Cientistas transformam garrafa PET em biscoito (e juram que não tem gosto de plástico)
Pesquisadores usam leveduras geneticamente modificadas para virar plástico e resto de plantação em comida; ninguém provou ainda, mas o projeto já tem aval da NASA

Você já deve ter ouvido alguém brincar que salgadinho ultraprocessado “tem gosto de isopor”. Um grupo de cientistas nos Estados Unidos resolveu levar a comparação um pouco mais a sério — e com mais rigor. Em vez de fingir que a comida industrializada tem plástico, eles pegaram plástico de verdade e o transformaram em comida.
O resultado se chama µBites, nome pronunciado como microbites. Entram na massa o PET usado em garrafas de água e refrigerante e resíduos agrícolas, como talos e folhas de milho que sobram da colheita.
POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO
O mundo produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano. Uma fração pequena desse material é efetivamente reciclada. Grande parte do restante termina em aterros, é incinerada ou escapa para o meio ambiente, incluindo os oceanos.
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Ao mesmo tempo, a fome segue sendo um problema global, não um capítulo encerrado. Segundo o relatório de 2026 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, cerca de 2,1 bilhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave em 2025, enquanto 645 milhões enfrentaram a fome. A demanda global por alimentos, por sua vez, pode crescer entre 35% e 56% até 2050.
Foi tentando furar esse nó que pesquisadores da Southern Illinois University Carbondale chegaram a uma pergunta que soa estranha à primeira vista: por que não tratar o plástico como matéria-prima para produzir alimentos? Quimicamente, uma garrafa e um biscoito têm mais em comum do que parece. Ambos contêm carbono, embora organizado em estruturas diferentes.
COMO UMA GARRAFA VIRA COMIDA
O processo começa longe da cozinha. O plástico e a biomassa passam por um método batizado de dissolução hidrotérmica oxidativa. Água, oxigênio, calor e pressão quebram esses materiais em moléculas pequenas o bastante para serem processadas por microrganismos.
Depois entram leveduras geneticamente modificadas, incluindo uma variedade da mesma espécie usada no fermento biológico. Programadas para se alimentar desses fragmentos, elas produzem proteínas, gorduras e ácidos orgânicos.
A lógica não é inédita. Microrganismos são usados há décadas como pequenas fábricas biológicas. A insulina usada no tratamento do diabetes, por exemplo, também pode ser produzida por leveduras programadas para fabricar moléculas específicas.
Uma das cepas desenvolvidas pela equipe produz aroma de baunilha a partir da biomassa vegetal. Outra transforma o etilenoglicol, um dos produtos da decomposição do PET, em betacaroteno, que o organismo pode converter em vitamina A. A mistura final recebe fibra, amido e adoçante, passa por uma impressora 3D e vai ao micro-ondas.
“Microrganismos são muito espertos. Estamos usando as características deles para resolver problemas que nós mesmos criamos.”
A afirmação é de Lahiru Jayakody, professor associado da SIU que lidera a pesquisa. Os resultados foram apresentados no fim de agosto, em Chicago, durante o encontro de 2026 da American Chemical Society (ACS).
QUEM PEDIU ESSE BISCOITO?
A transformação do plástico em comida surgiu dentro do Deep Space Food Challenge, da NASA. O desafio buscava novas tecnologias para alimentar astronautas em missões espaciais longas, nas quais produzir, armazenar e reabastecer alimentos é especialmente difícil.
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O público pensado para os µBites não é você, no supermercado. É um astronauta a caminho de Marte; alguém em uma zona de desastre; uma tripulação dentro de um submarino; ou qualquer pessoa em um lugar remoto onde o recurso disponível seja, literalmente, lixo rico em carbono.
O QUE AINDA FALTA SABER
As análises conduzidas pela equipe indicam que o biscoito é seguro para consumo. Nos testes de aroma, ele recebeu boas avaliações e foi considerado semelhante a um biscoito convencional. Ninguém, porém, provou um µBite: os pesquisadores ainda aguardam aprovação institucional para realizar testes de sabor em humanos.
Também não é barato. Produzir um quilo custa hoje cerca de US$ 60. Os pesquisadores esperam que ganhos de eficiência e escala reduzam esse valor no futuro. Isso ainda não aconteceu.
Nem todo mundo acredita que vá acontecer. Em entrevista à New Scientist, Jason Hallett, professor do Imperial College London, contestou a possibilidade de a tecnologia resolver a crise que a inspirou. O mundo produz centenas de milhões de toneladas de plástico por ano — e não existe escala de biscoito capaz de absorver todo esse volume.
MAS SERÁ QUE É GOSTOSO?
Ninguém sabe responder ainda, nem os próprios pesquisadores. E fica no ar uma pergunta maior: o futuro que a ciência está desenhando aqui é o futuro que queremos? Devemos comer o problema que criamos em vez de parar de criá-lo?
Por enquanto, o µBite é a prova de que a transformação é possível. Se deveria virar rotina é outra conversa — e uma que a ciência, sozinha, não resolve.