POR MICK MCCONNELL

As Big Techs estão vivendo uma fase dramática.

Parece que os líderes das gigantes de tecnologia passam a maior parte do tempo pelejando na Justiça Federal ou  — no caso de Jeff Bezos e Elon Musk, especialmente — tentando lançar um foguete em órbita baixa, provocando um frenesi no processo. Adicione Richard Branson à mistura e o resultado é a corrida espacial dos bilionários, um jogo movido tanto por foguetes e dólares quanto por narcisismo.

“Embora a Microsoft tenha evitado o colapso de seus negócios, a Big Tech perdeu (…) o advento do mobile software, das redes sociais e dos sites de busca na década seguinte, ficando atrás de rivais (…) como o Google”

Mas peripécias dignas de furos jornalísticos não sustentam uma marca a longo prazo.  Basta olhar para a Microsoft, que tem sido mais discreta ultimamente — em comparação com Amazon, Tesla, Apple e Facebook — à medida que os preços de suas ações saltaram mais de 600% desde 2014. Enquanto seus concorrentes mais barulhentos são escrutinados no Congresso e na mídia, a Microsoft silenciosamente consolidou um nicho nos serviços de nuvem, software, e hardware, voltando para o topo da indústria de tecnologia. Em junho, apesar das variadas críticas ao Windows 11, a Microsoft tornou-se a segunda empresa norte-americana de capital aberto na história a atingir uma capitalização de mercado de mais de US$ 2 trilhões.

Certos fatores de curto prazo contribuíram para o crescimento da empresa. O mercado de PCs cresceu mais de 10% em 2020, à medida que mais pessoas compraram notebooks para se entreter durante a pandemia. A Microsoft também teve sucesso com dispositivos Surface, complementos para XBox e serviços de nuvem. De acordo com a marca, o segmento de Intelligent Cloud faturou, sozinho, US$ 48 bilhões em 2020. 

Mas existem outras razões para explicar a ascensão da Microsoft, além do benefício da maturidade digital. A empresa certamente olha para as polêmicas constantes que envolvem Amazon, Google, Apple, e Facebook, estremece e pensa: “Nunca mais”. 

É importante relembrar que quando navegadores como Netscape ganharam importância na década de 1990, a Microsoft correu para desenvolver seu próprio produto, o Internet Explorer, e o incorporou ao software Windows. Isso levou a uma esmagadora ação antitruste, movida em 1998 pelo governo dos EUA. Um juiz federal considerou a empresa culpada em 2000.

O tribunal ordenou o desmembramento da Microsoft como solução. O negócio seria dividido em duas unidades separadas, uma para produzir o sistema operacional e outra para produzir outros componentes de software. A empresa apelou da decisão — e venceu. Mas embora a Microsoft tenha evitado o colapso de seus negócios, a Big Tech perdeu, em grande parte, o advento do mobile software, das redes sociais e dos sites de busca na década seguinte, ficando atrás de rivais mais novos, como o Google, e outros mais ágeis, como a Apple.

“Enquanto seus concorrentes estão decolando na justiça e em naves espaciais, a Microsoft está colhendo os frutos de uma estratégia de marca em andamento há 20 anos”

A Microsoft corria o risco de ficar para trás na corrida tecnológica, e fez apostas arriscadas: uma oferta fracassada pelo Yahoo, um contrato de US$ 500 milhões com a Viacom para compartilhamento de conteúdo, e o lançamento de curta duração do Kin phone. 

Isso foi até 2014, quando um rebranding gradual — que mudou logotipos, produtos, serviços e sites da corporação — chegou ao auge com a nomeação de Satya Nadella para o posto de CEO.

Nadella já havia supervisionado a divisão de nuvem da Microsoft e percebeu, na tecnologia, o potencial de se tornar a infraestrutura básica para empresas em todo o mundo. A Microsoft revelou uma nova missão: “capacitar cada pessoa e cada organização no planeta para alcançar mais.”

Hoje, isso se tornou realidade por meio de serviços como Azure Cloud, que sustentam toda a rede AT&T nos EUA, mantendo milhões de pessoas conectadas. Disponível em 52 países, a plataforma alimenta sistemas de saneamento básico e água em Tóquio, serviços educacionais em Londres e e-commerces na África do Sul. 

Atualmente, a Microsoft tem uma identidade mais clara do que nunca. Ao mesmo tempo em que fica longe das manchetes, dos processos antitruste e da margem do espaço, a Big Tech desenvolveu um conjunto de produtos que cumpre sua missão.

Embora a empresa tenha levado 33 anos, desde sua oferta pública inicial, para atingir seu primeiro trilhão de dólares na avaliação de 2019, o próximo trilhão levou apenas dois anos.

Enquanto seus concorrentes estão decolando na justiça e em naves espaciais, a Microsoft está colhendo os frutos de uma estratégia de marca em andamento há 20 anos. Acontece que cinco minutos no espaço não são páreo para uma década na nuvem.

SOBRE O AUTOR

Mick McConnell é CEO da Superunion América do Norte.