POR NICOLE LAPORTE

Em uma tarde de domingo em Seul, em outubro passado, a banda BTS, sensação do K-pop, subiu ao palco em frente a centenas de milhões de fãs para seu último show, Permission to Dance Onstage. Mas o público que apareceu para assistir aos sete integrantes cantando e dançando não estava no estádio onde o grupo se apresentou. Eles estavam em suas casas, distribuídos em dezenas de países ao redor do mundo, assistindo ao evento ao vivo de seus telefones, laptops e computadores.

A experiência dos fãs não foi nem de longe fria ou passiva, como se poderia pensar. A paixão pela boy band sul-coreana era demonstrada a todo momento por meio de chuvas de corações e fogos de artifício subindo na tela, de palmas virtuais enviados por um “botão de aplauso” e de comentários intermináveis em um chat ao vivo, onde pessoas de todo o mundo reagiam com elogios e emojis. Antes de a bandavoltar ao palco para o bis, os fãs gritavam “BTS”, digitando as três letras repetidamente na caixa de comentários. O formato de várias telas do programa permitia ao espectador escolher se concentrar em artistas individuaisou desfrutar de ângulos mais abertos, para ter uma visão mais ampla da coreografia sincronizada do grupo.

De acordo com a HYBE, a agência que faz a gestão da BTS, o show reuniu espectadores de 197 países. A HYBE não revelou quantos espectadores o show reuniu, mas um show semelhante do BTS que ocorreu no final de 2020 havia atraído quase um milhão de espectadores ao redor do mundo. E o que é ainda mais impressionante: os dois shows foram transmitidos sem nenhuma grande falha, apesar do enorme volume de transmissões simultâneas durante as exibições e apesar dos níveis variáveis de velocidade da internet dos espectadores em diferentes lugares.

Os programas usados foram disponibilizados pela Kiswe, a empresa de tecnologia de streaming em nuvem que passou quase uma década aperfeiçoando sua plataforma e suas ferramentas de streaming ao vivo, além de refletir profundamente sobre o que os fãs esperam de suas experiências virtuais. De acordo com o CEO da Kiswe, Mike Schabel, o processo envolveu muita ansiedade.

“A Live, de verdade, traz um nível de ansiedade diferente dos VOD [vídeo sob demanda]”, compara ele.

“Porque com o VOD, que é a opção de muitos, você pode testar e testar e testar. Mas quando você trabalha com o ao vivo, é tudo para valer. E nós ainda nos comprometemos em grande escala a atender uma audiência que tem expectativas muito altas de ter uma experiência incrível ao assistir à sua banda. Queremos proporcionar isso.”

TÃO “VIDA REAL” QUANTO POSSÍVEL

Fundada em 2013, a Kiswe oferece uma plataforma de vídeo interativa pronta para uso para empresas de entretenimento e detentores de direitos de mídia – na prática, para qualquer pessoa que queira transformar um evento ao vivo em uma experiência digital com o objetivo de se sentir o mais próximo possível da vida real. A Kiswe oferece aos parceiros as ferramentas para transmitir seus eventos, bem como para lidar com ingressos, gerenciamento de pirataria e ferramentas personalizadas de engajamento de fãs. A plataforma evoluiu para ser capaz de transmitir para audiências gigantes em qualidade 4K, um processo que envolve luzes e ações em movimento rápido e que renderiza tudo em um fluxo de vídeo preciso e de alta resolução.

Além do show do BTS, a Kiswe ofereceu programas para performances de Justin Bieber e do Culture Club, e fez parceria com ligas esportivas como PGA e FIFA, para transmitir jogos ao vivo. Durante a pandemia, quando a NBA estava jogando para arquibancadas vazias, a Kiswe transmitiu jogos ao vivo, aquecimentos pré-jogo e programas de intervalo. Todos esses eventos virtuais são construídos priorizando os fãs, com o objetivo de “fazer com que eles se sintam ouvidos”, diz Schabel, “e de oferecer a eles as ferramentas com as quais possam participar”.

“O público que assiste de casa é muito apaixonado”, continua ele. “Eles podem estar gritando, eles podem estar berrando para a TV. Mas se ninguém os ouve, eles não sentem que isso faz diferença. Se você não é ouvido, você se sente como um fantasma.”

Essa percepção levou ao desenvolvimento de uma série de recursos que a Kiswe incorporou em sua plataforma ao longo dos anos, incluindo o feed de bate-papo e o botão de aplauso. “Pense nisso como um botão de palmas”, diz Schabel. “Você pressiona aquele botão e nós o colocamos em cena ou o renderizamos um mapa global ao vivo, mostrando a torcida do público ao redor do mundo com o volume de torcida baseado no número de pessoas assistindo.

“Uma coisa é você ficar sentado em sua sala assistindo à sua tela. Outra coisa é quando você percebe que faz parte de um coletivo de pessoas em 200 países, sentindo ao mesmo tempo. De repente, aquilo se torna um evento global.”

Os artistas também se envolvem na virtualidade do evento. Schabel lembra que durante o show do Culture Club, em novembro de 2020, Boy George e a banda “sabiam que se tratava de uma apresentação para um público digital, um público remoto. Membros da banda receberam dispositivos e pularam no bate-papo da audiência digital e até responderam aos fãs”.

Para seus canais de esportes, a Kiswe também introduziu um botão que permite aos espectadores fazerem selfies de cinco segundos e compartilhá-los com o resto do público. Os vídeos são enviados para a Kiswe que, então, os modera (o conteúdo impróprio é vetado) e os transmite de volta para por meio do que Schabel chama de “câmera de fã”. A ideia da inovação surgiu durante a pandemia, quando algumas ligas esportivas permitiam que um número limitado de torcedores se sentasse, socialmente distanciado, em arquibancadas. “Se você tiver 50 pessoas que precisam ficar sentadas ali por duas horas diante das câmeras, percebemos que isso não é inclusivo”, diz Schabel. “Se temos um milhão de pessoas assistindo, um milhão de pessoas querem aparecer e ser vistas. Como fazemos isso?”

Com a pandemia diminuindo, Schabel continua confiante de que ainda haverá um grande apetite por programas comunitários virtuais, especialmente quando os fãs têm a oportunidade de se envolver. “O Dia de Ação de Graças está chegando”, lembra ele. “Logo você vai estar com todo mundo assistindo aos vários jogos de futebol. Dê uma olhada ao redor da sala e repare em quantas pessoas estão realmente assistindo ao jogo em vez de fazer todo o resto em seus telefones” – como postar comentários sobre o jogo nas redes sociais ou conversar com amigos sobre ele.

“Então, acho que o que estamos fazendo é capturar a imaginação de tantas pessoas que foram deixados poltrona, que ficaram de lado e não foram ouvidos. É uma demanda reprimida.”

SOBRE A AUTORA

Nicole LaPorte é redatora sênior da Fast Company em LA. Ela escreve sobre os cruzamentos entre a
tecnologia e o entretenimento. Anteriormente, ela foi colunista do The New York Times e redatora da
Newsweek / The Daily Beast e da Variety More