Ao longo de décadas, a CES (Consumer Electronics Show) se firmou como o epicentro da futurologia tecnológica: robôs autônomos, telas com definições impressionantes, gadgets inteligentes e carros até então inconcebíveis para a imaginação humana aparecem ali, diante dos olhos de quem comparece a feira de Las Vegas. Nesta edição de 2021, porém, o evento que apresenta o avant-garde da tecnologia sofreu alterações: a pandemia obrigou a feira a migrar, pela primeira vez, para o online e impactou não somente a experiência, mas também as inovações e debates apresentados durante a feira.

Temas comumente discutidos na CES – como 5G, smart cities e inteligência artificial – seguem relevantes, mas mesmo as maiores empresas de tecnologia do mundo foram pegas de surpresa pela Covid-19 e precisaram reimaginar seus negócios, desenvolver produtos e serviços capazes de suprir as necessidades do agora e de um futuro ainda incerto. Resolver a rotina das pessoas trabalhando e vivendo em casa, assim como tomar ações sustentáveis concretas foram a tônica desta CES.

Com o mote “A Better Normal for All” (um normal melhor para todos), a apresentação da Samsung na feira refletiu as mudanças no estilo de vida das pessoas e as ressignificações do lar. Com foco na sustentabilidade e na acessibilidade, a empresa simplificou suas embalagens com o intuito de reduzir recursos de tinta e está promovendo a reutilização das caixas dos produtos. O consumidor pode acessar um site e encontrar dicas sobre como transformar a embalagem numa casa para o pet ou em uma estante de livros, por exemplo. “Evitamos o descarte de lixo, mas também conscientizamos o consumidor sobre a importância da reciclagem”, comenta Érico Traldi, diretor de TV e áudio da Samsung Brasil.

Também mirando um futuro mais sustentável, a Samsung lançará, ainda este ano, um controle remoto composto quase que inteiramente por plástico reciclado (substituindo o plástico de resina) e sem pilhas: o objeto poderá ser recarregado com luz solar ou artificial. Para o executivo, essas novidades saem um pouco do cenário de cidades do futuro para responder a questões sobre cuidado pessoal e com o planeta. “Na CES, sempre vislumbramos o futuro. Desta vez, levamos o futuro para dentro de casa. Como empresa de tecnologia, temos essa missão de empoderar pessoas e trazer a tecnologia como facilitadora”, afirma Érico. Aspiradores e geladeiras inteligentes, assim como um gadget que ajuda as pessoas a terem um sono melhor, compõem o combo da empresa coreana para rotinas mais agradáveis dentro de casa.

Crédito: O Jet Bot 90 AI, da Samsung (Crédito: Samsung)

Na CES 2020 (um dos poucos eventos que escapou do adiamento ou cancelamento naquele ano), a Toyota anunciou a criação da cidade do futuro, a Woven City. A ideia era fazer um laboratório vivo, fazendo os moradores testarem tecnologias feitas para tarefas do dia a dia e para a mobilidade urbana. Uma das ideias mais populares de planejamento urbano no ano passado foi a das “cidades de 15 minutos”, que está sendo implantado em escala nacional na Suécia. Para Tallita Alves, diretora de planejamento da denstumcgarrybowen e do Mamalab, o conceito de espaços urbanos nos quais as pessoas levem pouco tempo de deslocamento dialogam muito com este momento e foram levados a CES. “Não se resume a uma tendência de smart cities, mas de entender o sentimento de insegurança e incerteza das pessoas”, explica. O estudo da Carat,  empresa da dentsu International, sobre tendências para 2021, o famoso “FOMO” (Fear of Missing Out), cedeu lugar para o “FOGO”  (Fear of Going Out, medo de sair), comportamento que tem estimulado as marcas a produzirem produtos e serviços “remote-first”.

PENSAMENTO DE ECOSSISTEMA

Estão previstas para este ano linhas de TV da Samsung que facilitam tanto a realização de videoconferências, plugando teclados bluetooth e câmeras USB, quanto melhores experiências para os aficionados em games. Esse movimento “integrador” da Samsung vem na esteira da estratégia lançada por outras empresas, como a Apple, que no ano passado anunciou o Apple One, pacote de assinatura com vários serviços, com o intuito de unificar a experiência em todos os devices conectados para toda a família. O conceito, chamado de rundle ou bundle, já acontece quando a pessoa compra um smartphone e ganha um óculos de realidade virtual da mesma marca, por exemplo. No entanto, essa é uma estratégia que deve ganhar ainda mais força em um contexto no qual o asset das empresas não é mais necessariamente um produto, mas uma experiência.

Crédito: Neo QLed  Lifestyle, controle remoto recarregável com luz artificial ou solar (Crédito: Samsung)

“É um pensamento de ecossistema que propõe uma jornada invisível ao consumidor. Por isso a Amazon, que é um grande e-commerce, tem a Twitch, streaming de games”, diz Tallita.

COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR

Durante a CES, a GM (General Motors) lançou o manifesto “Everybody In”, que tira o foco da tecnologia como sendo o driver de transformações e coloca o foco na inclusão e na sustentabilidade. De acordo com Hermann Mahnke é diretor executivo de marketing da GM América do Sul, o posicionamento é resultado do momento de inflexão provocado pela pandemia e recentes acontecimentos sociais, como os protestos antirrascistas nos EUA e no Brasil. “Existe um compromisso que vai além do produto. Queremos todo mundo dentro de um carro conectado e queremos ser a empresa mais inclusiva do mundo”, afirma. No evento, a companhia lançou a marca Periscope, que, entre outras áreas, atuará na prevenção de acidentes por meio de veículos equipados com um sistema que rastreia, por exemplo, se o motorista está sem cinto de segurança. Também foi anunciada uma parceria da montadora com a FeDex Express para entregas expressas.

A experiência do e-commerce, naturalmente, ganhou bastante espaço na CES. Concorrente direta da Amazon, a BestBuy foi uma das empresas que compartilhou aprendizados com a pandemia. A CEO Corie Barry disse que a companhia, há pouco mais de um ano, dobrou investimentos em mecanismos que melhorassem a experiência de compra online, já prevendo um aumento nas vendas em 2020. Segundo ela, somente no terceiro trimestre do ano passado, as compras online subiram 175% e 40% das pessoas preferiram retirar os produtos na loja ou no drive-thru. “Essa flexibilidade que a BestBuy já tinha ajudou a companhia a crescer durante a pandemia. É interessante ver muitas empresas e a própria CES se reinventando pela necessidade imediata e não por algo planejado”, comenta Daniel Kiefer Alonso, head de commerce da IBM iX Brasil.

Para o executivo, os desafios logísticos são o principal entrave das grandes empresas nos próximos meses, pois muito dinheiro ainda se perde na construção de um sistema eficiente e escalável. Ele cita, por exemplo, a necessidade de integração entre montadoras e concessionárias no canal online, que precisa ganhar tração.

FUTUROS POSSÍVEIS E IMPOSSÍVEIS

A GM, que assim como outras marcas automobilísticas costumam ser destaque na CES, graças aos modelos de carro ultra-futuristas – neste ano apresentou um modelo de Cadillac voador autônomo – se valeu da CES 2021 para materializar algumas metas apresentadas dois anos atrás: a de um futuro com zero emissões, zero congestionamento e zero acidentes. De acordo com Mahnke, a feira vem ganhando cada vez mais relevância para a história que a companhia quer contar, já que o carro enquanto objeto de deslocamento tornou-se um adicional ao ecossistema que a empresa está construindo. “A língua da CES hoje faz muito mais sentido para GM do que a do Salão do Automóvel tradicional. E essa transformação vem ocorrendo não somente com a gente”, afirma.

O Cadillac eVTOL, táxi elétrico, autônomo e voador (Crédito: GM) 

O que há dois anos era uma visão mais abstrata, hoje é uma realidade: durante o evento, a presidente da companhia, Mary Barra, anunciou o investimento de US$ 27 bilhões de dólares em carros elétricos no lançamento de 30 modelos desta categoria até 2025. Diferentemente de lançamentos em anos anteriores, concentrados em marcas específicas da companhia, como Chevrolet e Buick, a GM quis enfatizar a transformação da marca-mãe. Uma das prioridades imediatas é a produção de baterias modulares, com menos cobalto, que atendam a modelos de carros variados, de compactos a picapes, e que serão capazes de equiparar o preço de elétricos aos veículos de combustão. No segundo semestre, a picape GMC Hammer elétrica chega ao mercado.

Por outro lado, drones tripulados e Cadillac voadores, também apresentados pela GM neste ano, são um pouco mais distantes do que gadgets para a casa. Para Mahnke, ainda assim, esses produtos têm a importante função de materializar um conceito e abrir a cabeça de usuários e desenvolvedores para possibilidades que serão, sim, concretizáveis em algum momento. Tallita, da dentsumcgarrybowen, concorda. “Além de ser uma marca da CES, o olhar sobre o totalmente diferente é saudável para inspirar. O entretenimento faz isso muito bem, então por que uma conferência não pode oferecer isso? O capital do evento é continuar reimaginando o futuro”, diz.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.