China barra aquisição de startup de IA pela Meta e eleva tensão tecnológica
A Meta havia anunciado em dezembro a compra da Manus, mas o caso ainda estava em análise pelo governo chinês, que barrou a aquisição

A China bloqueou nesta segunda-feira (27 de abril) a aquisição da startup de inteligência artificial Manus pela gigante norte-americana de tecnologia Meta. O inesperado movimento reverte um acordo que, aparentemente, despertou preocupações em Pequim sobre a transferência de tecnologia avançada.
Em um comunicado de apenas uma linha, o principal órgão de planejamento do país, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China, informou que está proibindo a aquisição da Manus e exigiu que todas as partes se retirassem do negócio. O texto não cita diretamente a Meta Platforms, dona do Facebook e do Instagram.
A Manus, que tem raízes chinesas, mas sede em Cingapura, oferece um agente de IA de uso geral capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma, como programar um aplicativo, realizar pesquisas de mercado ou preparar orçamentos trimestrais.
Segundo o comunicado, a decisão foi tomada pelo escritório responsável pelo mecanismo de revisão de segurança de investimentos estrangeiros, em conformidade com as leis e regulações chinesas. O anúncio vem após autoridades do país afirmarem, no início do ano, que estavam analisando o acordo.
A comissão não detalhou os motivos da proibição. A decisão foi divulgada menos de um mês antes da visita planejada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Pequim, onde deve se reunir com o líder chinês Xi Jinping, em maio.
Kush Desai, porta-voz da Casa Branca, afirmou em comunicado que o governo Trump “continuará defendendo o setor tecnológico inovador e líder dos Estados Unidos contra interferências estrangeiras indevidas de qualquer tipo”.
POR QUE A META QUER COMPRAR A MANUS
A Meta anunciou em dezembro a compra da Manus, caso raro de uma grande empresa de tecnologia dos EUA comprando uma companhia de IA com fortes vínculos com a China. A expectativa era que o negócio ajudasse a ampliar as ofertas de IA em suas plataformas.
A empresa havia declarado que “não haveria participação de propriedade chinesa na Manus” e que a startup encerraria seus serviços e operações na China. Ainda assim, Pequim afirmou em janeiro que investigaria se a aquisição estava em conformidade com suas leis e regulamentações.

Na ocasião, o Ministério do Comércio chinês destacou que empresas envolvidas em investimentos no exterior, exportação de tecnologia, transferência de dados e aquisições transnacionais devem seguir a legislação do país. A Meta informou que a maioria dos funcionários da Manus está baseada em Cingapura.
Antes do acordo, a controladora da Manus era a Butterfly Effect Pte., também sediada em Cingapura. Ainda assim, a startup tem origem em entidades registradas em Pequim com nomes semelhantes, criadas anos antes.
A Manus não respondeu aos pedidos de comentário. Em seu site, a empresa afirma que “agora faz parte da Meta”, sugerindo que o acordo já havia sido concluído. Já a Meta afirmou que a transação “cumpriu integralmente a legislação aplicável”. “Esperamos uma resolução adequada para a investigação”, disse a empresa em nota.
A CORRIDA DOS AGENTES DE IA
Analistas avaliam que a decisão sinaliza um endurecimento do escrutínio da China sobre o setor de IA, em meio à crescente rivalidade geopolítica com os EUA pela liderança tecnológica.
“A China está mostrando ao mundo que está disposta a jogar duro quando se trata de talentos e capacidades em IA, que o país considera um ativo central de segurança nacional”, afirmou Lian Jye Su, analista-chefe do grupo de pesquisa e consultoria em tecnologia Omdia.
A Manus oferece um agente de IA de uso geral capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma.
Segundo ele, isso é uma forte indicação sobre o que as autoridades chinesas podem fazer daqui para frente em relação a aquisições envolvendo empresas de deep tech com origem no país.
Na análise de Jye Su, a proibição pode desencorajar planos semelhantes de aquisição por gigantes norte-americanas de tecnologia. “No contexto da rivalidade, isso espelha os controles de exportação, listas de entidades e restrições a investimentos que os EUA impõem à China”, disse.
O interesse da Meta pela Manus reflete uma corrida mais ampla do setor de tecnologia para liderar o desenvolvimento de agentes de IA – sistemas que vão além dos chatbots e conseguem executar ações em computadores em nome dos usuários.
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No mês passado, a Meta também adquiriu a Moltbook, que viralizou como uma rede social criada para que agentes de IA publiquem conteúdos e interajam entre si.
O movimento ocorreu após a OpenAI, criadora do ChatGPT, contratar o criador do agente de IA OpenClaw – anteriormente chamado Moltbot –, tecnologia que deu origem à própria Moltbook.
Com a colaboração de Matt O’Brien e Didi Tang