconsciência precisam ser tratados como problemas de desempenho que afetam os negócios, não como problemas de personalidade que acabam sendo ignorados.

Para que o trabalho remoto e híbrido se torne melhor, as organizações precisam resistir à tentação de colocar o fardo da liderança em iniciativas de base lideradas por voluntários em torno do bem-estar. As empresas precisam investir em apoio externo e experiência em práticas baseadas em traumas e centradas na equidade.

O futuro do trabalho são locais de trabalho informados sobre os traumas, e é hora de nos darmos permissão para priorizar as necessidades da humanidade, e não só da força de trabalho. Só nos conformaremos com muito mais. 

—Vivianne Castillo, fundadora e consultora de cultura e inovação equitativa da HmntyCntrd

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos.