Bebês nascidos no espaço? China estuda reprodução fora da Terra

Estruturas semelhantes a embriões foram enviadas a bordo da estação espacial chinesa e permanecerão cinco dias em órbita baixa da Terra

bebês nascidos no espaço
Créditos: Telescópio Espacial Hubble/ NASA/ Suhyeon Choi/ Unsplash

Chris Morris 4 minutos de leitura

Há uma série de coisas que consideramos naturais aqui no planeta Terra, mas que são um desafio no espaço. O paladar fica enfraquecido. Ir ao banheiro é uma operação que envolve sistemas de vácuo. Dormir também é um desafio, devido à ausência de gravidade e ao nascer do sol a cada 90 minutos.

Mas uma coisa que os cientistas não estudaram de perto, até o momento, é se os seres humanos conseguem se reproduzir fora da Terra. E isso está prestes a mudar.

A China está conduzindo um experimento em sua estação espacial que espera ajudar a evidenciar os riscos associados à concepção em um ambiente de gravidade baixa ou zero. Isso pode gerar informações fundamentais à medida que os esforços de colonização da Lua e de Marte avançam.

O sexo não faz parte dos experimentos chineses: o país não está enviando astronautas a 400 quilômetros de altura para transar.

O que acontece é que estruturas semelhantes a embriões (que não têm a capacidade de se desenvolver além do estágio embrionário), feitas de células-tronco humanas, foram enviadas à estação e passarão cinco dias na órbita baixa da Terra. É nessa fase que ocorre o desenvolvimento inicial após a fertilização e a maioria dos órgãos começa a se formar. 

Anormalidades nesse estágio podem impactar o desenvolvimento de uma pessoa. Os cientistas estão interessados em ver qual impacto a microgravidade terá sobre os embriões, incluindo se ela aumentaria o risco de malformações congênitas.

Uma vez que os cientistas compreendam qualquer impacto potencial, eles poderão trabalhar no desenvolvimento de intervenções que reduzam tais efeitos.

Este não é o primeiro exame sobre a concepção em um ambiente de gravidade zero. Três anos atrás, cientistas japoneses levaram dois embriões de camundongos para a Estação Espacial Internacional, cultivando-os para ver qual impacto o ambiente teria. A resposta: nada digno de nota.

Mas camundongos não são humanos. Por isso, o experimento da China, mesmo utilizando embriões feitos de células-tronco, está chamando mais atenção.

Estação espacial Tiangong, da China
Estação espacial Tiangong (Crédito: Escritório de Engenharia Espacial da China)

Até poucos anos atrás, esse tipo de estudo não poderia ter sido feito, pois existiam acordos internacionais que limitavam o estudo de embriões humanos in vitro a 14 dias. Em 2021, no entanto, a Sociedade Internacional de Pesquisa com Células-Tronco flexibilizou essa restrição, desde que a equipe passasse por uma revisão ética.

As amostras testadas foram formadas na noite anterior ao lançamento e entregues à agência espacial 12 horas antes da decolagem. Ao final do período de teste de cinco dias, elas serão congeladas e devolvidas à Terra para análise.

As amostras de embriões artificiais incluem dois tipos de modelos: um cultivado sobre células uterinas e outro colocado dentro de um chip microfluídico. O objetivo é entender como o ambiente de microgravidade no espaço afeta o desenvolvimento embrionário humano inicial. 

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Ao mesmo tempo, amostras idênticas estão sendo estudadas em laboratórios na Terra. 

"Esperamos que, ao comparar o desenvolvimento das amostras do espaço e da Terra, possamos identificar os fatores que afetam o crescimento embrionário humano inicial no ambiente espacial e abordar os riscos e desafios que os humanos podem enfrentar durante a habitação espacial de longo prazo", disse em um comunicado Yu Leqian, líder do projeto.

SEXO NO ESPAÇO

Embora o estudo seja um passo importante, a microgravidade pode apresentar outras barreiras para a concepção em outros planetas. Até o momento, nenhum astronauta admitiu ter feito sexo no espaço. Mas quando se trata de "dar uma escapada" nas estrelas, a ciência indica que será muito mais complicado do que é na Terra.

A terceira lei de movimento de Newton, por exemplo, diz que se você exerce uma força sobre uma pessoa, essa pessoa exercerá uma força igual e oposta sobre você. Portanto, qualquer impulso empurraria os parceiros para longe.

Para fazer sexo em gravidade zero, seria preciso contar com algum tipo de contenção, que poderia variar de um saco de dormir para casais até tiras elásticas.

ferilização in vitro
Crédito: Luis Molina/ iStock

O sangue também tende a se acumular na cabeça em um ambiente de micro ou gravidade zero, o que poderia tornar o ato físico do sexo um desafio. E o suor não escorre pelo corpo no espaço. Ele gruda na pele e se acumula, às vezes se desprendendo em bolhas. Um verdadeiro corta-clima.

Mesmo se o bebê for concebido e a gestação levada até o fim, há um mundo de perguntas sobre o que vem a seguir.

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"Não sabemos sequer como bebês nascidos no espaço iriam se desenvolver", apontou em um painel realizado em 2017 Kris Lehnhardt, então professor assistente de medicina de emergência na Faculdade de Medicina da Universidade George Washington e professor adjunto na Universidade Espacial Internacional. 

"Eles desenvolveriam os ossos da mesma forma que nós?", perguntou ele. "Será que algum dia seriam capazes de vir à Terra e realmente ficar de pé?" Os experimentos da China podem ser o primeiro passo para encontrar essas respostas.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais