A Lua tem energia para sustentar megacidades. O problema é a água
Carros na Lua? Entenda como a NASA planeja usar veículos em missões lunares

Colônias na Lua alimentam a ficção científica há décadas. Agora, governos e empresas privadas disputam espaço para transformar esse sonho extraplanetário em realidade.
O principal obstáculo é menos cinematográfico. Assim como nas melhores histórias de ficção científica sobre humanos no espaço, o sucesso dependerá do trabalho cotidiano de administrar recursos.
Na Lua, a água será um desses recursos vitais — e sua escassez torna a questão ainda mais importante. A NASA descreve o satélite como “100 vezes mais seco que o Saara”. Por outro lado, a confirmação da existência de água congelada em regiões permanentemente sombreadas alimentou a esperança de que futuros exploradores possam aproveitar essas reservas.
Esses depósitos ocultos de gelo serão essenciais para qualquer atividade humana na Lua. Segundo especialistas, porém, o volume conhecido ainda não seria suficiente para construir verdadeiras metrópoles lunares.
Leia também: Em 2046, a humanidade chegou a Marte numa sexta-feira
Em um estudo publicado na revista científica Frontiers in Space Technologies, Martin Elvis, astrônomo do Smithsonian Astrophysical Observatory, e Jonathan McDowell, analista de sustentabilidade espacial, calcularam o que seria necessário para manter uma civilização humana de grande escala na Lua.
ÁGUA POR TODA PARTE, MAS NÃO POR MUITO TEMPO
Os pesquisadores adotaram como ponto de partida uma estimativa generosa de 1 bilhão de toneladas de água, muito acima dos cálculos atuais sobre as reservas de gelo lunar.
Esse volume seria suficiente para cobrir uma área do tamanho do Central Park, em Nova York, com uma camada de água mais alta que a Estátua da Liberdade. A questão é por quanto tempo essa quantidade sustentaria a humanidade.
Leia também: Carros na Lua? Entenda como a NASA planeja usar veículos em missões lunares
Qualquer assentamento humano na Lua exigirá grandes volumes de água doce.
“O uso de água por uma cidade lunar atenderá a diversas necessidades: consumo pessoal para beber e cuidarda higiene, cultivo de alimentos, combustível de foguetes e, ao contrário do que ocorre na Terra, respiração”, escreveram os pesquisadores. “Todas essas atividades humanas necessariamente acontecerão em um ambiente construído, devido à ausência de uma atmosfera substancial” na Lua.
A água parece impor um limite de algumas centenas de milhares de pessoas à população lunar de longo prazo
Parte dessa água poderia ser reciclada com as tecnologias atuais, mas não toda. Até 2023, o sistema de reciclagem de água da Estação Espacial Internacional conseguia reaproveitar 94% do volume que passava por ele.
“Com esse nível de eficiência, 1 bilhão de toneladas de água se esgotaria em 40 anos para uma população de 1 milhão de pessoas”, observaram os pesquisadores.
Depois de 2023, a eficiência do sistema da Estação Espacial Internacional aumentou para 98% graças a um equipamento que extrai mais água da salmoura altamente concentrada proveniente da urina. Com essa tecnologia, uma colônia lunar com 1 bilhão de toneladas de água levaria cerca de 100 anos para esgotar as reservas. Ainda assim, existem ressalvas.
OS LIMITES DE UMA CIDADE NA LUA
Uma futura colônia lunar dificilmente teria a mesma eficiência da Estação Espacial Internacional. Um assentamento permanente precisaria atender a demandas de longo prazo, como lavagem de roupas, banhos e vasos sanitários adaptados à gravidade da Lua, equivalente a aproximadamente um sexto da terrestre.
Astronautas toleram a falta de comodidades durante estadias de seis meses na estação espacial. Uma colônia, por sua vez, precisaria sustentar seres humanos por décadas ou gerações.

“Para um investimento tão grande, uma vida útil de aproximadamente um século parece insuficiente para o assentamento sustentável e duradouro fora da Terra defendido por algumas pessoas”, escreveram os astrônomos. “Uma cidade pequena, com 100 mil habitantes, levaria mil anos para consumir toda a água.”
Uma cidade com 1 milhão de habitantes consumiria suas reservas com relativa rapidez. Reduzir a escala de uma civilização lunar do tamanho de Austin para algo mais próximo de Albany, no estado de Nova York, tornaria os cálculos mais favoráveis à colonização de longo prazo.
“A água parece impor um limite de algumas centenas de milhares de pessoas à população lunar de longo prazo”, concluíram os pesquisadores.
COMO SUPERAR A ESCASSEZ DE ÁGUA
Existem algumas maneiras de contornar esse limite. A mais evidente seria um novo salto na tecnologia de reciclagem. Os pesquisadores alertam, porém, que o avanço necessário seria “difícil de alcançar e manter, mesmo para uma população disciplinada e motivada”.
Para que uma cidade de 1 milhão de habitantes se sustente por mil anos com a estimativa já generosa das reservas lunares, o sistema de reciclagem precisaria ser 10 vezes mais eficiente que o utilizado atualmente na Estação Espacial Internacional.
Técnicas como agricultura vertical e uma alimentação com pouca ou nenhuma carne também poderiam reduzir substancialmente o consumo. Outra possibilidade seria transportar água de outros locais até a colônia, solução que dependeria de uma enorme operação logística e da existência de asteroides próximos ricos em água congelada.
A última alternativa — a mais ambiciosa — seria encontrar na própria Lua uma reserva de água ainda desconhecida.

Qualquer plano de construir uma cidade lunar exigirá planejamento e uma gestão cuidadosa do gelo cuja existência já foi confirmada.
“A humanidade precisará planejar, administrar e regulamentar o uso da água lunar, em vez de adotar uma abordagem de ‘quem chegar primeiro leva’, com extração e utilização sem controle”, escreveram os pesquisadores.
“Se a população lunar crescer para além de 100 mil pessoas, a gestão da água será crítica e desafiadora. Precisamos avaliar as alternativas com bastante antecedência.”